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O agro brasileiro contraria o Brasil; planta sob incerteza e escreve uma história de coragem

Enquanto o País discute se ainda há fôlego para crescer, uma parte dele já decidiu a resposta. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) divulgou novas projeções para a safra 2026/27: 367,1 milhões de toneladas de grãos, uma alta de 1,4%, em 85,4 milhões de hectares, 2,3% a mais de área plantada. Números frios que escondem um ato de fé: será a maior safra já colhida no País, num ano em que o bom senso mandaria recuar.

O cenário não poderia ser mais hostil. A taxa Selic segue em 13,75% ao ano, encarecendo o crédito justamente quando o produtor mais precisa dele. A inadimplência no campo vem subindo, e os bancos estão mais rigorosos na concessão de empréstimos.

Estudo do FGV Ibre mostra que, entre 1996 e 2025, a produtividade do trabalho no Brasil cresceu apenas 0,8% ao ano, puxada quase sozinha pelo agro, cujo avanço foi de 6,1% ao ano Foto: Daniel Teixeira/Estadão

O petróleo Brent, perto de US$ 105 o barril, pressiona o diesel, os fertilizantes e os fretes. E paira sobre a lavoura mais de 90% de chance de um El Niño forte, que ameaça excesso de chuva no Sul e falta dela no Cerrado, coração da soja e do milho.

Mas há um contraponto importante que não pode ficar de fora: o preço. A soja voltou a subir, cotada perto de US$ 13,25 o bushel em Chicago e R$ 160 a saca no Porto de Paranaguá, patamar que devolve fôlego às margens.

Somem-se a isso as primeiras chuvas do plantio, já acima do esperado no Centro-Oeste, e a certeza de que China e Índia seguem comprando. O resultado é um entusiasmo real, que explica por que o produtor decide investir mais, e não menos.

Essa resposta não é teimosia, é histórico. Um estudo do Instituto Brasileiro de Economia (FGV Ibre) mostra que, entre 1996 e 2025, a produtividade do trabalho no Brasil cresceu apenas 0,8% ao ano, puxada quase sozinha pela agropecuária, cujo avanço foi de 6,1% ao ano, oito vezes mais rápido que a média nacional.

Não foi sorte nem apenas terra fértil: foi tecnologia, genética de ponta, gestão profissionalizada e a decisão recorrente de continuar a investir justamente quando o ambiente pedia recuo.

Há algo de cinematográfico nessa cena: de um lado, o País amarrado por juros que sufocam o crédito e por setores que, diante da mesma incerteza, escolhem esperar. Do outro, silenciosamente, um setor que decide, ano após ano, plantar mais, não porque o cenário é favorável, mas apesar de ele não ser. É essa a lição mais bonita que o campo tem a ensinar ao Brasil: não é preciso esperar o cenário perfeito para seguir em frente. É preciso acreditar.

É plantando sob incerteza que o produtor brasileiro escreve, safra após safra, a única história de crescimento consistente que este país ainda consegue contar: uma história de coragem, planejamento e visão de futuro.

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