À medida que a adoção da inteligência artificial acelera, cresce também a busca por autonomia estratégica e Soberania da IA, isto é, a capacidade de uma nação de exercer controle sobre todo o seu ecossistema de dados, modelos e operações. A adoção da “IA Soberana” consiste na base técnica e infraestrutura física para materializar essa soberania, o que envolve a construção de data centers locais, a aquisição de unidades de processamento gráfico (GPUs) e o desenvolvimento de modelos de linguagem treinados dentro do país.
O Brasil estruturou sua política de desenvolvimento tecnológico por meio de duas frentes: o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) 2024-2028 e o recente lançamento comercial da plataforma SoberanIA, apresentada oficialmente na última terça-feira (19), em Brasília. O PBIA é uma iniciativa coordenada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e pelo Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia (CCT) que prevê o aporte de R$ 23 bilhões ao longo de quatro anos, com o objetivo de transformar o país em referência mundial em inovação e eficiência no uso da IA, especialmente no setor público.
Como forma de mapear o nível de adoção da IA Soberana no Brasil e no mundo, a IDC lança o “Building a Sovereign AI Foundation for Government”, estudo patrocinado pela Dell Technologies que mostra como governos e organizações enxergam a tecnologia como ferramenta de autonomia tecnológica, proteção de dados e fortalecimento institucional.
O estudo revela que o Brasil se encontra em fase experimental avançada, com 25% das organizações afirmando estar realizando testes iniciais e provas de conceito de IA soberana no Brasil, superior à média global de 20,5%.
“Testar IA soberana é relativamente simples; o desafio é transformar esses pilotos em operações reais, escaláveis e sustentáveis. Quando o projeto sai do piloto, entram questões como infraestrutura robusta, segurança, compliance, integração de sistemas e necessidade de equipes especializadas. Tudo isso exige investimentos maiores e visão de longo prazo”, afirma Vicente Moliterno, diretor de Setor Público da Dell Technologies no Brasil.
A pesquisa foi realizada no 4º trimestre de 2025 com mais de 250 tomadores de decisão de TI governamental em seis países: EUA, Canadá, Brasil, Alemanha, Reino Unido e França, incluindo órgãos federais, estaduais, defesa e institutos de pesquisa.
Em que pé está a adoção por organizações públicas brasileiras
A pesquisa mostra que, no Brasil, 61,1% das organizações governamentais não utilizam IA soberana, mas planejam investir nos próximos 12 a 18 meses. O número é bem próximo da média global de 60,5%, reflexo da abertura do País em receber novas tecnologias.
No entanto, quando partimos para o ponto de vista de investimento real acontecendo, apenas 8,3% dos respondentes brasileiros afirmam estar investindo significativamente em tecnologias de IA soberana, valor bem abaixo dos 15,5% observados globalmente.
“Existe uma preocupação relevante com os investimentos necessários em infraestrutura, segurança e conformidade regulatória, especialmente em um cenário em que as regras ainda estão evoluindo”, afirma Moliterno.
Os dados refletem isso: o Brasil demonstra uma preocupação maior que o mundo em relação a custos elevados de infraestrutura local, segurança e compliance, segundo levantamento. São 41,7%, ante 31,4% globalmente.
“Soma-se a isso questões extremamente sensíveis de privacidade e soberania de dados, que sempre serão temas de atenção no setor público. Sem clareza total sobre governança e regulação, parte das organizações acaba adotando uma postura mais cautelosa, esperando o amadurecimento do mercado e exemplos mais consolidados antes de avançar”, acrescenta o executivo.
Foi identificada também uma resistência por parte das organizações brasileiras em adotar a IA soberana: 27,8% ante 22,1% no cenário global, uma diferença relevante. Para Moliterno, a resistência está muito ligada à percepção de complexidade e risco, com boa parte das organizações enxergando essa tecnologia como algo difícil de implementar e manter, principalmente pela falta de suporte especializado e de profissionais capacitados.
O estudo identificou, por exemplo, que no Brasil, 52,8% apontam a complexidade da tecnologia e a ausência de suporte adequado para gerir ambientes de IA soberana como uma das principais preocupações. “Isso reflete o receio de que as equipes de TI não tenham hoje toda a experiência necessária para projetar, operar e manter pilhas de IA soberana altamente especializadas em escala”, afirma o diretor.
