O livro “Abundância”, dos jornalistas americanos Ezra Klein e Derek Thompson, publicado em 2025, faz uma pergunta importante para se entender a insatisfação difusa por trás do conturbado cenário político-social da atualidade: se a tecnologia avançou tanto nas últimas décadas — smartphones, inteligência artificial, biotecnologia –, por que a vida do americano médio parece ter piorado? Uma das principais respostas dos autores, que gerou um debate acirrado nos Estados Unidos, é que o problema é um excesso de travas institucionais, em parte ligadas à agenda progressista.
Klein e Thompson notam que há muitos subsídios para o consumo de diversos bens e serviços nos EUA, mas não apoio para se produzir esses produtos de forma mais barata. Em outras palavras, gasta-se dinheiro com a demanda, mas não se incentiva a oferta.
Segundo os autores, apesar de toda a parafernália de dispositivos eletrônicos e informáticos que hoje estão alcance de quase todos, os norte-americanos dos anos 50 e 60, limitados a eletrodomésticos e TV analógica, tinham acesso mais fácil a casa própria (o número médio de anos requerido para adquirir um imóvel subiu de 2,3 na década de 50 para sete nos anos 2000), plano de saúde e ensino superior para seus filhos. Os americanos de hoje, às voltas com grande endividamento, têm dificuldade em garantir esses pilares da vida da classe média.
O caso mais importante e emblemático é o da habitação – questão também abordada no livro “Understanding Affordability – The Economics of Housing Markets”, de Geoffrey Meen e Christine Whitehead, como observa o economista Manoel Pires, do FGV-IBRE. Pires fez apresentação nessa segunda-feira (14/9) no IBRE sobre grandes questões econômicas subjacentes à economia mundial na atualidade, mas que, por serem menos óbvias, estão fora do debate no Brasil, incluindo o eleitoral.
Uma das teses de Klein e Thompson é que regras de zoneamento restritivas e códigos de construção complexos e rígidos se tornaram, na prática, ferramentas de exclusão. Há várias camadas nesse fenômeno, que se combinam para formar um problema de difícil solução.
Por um lado, a própria agenda progressista, com suas agendas ambientais, de proteção a minorias etc. contribui para dificultar e encarecer projetos habitacionais e de infraestrutura. Some-se a isso que os Estados Unidos são uma sociedade de alta judicialização, o que frequentemente encarece ou inviabiliza projetos (a ênfase é nos procedimentos, e não no resultado).
Finalmente, há a “democracia dos proprietários”. Uma vez que a maioria dos eleitores é proprietária de imóvel, e que a habitação é o principal componente da riqueza dessas famílias, forma-se uma coalizão eleitoral majoritária cujo interesse patrimonial é a valorização dos imóveis – e não o seu barateamento, como visaria uma agenda de aumento da acessibilidade à casa própria para quem está começando a vida.
Outra questão abordada são as pensões urbanas, sistema barato de moradia coletiva que abrigou gerações de trabalhadores, e que foram se tornando ilegais à medida que o zoneamento e os códigos de construção avançavam.
O mesmo padrão de restrições institucionais se repete na infraestrutura e na ciência nos Estados Unidos, segundo os autores. Há o exemplo do projeto do trem de alta velocidade da Califórnia, aprovado em referendo em 2008 e que, quase duas décadas depois, praticamente não saiu do papel. Não foi por falta de recursos, apontam Klein e Thompson, mas por multiplicação de exigências ambientais, judicialização, competição entre agências e prefeituras e uma cultura de governo mais preocupada com o rito do que com a entrega.
Na política científica, o diagnóstico é parecido: verbas do NIH (National Institutes of Health) concentradas em pesquisa já consolidadas, e com muitas regras, são contrastadas – de forma vantajosa para esta segunda – com a DARPA (Defense Advanced Research Projects Agency), em que os recursos para pesquisa são acompanhados por mais discricionariedade dos cientistas e menos condicionamentos. E ainda se cita o endurecimento da imigração e a crescente burocracia – com cientistas gastando cerca de 40% do seu tempo preenchendo relatórios, e redigindo propostas e orçamento – como fatores de entraves à pesquisa científica.
Klein e Thompson batizam esse conjunto de problemas de “liberalismo anticrescimento”: um ambiente institucional em que múltiplos objetivos de política pública, incentivos ao litígio e excesso de controle de processo inibem a produção – mesmo quando as intenções, do ponto de vista distributivo ou ambiental, são as melhores possíveis. Assim os Estados Unidos seriam um Estado de advogados, que não consegue parar de bloquear; enquanto a China é um Estado de engenheiros, que não consegue parar de construir. Nos EUA, essa perda de capacidade de entrega do Estado seria um dos fatores por trás da queda da confiança dos americanos no governo, de 77% em 1964 para 16% em 2023.
Os problemas de excesso de regulação, multiplicidade de objetivos (por vezes contraditórios) das políticas públicas e de alta judicialização, abordados por Klein e Thompson, podem perfeitamente servir de diagnóstico também para o Brasil, especialmente na infraestrutura, em que a esses entraves se soma ainda a penúria fiscal de um Estado que escolheu transferir em vez de investir.
Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)
Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 15/9/2026, terça-feira.