O avanço acelerado da inteligência artificial está redefinindo o ritmo da transformação empresarial e ampliando a urgência de reimaginar os negócios. Mas, à medida que investimentos e adoção se multiplicam, permanece um desafio central: transformar esse movimento em valor. Hoje, 56% dos CEOs globais dizem ainda não obter resultados de suas iniciativas de IA, e apenas 6% das organizações relatam aumento superior a 5% no Ebitda atribuído à tecnologia. Os números foram levantados pela McKinsey & Company e apresentados no AI & Digital Forum, evento realizado pela consultoria nesta quarta-feira, 26, em São Paulo.
No encontro, executivos e especialistas discutiram como a velocidade de evolução da IA vem colocando em xeque modelos organizacionais construídos para uma realidade diferente da atual. Na abertura, Heloisa Callegaro, managing partner da Lideranças empresariais se reuniram no AI & Digital Forum, em São Paulo, para discutir como a tecnologia está transformando a operação e os resultados das empresas McKinsey no Brasil, resumiu a mudança de foco. “Antes, discutia-se o potencial de AI. Agora, a pergunta é como transformar o potencial em impacto”, afirmou. Segundo ela, a maior parte dos projetos da consultoria já está relacionada à tecnologia e todos os times usam ferramentas de IA de forma profunda.

Heloisa Callegaro, managing partner da McKinsey no Brasil e Alessandro Rosa, sócio sênior da McKinsey Foto: Divulgação/McKinsey
A questão, portanto, não é mais decidir se a IA fará parte dos negócios, como pontuou Alessandro Rosa, sócio sênior da McKinsey. “Nos últimos anos, tivemos a oportunidade de acompanhar algumas das transformações digitais mais relevantes na América Latina. Apesar dos contextos distintos, uma conclusão aparece de forma consistente: a tecnologia, por si só, deixou de ser o fator limitante”, disse.
Os modelos evoluem rapidamente, as capacidades se expandem em ritmo impressionante e novas soluções surgem praticamente todos os meses. “O verdadeiro desafio passou a ser outro: como transformar esse avanço tecnológico em mudança organizacional, em produtividade, em crescimento e em impacto sustentável no resultado do negócio”, destacou Rosa. “Ouço sempre dos executivos que eles veem IA em toda parte, menos no bottom line”, complementou Johannes-Tobias Lorenz, sócio sênior da McKinsey na Alemanha e líder global de Rewired – a metodologia da McKinsey para auxiliar organizações na transformação digital.
Nova lógica
Durante o evento, Lorenz apresentou detalhes sobre a abordagem Rewired: mais do que implementar iniciativas isoladas de IA, as empresas precisam reimaginar seus negócios para capturar, de forma contínua e em escala, o valor possibilitado pela tecnologia. As organizações podem evoluir num framework que combina seis elementos- estratégia orientada ao negócio, talento, modelo operacional, tecnologia, dados e adoção e escala.
A transformação deve partir da demanda, não da oferta. “É preciso priorizar os domínios do negócio, começando com as necessidades e expectativas dos clientes”, ressaltou Lorenz. O sócio sênior também chamou a atenção para uma mudança no diferencial das empresas. “Os modelos de tecnologia serão cada vez mais comoditizados. O que vai criar vantagem competitiva são os fluxos de trabalho, os dados proprietários e a reputação institucional.”

Lideranças empresariais se reuniram no AI & Digital Forum, em São Paulo, para discutir como a tecnologia está transformando a operação e os resultados das empresas Foto: Divulgação/McKinsey
Mudar essa lógica não é fácil. “É muito fácil se apaixonar pela tecnologia — e não pelo problema”, destacou Yran Dias, sócio sênior da McKinsey no Brasil. Para muitos líderes, o grande desafio hoje é aprender a desaprender. “Estamos avançando da automação tradicional para a era da IA Agêntica. Essa nova era muda também a forma de liderar – com mais velocidade, aprendizado contínuo e capacidade de adaptar prioridades e recursos”, concluiu Yran.
Tempo de mudança
A mesma discussão apareceu na apresentação de Salim Ismail, que liderou a Singularity University na sua fundação e autor do best-seller Organizações Exponenciais. Segundo ele, parte da dificuldade está nos limites humanos. “Nossa capacidade de absorver transformações exponenciais é muito baixa”, disse.
Quem também participou do AI & Digital Forum foi o CEO do Itaú Unibanco, Milton Maluhy Filho, em uma conversa moderada por Vijay Gosula, sócio sênior da McKinsey. Maluhy destacou como a IA ganhou espaço central na estratégia do banco. “A mudança vai acontecer, queira a gente ou não. O papel do CEO de qualquer organização é reconhecer que há uma transformação acontecendo – e você percebe isso quando você vê que o cliente mudou e a forma de entregar valor também”, declarou o executivo.
Maluhy também destacou que a transição para uma mentalidade focada em IA começou pela construção de bases sólidas. “Quando veio a discussão de IA, percebemos que não poderíamos ser seguidores, precisávamos ser líderes”, disse. “Para alcançar isso, reconhecemos que era preciso investir o tempo necessário para criar todas as fundações para a IA, para que depois pudéssemos fazer experimentos em escala com velocidade.”