A crise de escassez de profissionais capacitados
Essa preocupação, no entanto, é global, e se mostra ainda maior entre os países consultados para a pesquisa (55,4%). A escassez de profissionais de TI capacitados para lidar com uma tecnologia que evolui todos os dias, junto da necessidade crescente de infraestrutura que a IA exige, tem sido um dos principais obstáculos para a implementação da tecnologia em larga escala.
A falta de profissionais qualificados em IA soberana foi mencionada por 44,4% no Brasil, levemente acima da média global de 41,9%. Já a dificuldade de acesso a dados de alta qualidade e específicos de domínio foi citada por 36,1% dos brasileiros, contra 34,9% globalmente.
“O Brasil precisa acelerar a capacitação de talentos em áreas como IA, cibersegurança, nuvem e governança de dados. Isso passa por uma aproximação maior entre empresas, universidades, centros de pesquisa e setor público, criando programas mais conectados às demandas reais do mercado”, afirma Moliterno.
Outro fator fundamental mencionado pelo executivo é o investimento em requalificação profissional, de forma a preparar quem já está no mercado para trabalhar com novas tecnologias. “A IA que vai atender às necessidades do Brasil precisa ser construída por profissionais que entendam o contexto, a cultura e os desafios do país”, acrescenta.
No Brasil, especialistas em cibersegurança foram apontados como os mais difíceis de contratar, citados por 75% dos respondentes. A dificuldade com perfis de implementação de Zero Trust aparece com 58,3%, enquanto arquitetura e operações de nuvem soberana foram mencionadas por 44,4%. Já profissionais de IA generativa (Prompt Engineers, AI Model Engineers) foram citados por 41,7% no Brasil, número abaixo dos 47,3% globais.
Autonomia em IA e redução da dependência externa
Moliterno explica que um dos efeitos colaterais da explosão no uso de IA é a dificuldade de acompanhar a evolução da tecnologia, o que torna o Brasil — entre outros países — dependentes de plataformas que são desenvolvidas em mercados que dominam essa fronteira tecnológica.
“Os dados da pesquisa mostram que o Brasil ainda tem uma dependência relevante de fornecedores estrangeiros em infraestrutura, plataformas e conhecimento técnico em IA. Ao mesmo tempo, existe uma percepção crescente de que sistemas críticos precisam de mais controle local, principalmente quando falamos de dados sensíveis, segurança e continuidade operacional”, afirma o diretor.
Para os brasileiros, a redução da dependência de fornecedores estrangeiros para sistemas críticos de IA é uma das principais metas, mencionadas por 44,4% no Brasil, ante 28,3% no cenário global. Essa é uma das maiores diferenças observadas entre o país e o mundo.
Além disso, três em cada dez organizações nacionais citaram a curadoria e proteção de bases de dados nacionais, contra 23,3% globalmente. Menor exposição à vigilância estrangeira e vulnerabilidades na cadeia de fornecimento foi mencionada por 38,9% no Brasil, alinhado com os 37,6% globais.
“Mais do que simplesmente substituir fornecedores externos de forma imediata, o caminho parece ser construir capacidade nacional gradualmente, criando mais autonomia tecnológica e estratégica ao longo do tempo”, explica Moliterno.
Para avançar nessa direção, segundo o executivo, o país precisa investir em infraestrutura local, formação de talentos, desenvolvimento de ecossistemas de inovação e regras mais claras para governança e uso de IA. Também é essencial ampliar a colaboração entre setor público e privado, porque essa transição dificilmente acontece de forma isolada.
“A nossa visão na Dell é que é crucial desenvolver ecossistemas de talentos domésticos, em vez de depender estruturalmente de expertise importada. Por isso parcerias público-privadas tendem a ter um papel importante para ampliar acesso à capacitação, acelerar a formação técnica e criar ecossistemas de inovação mais fortes no país”, afirma.
Preservação cultural e linguística
Segundo Moliterno, essa busca por autonomia reflete uma preocupação importante das organizações governamentais brasileiras: garantir que a IA reflita a realidade local e suas particularidades, e não apenas modelos treinados com referências externas. A IA soberana é o caminho para esse tipo de construção.
