Eu precisei parar e pensar antes de escrever esse artigo. Não porque o tema é complicado. Porque ele é simples demais para o barulho que está fazendo.
Hoje, o Senado vota se o Brasil vai acabar com a escala de trabalho de seis dias por um de descanso. Se der certo, a jornada semanal cai de 44 para 40 horas. O mesmo salário. Menos horas. Parece bom. E, em parte, é. Mas tem um lado dessa conta que ninguém está explicando com clareza, nem para quem trabalha nem para quem tem negócio nem para quem compra o pão de todo dia.
Vou tentar fazer isso aqui.
Para quem trabalha em turno, no caixa de supermercado, no balcão de farmácia, quatro horas a menos por semana é uma diferença real na vida. É uma tarde com o filho. É uma consulta médica que não precisava ser remarcada. É o tempo que, até ontem, o trabalho ocupava e que agora pode ser de quem trabalha. Esse benefício é concreto, é humano e eu não vou fingir que não existe.
Veja também
Mas o benefício depende de uma condição que não é garantida: que o salário pague as contas. E, para os 83,3 milhões de brasileiros adultos que estavam negativados em abril deste ano, segundo a Serasa, a hora livre conquistada vai virar segunda atividade antes de virar descanso. Jornada menor não é sinônimo de vida melhor se a dívida não some junto.
Para quem tem negócio, pequeno ou médio, a conta chega, como sempre, e já em um cenário de muitos boletos e impostos a pagar. E ela é direta. Quando a jornada cai, o custo de cada hora trabalhada sobe. Um funcionário que trabalha 176 horas por mês passa a trabalhar 160. Se o salário é o mesmo, cada hora ficou 10% mais cara do que era antes. Para uma padaria com seis funcionários, um salão com oito, uma clínica com dez, esse porcentual não é abstrato. É a diferença entre fechar o mês no azul ou no vermelho.
O que o dono desse negócio pode fazer? Basicamente três coisas. Contratar mais gente para cobrir as horas que sumiram, o que aumenta o custo. Repassar para o preço do produto ou serviço, o que pressiona o consumidor. Ou ganhar produtividade para que as 40 horas produzam o mesmo resultado que as 44 produziam antes. A terceira opção é a única que não cobra de ninguém no curto prazo. É também a mais difícil e a que mais demora. E para quem não começou a pensar nisso ainda, o relógio já está correndo.

Depois de passar pela Câmara, agora o fim da escala 6×1 será votado no Senado Foto: WILTON JUNIOR/ ESTADÃO
Existe ainda um risco que quase não aparece no debate. Quando o custo de contratar formalmente sobe além do que o negócio aguenta, uma parcela das empresas começa a contratar de outra forma, até informal, terceirizado. O trabalhador que a lei queria proteger pode acabar perdendo a própria carteira assinada que a lei pretendia tornar mais justa. Essa contradição não é invenção de quem é contra a mudança. É o histórico do mercado de trabalho brasileiro toda vez que o custo formal sobe sem que a produtividade acompanhe.
Mudança sem preparo cobra um preço que invariavelmente recai sobre quem já tem menos margem para errar. A pergunta que fica não é se a mudança é justa. É se o país vai acompanhá-la com as políticas que tornam a justiça sustentável.
A votação acontece hoje. O resultado vai mudar alguma coisa para todo mundo: quem trabalha, quem contrata e quem paga pelo produto no fim da cadeia. Eu prefiro entrar nesse debate sabendo o que está em jogo do que descobrir na conta do mês que vem que tinha uma variável que eu não havia calculado.