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‘Brazil Journal’ anuncia afastamento de Flávio Carneiro, após revelação de conversas com Vorcaro

Vorcarosfera: 13 ligados a dono do Master se elegem, mas Ciro Nogueira e ACM Neto são derrotados

Jaques Wagner e Rui Costa se elegem para o Senado na Bahia; Flávio vai ao segundo turno para presidente. Crédito: Mariana Cury/ Estadão

O portal Brazil Journal anunciou nesta quinta-feira, 22, o afastamento do empresário Flávio Carneiro de funções executivas e da sociedade na empresa, depois do vazamento de conversas entre ele e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

Por meio de editorial com o título de Um dia triste, o portal informou que a decisão ocorreu porque, “em suas interações com Daniel Vorcaro, o nome do Brazil Journal foi usado indevidamente e de forma que coloca em risco a credibilidade do veículo”. O texto, no entanto, também agradece ao empresário. “Ao longo dos últimos cinco anos, Flávio contribuiu decisivamente para o crescimento comercial e estratégico do grupo”, destaca.

Procurados pelo Estadão, o Brazil Journal não respondeu até a publicação deste texto e Carneiro preferiu não se manifestar.

O empresário tinha participação societária no Brazil Journal e também nos veículos PlatôBR e IstoÉ, com fundos controlados indiretamente por Vorcaro. Como mostrou o Estadão, Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, é o cotista final de um fundo de investimentos que foi sócio desses veículos. As sociedades duraram de 2024 aos primeiros meses de 2025. Além de sócio indireto, Carneiro atuava como conselheiro para assuntos relacionados à mídia e assessor de imagem de Vorcaro.

Daniel Vorcaro (foto) reclamava com Carneiro sobre notícias desfavoráveis a políticos amigos Foto: Banco Master

Conversas de Vorcaro com Carneiro e com a gerente de marketing do Master, Ana Matos, mostram que o banqueiro interferia na produção de conteúdo do Brazil Journal de acordo com seus interesses pessoais. Para isso, revisou rascunhos, sugeriu cortes e acréscimos em textos, além de ter pedido a retirada de links de conteúdos que já estavam no ar e ter combinado a data da publicação de reportagens favoráveis a ele.

Vorcaro chegou a reclamar de publicações feitas sem o seu consentimento, porque isso o teria impedido de atuar para ter ganhos na Bolsa com a notícia e com a possível valorização de ações.

A influência sobre o site começou no início de 2024, com a publicação da compra de três empresas pelo Master: a do banco Voiter, noticiada em 6 de fevereiro, a de participação da farmacêutica Biomm, em 20 de fevereiro, e a do Will Bank, dois dias depois.

Além disso, o banqueiro atuou para alterar outros conteúdos do site, como o do evento 1.º Fórum Jurídico Brasil de Ideias, que contou com a presença do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.

Carneiro é um empresário mineiro que atua no setor de mídia. Ele já foi sócio do jornal Hoje em Dia, e sua família é dona do Grupo Bel, que detém rádios e uma afiliada da TV Record no interior de Minas Gerais. O empresário foi mencionado na delação de Joesley Batista, da JBS, na Operação Lava Jato, como um dos intermediários da suposta propina paga ao deputado Aécio Neves (PSDB). Todas as acusações envolvendo o deputado federal foram arquivadas.

Manipulação de ações

O Brazil Journal foi usado para a divulgação do negócio de Vorcaro com a farmacêutica Biomm, da qual o banqueiro se tornou acionista no início de 2024. Em 30 de janeiro, Vorcaro disse a Carneiro que tinha “uma pauta bacana” sobre a empresa e definiu o enfoque: “Focando no Walfrido visionário e eu entrando de tabela”, em referência ao fundador Walfrido Mares Guia, ministro do presidente Luiz Inácio Lula da Silva entre 2003 e 2007.

Dias depois, Carneiro informou que Geraldo Samor, fundador e publisher do site, “topa” a pauta e que um repórter do site poderia entrevistar Walfrido. A reportagem saiu em 20 de fevereiro, antes que Vorcaro a visse. “Putz, saiu Biomm e eu nem vi”, reclamou o banqueiro. “Não deixa sair coisa nossa sem ver, melhor atrasar o dia. Sempre.”

Em seguida, ele pediu para o texto dizer que o aumento de capital fora “estruturado e ancorado” pelo Master e que o banco era “de Daniel Vorcaro”, “pra rankear meu nome”. Carneiro respondeu, horas depois: “Editado”. O texto publicado diz que a operação foi “estruturada e ancorada pelo Banco Master”, mas sem citar Vorcaro.

As mensagens indicam que a data da publicação importava para Vorcaro por causa da Bolsa, onde as ações da Biomm são negociadas. “No da Biomm, por exemplo, eu tinha uma estratégia pra fazer em bolsa no dia que fosse sair. Saiu sem eu ver”, escreveu ele a Carneiro em 22 de fevereiro.

Dois dias depois, ao discutir uma série de reportagens sobre a empresa, foi mais explícito: “Quero fazer bombar essa ação”. E completou: “Essa empresa está hoje por 600 milhões, eu acho que em três anos ela vai valer 50 bi. No mínimo. Já quero puxar pra 3 bi agora só nas reportagens”.

Essa troca de mensagens alimenta suspeitas de manipulação de ações da farmacêutica. Reportagem do site NeoFeed, nesta quarta-feira, 21, mostra como o salto na valorização da fornecedora de insulina para o governo brasileiro coincide com a cobertura do site de negócios alinhada conforme as orientações de Vorcaro.