“Na prática, a implementação de uma IA soberana permite desenvolver soluções mais alinhadas ao português do Brasil, aos regionalismos, às diferenças culturais e aos contextos sociais locais. Isso ajuda a criar sistemas mais naturais, inclusivos e eficientes para a população”, afirma o diretor.
Segundo a pesquisa, o Brasil também aparece acima da média na priorização de preservação cultural e linguística, com 41,7% contra 33,7% globalmente. “Também existe um ponto estratégico, que é quando os dados e os modelos são desenvolvidos com foco na realidade brasileira, reduzimos o risco de vieses culturais e aumentamos a capacidade de preservar conteúdos, referências e formas de comunicação que fazem parte da nossa identidade”, acrescenta Moliterno.
Seis em cada dez respondentes brasileiros concordam que a colaboração público-privada desde o início é a forma mais eficaz de desenvolver ecossistemas de IA soberana, demonstrando consenso relevante em torno desse modelo. No entanto, o país ainda enfrenta obstáculos para estabelecer essas parcerias em IA.
Entre as principais barreiras mencionadas estão o compartilhamento de dados (privacidade e padrões incompatíveis) — apontados por 7 em cada dez organizações –, a ausência de marcos regulatórios claros para colaboração em IA (66,7%) e preocupações com stakeholders, cidadãos e empresas (55,6%).
Adoção de IA agêntica pelo setor público
No Brasil, 44,4% das organizações planejam investir em IA agêntica nos próximos 12 a 18 meses. Porém o que realmente chamou atenção na pesquisa foi o alto percentual de organizações brasileiras sem planos de investir na tecnologia: 50%, contra 35,7% globalmente, sugerindo que o tema ainda não ganhou tração estratégica no país.
De acordo com Moliterno, a resistência acontece porque a IA agêntica ainda é vista como uma tecnologia em estágio inicial dentro do setor público brasileiro. Muitas organizações ainda estão estruturando estratégias mais básicas de IA e, por isso, enxergam os agentes autônomos como um passo mais avançado e complexo.
“Também existe uma preocupação forte com segurança, privacidade e governança. Como a IA agêntica pode automatizar decisões e executar tarefas de forma mais autônoma, o nível de exigência em controle, transparência e supervisão acaba sendo muito maior”, acrescenta o executivo.
Para a Dell, o caminho para mudar esse cenário começa com casos de uso menores e bem monitorados, além do fortalecimento de práticas de governança e investimento em capacitação. “Nós acreditamos que esse cenário irá mudar rapidamente ao passo que as organizações públicas e privadas passem a ter mais domínio técnico da adoção dessa tecnologia, e que as discussões sobre maturidade organizacional, confiança, governança e preparo regulatório avancem no nosso país”, explica.
Retorno esperado
O principal benefício citado globalmente foi maior controle sobre residência de dados e dados estratégicos nacionais, mencionado por 55,8% dos respondentes.
No Brasil, o principal retorno esperado está na segurança nacional. A área está, inclusive, no topo da lista de prioridades para implementação de IA no País, segundo o levantamento, com 63,9% das organizações apostando em segurança pública e proteção de infraestrutura crítica — valor bem acima dos 53,9% globais.
Outros fatores que se destacaram na pesquisa incluem a criação de empregos e novas indústrias orientadas por IA, ganhos de produtividade e vantagem competitiva global. Áreas de operações de TI e suporte foram mencionadas como prioridade para adoção da tecnologia por 55,6% dos brasileiros, abaixo dos 67,1% globais.
“É fundamental transformar o atual interesse e os projetos piloto em investimentos significativos e escaláveis. Isso inclui priorizar iniciativas de IA soberana em agendas de transformação digital, com orçamento, metas e indicadores claramente definidos. Isso passa, por exemplo, por ter políticas claras que equilibrem controle nacional com responsabilidade ética e transparência, e também com a promoção de Parcerias Público-Privadas (PPPs), permitindo que o setor público se apoie na expertise, na infraestrutura e nas soluções do setor privado, construindo modelos de parceria que preservem a soberania dos dados e das decisões”, finaliza Moliterno.