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“Benefício da dúvida” para Flávio dá o tom dos mercados

A equipe econômica de Lula se beneficia quase que imediatamente do fato de o presidente ter sido derrotado no primeiro turno e de que suas chances de reeleição tenham diminuído consideravelmente. Esse desdobramento com sabor paradoxal ocorre porque o governo está sendo agraciado com uma grande queda dos juros em prazos importantes para a captação pelo Tesouro. Em outras palavras, financiar o governo ficou subitamente mais barato.

Com o resultado do primeiro turno, o mercado estendeu instantaneamente a Flávio Bolsonaro o chamado “benefício da dúvida”. Na visão da maioria dos profissionais cujo trabalho é transacionar dinheiro, eventual vitória de Lula é a certeza do “mais do mesmo” em termos de política fiscal, isto é, uma gestão das contas públicas insuficiente para colocar a relação dívida/PIB em trajetória sustentável.

Aliás, embora o ministro da Fazenda, Dario Durigan, reconheça que a questão fiscal é um entre outros fatores para o elevadíssimo juro real brasileiro, muitos economistas próximos ao PT insistem que as contas públicas foram ajustadas neste terceiro mandato de Lula. Dessa forma, o fiscal não pode ser causa do juro alto, e, pelo contrário, é o juro alto o responsável pelo desequilíbrio fiscal.

A prova de que os investidores rejeitam essa visão é o fato de o Tesouro colher a grande queda de juros mencionada no início desta coluna, apenas pela redução das chances de Lula ser reeleito.

No caso de vitória de Flávio Bolsonaro, o mercado tem esperança, mas não certeza, de que o desequilíbrio fiscal vai ser atacado de forma mais consistente. O candidato não falou nada com um mínimo de consistência sobre como pretende fazer o ajuste fiscal, mas os operadores consideram que não há como ser explícito em relação ao tema em plena campanha eleitoral.

Assessores econômicos e economistas próximos de Flávio, como Daniela Marques e Adolfo Sachsida, divulgaram ideias com mais detalhe. Não se chegou a nada incisivo como propor explicitamente (e não voltar atrás) a desvinculação de aposentadorias e benefícios sociais do salário mínimo, ou o congelamento do valor real do mínimo. Por outro lado, a direção geral das propostas de Marques e Sachsida em termos fiscais é percebida como satisfatória enquanto a eleição ainda estiver em andamento.

Mas essa indulgência não dever durar muito depois que Flávio for eleito, se de fato seu favoritismo se confirmar. Uma primeira condicionante para se manter a lua de mel com os mercados são os nomes da equipe econômica do futuro presidente. Até agora a proeminência nessa área é de Marques, que é vista como boa executiva, mas não como formuladora.

Outros nomes ventilados, como os dos economistas Marcelo Kayath e Andrei Spacov, são vistos como competentes, mas uma escolha para o Ministério da Fazenda que reuniria capacidade de formulação, execução e montagem de equipe, na percepção de muitos no mercado, seria a do ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto.

A escolha de nomes para equipe econômica, no entanto, é só um primeiro passo. Para manter a confiança do mercado – incluindo a redução do custo de captação do Tesouro, que por si só diminui o ajuste de primário necessário, num círculo virtuoso -, será preciso apresentar um programa consistente e crível de ajuste fiscal. Propostas detalhadas não faltam, com as dos economistas Fabio Giambiagi e Marcos Mendes, para ficar apenas em dois exemplos.

Finalmente, o programa apresentado deve ter alta probabilidade de ser aprovado no Congresso sem muitas diluições. O fato de o PL ter conquistado grandes bancadas de 121 deputados e 19 senadores na Câmara e no Senado, respectivamente, além do bom desempenho de partidos de centro-direita, aponta na direção de uma potencial coalizão para Flávio capaz de aprovar pacotes ambiciosos.

Ainda assim, medidas “impopulares” de ajuste fiscal costumam causar alergia nos parlamentares, e é preciso muita articulação, vontade política e capacidade de convencimento do Congresso e da opinião pública. É muito discutível se Flávio, com sua trajetória política medíocre e pontilhada por escândalos, antes da atual eleição, tenha as qualidades necessárias para tocar uma agenda desse tipo.

De qualquer forma, o benefício da dúvida foi conferido ao candidato de oposição. Até 25 de outubro, o sobe e desce dos ativos brasileiros corresponderá aos aumentos de chance de eleição de, respectivamente, Flávio e Lula. A partir dessa data, no entanto, Flávio, se ganhar, terá de fazer entregas concretas, se quiser manter a  boa vontade dos mercados: de nomes, programa, viabilidade do programa e – o mais difícil – capacidade de liderar o País  numa trilha de mudanças difíceis e dolorosas no curto prazo.

Nesse sentido, a inclinação do bolsonarismo de cortejar o autoritarismo e ameaçar a democracia é receita certa para criar turbulências políticas, que certamente afetarão negativamente a capacidade de entregar o ajuste fiscal sonhado pelo mercado.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 6/10/2026, terça-feira.

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