Entre os dias 20 e 26 de fevereiro de 2024, as ações da Biomm quase dobraram de valor: tiveram uma valorização de 98,12%. O papel saiu da cotação de R$ 5,84 para R$ 11,57. Seu valor de mercado, em apenas cinco pregões no período, saiu de R$ 740,7 milhões para R$ 1,46 bilhão. Um ganho de R$ 726,8 milhões em valor de mercado, sem que houvesse no período nenhum fato relevante divulgado pela empresa que trouxesse informação estratégica ou projeção futura, ressaltou o NeoFeed.

O site de notícias também menciona que a movimentação atípica naquele momento chamou a atenção da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que, no dia 23 de fevereiro, em meio à disparada de ações da farmacêutica após a matéria do Brazil Journal, enviou um ofício à companhia pedindo informações.

A companhia informou, em fato relevante à época, ter dito à autarquia que a alta poderia estar relacionada a um aumento de capital, realizado no início daquele mês. Também disse, ainda conforme o NeoFeed, que houve comunicados de reduções e aumentos de participações de outros acionistas.

“Na visão da companhia, a divulgação dessas informações, juntamente com a homologação do aumento de capital com a subscrição e integralização do seu valor máximo, bem como o ingresso de novos acionistas, podem, eventualmente, ter contribuído para uma sinalização positiva perante o mercado”, disse a Biomm, no comunicado.

Só que, nos dois dias seguintes à aprovação do aumento de capital, em 6 de fevereiro, as ações registraram queda: redução de 0,38% no dia 7 de fevereiro de 2024 e retração de 1,32% ao fim do pregão seguinte, relata o NeoFeed.

Procurada pelo NeoFeed, a Biomm afirmou que “não tinha conhecimento das entrevistas mencionadas nem da forma como foram realizadas, e o tema não foi levado ao conhecimento do conselho de administração”. E complementou: “a respeito das oscilações atípicas registradas em 2024, a companhia esclarece que todas as informações foram devidamente prestadas à época por meio dos canais oficiais da B3 e da CVM”.

Em dezembro de 2025, o NeoFeed já havia exposto um repentino aumento na movimentação de ações da Biomm, com 1.780 operações de vendas entre abril de 2024 e novembro de 2025, alcançando o volume de R$ 68,9 milhões. O valor era 231% maior do que todo o volume negociado em 2023, antes da chegada do Master. À época da surpreendente movimentação financeira, a Biomm tinha como principal acionista o Fundo Cartago, ligado ao Master, com 25,86% de participação.

Influências em outros veículos de mídia

Vorcaro reclamava com Carneiro sobre publicações nos sites em que era acionista, que considerava desabonadoras contra amigos dele, como o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), o deputado Arthur Lira (PP-AL) e o senador Ciro Nogueira (PP-PI).

Uma delas era um vídeo, publicado pelo PlatôBR, em maio de 2025, que mostrava um abraço de Ciro Nogueira no empresário Ricardo Magro, da Refit, considerado o maior sonegador do País, durante um evento em Nova York. “Ou resolve isso agora em todos. Ou tá cancelado todo o projeto. Isso passou dos limites”, disse Vorcaro em uma sequência de três mensagens.

Carneiro informou que o vídeo em questão estava somente na página pessoal do então colunista do site, sob protesto do banqueiro: “Não dá para bancar agenda própria de caras contra o cara que é um irmão. Única resistência fiel que tenho”.

O dono do PlatôBR concordou com a observação do banqueiro, mas disse que não dava para “escancarar pro cara”. Do contrário, Vorcaro “ficaria muito exposto”. A mensagem sugere que Carneiro não poderia expor a sua relação com o banqueiro para o jornalista responsável pela publicação.

Em 20 de setembro de 2024, o banqueiro já havia escrito a Carneiro: “Qq coisa de ciro arthur hugo (sic) não pode sair nada sem me falar”. Antes da ordem, Vorcaro havia encaminhado a Carneiro uma imagem de uma publicação sobre Arthur Lira e exigido a remoção. “Porra, cara. Tira isso do ar agora”, escreveu.

A reportagem do Estadão não confirmou qual era o conteúdo reclamado nem em qual veículo havia sido publicado. “Ok. Vou colocar o Lira nessa lista agora. Realmente não tava”, respondeu o conselheiro. Na época, Lira estava deixando a presidência da Câmara e articulando Motta como seu sucessor à frente da Casa.

Duas semanas antes, Vorcaro reforçou uma determinação a Carneiro sobre Hugo Motta. “So pra avisar. Nenhum de nossos veículos pode falar NADA contra Hugo Motta. Estão tentando plantar coisas contra. Segure isso”, escreveu o banqueiro, em uma sequência de quatro mensagens, em 4 de setembro.

Três meses depois, em dezembro de 2024, a Polícia Federal deflagrou uma operação para investigar desvios de emendas parlamentares de Hugo Motta. O banqueiro enviou para Carneiro o link de uma notícia publicada no Instagram do site Metrópoles e reclamou: “Foda, hein. Cara, nem tá na operação. Metrópoles tá foda”.

Mensagens trocadas pelo banqueiro com a CEO do Metrópoles, Lilian Tahan, mostram que Vorcaro também editava reportagens, derrubava textos e sugeria pautas ao portal, que pertence ao empresário e senador cassado Luiz Estevão.

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