O ambiente econômico mundial tem se mostrado de muita incerteza e dois grandes riscos de naturezas distintas ficam mais evidentes. De um lado, o crescimento da dívida pública dos países e a dificuldade para financiá-la. De outro lado, o receio de que haja uma correção expressiva dos preços das empresas ligadas à inteligência artificial (IA). Cada uma dessas situações tem capacidade de gerar grandes problemas. No entanto, o maior risco está na possibilidade de que a crise iniciada em uma delas leve ao agravamento do outro problema.
O primeiro risco tem origem fiscal: segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), a dívida pública mundial deverá ultrapassar 100% do produto interno bruto global até 2030. A vulnerabilidade fiscal, que o nosso país também vive fortemente, faz com que a maior parcela do orçamento seja destinada a juros e, assim, reduz o espaço para outros gastos. Isso não significa que uma recessão seja inevitável. O risco é que o maior custo financeiro se transmita às empresas e às famílias, reduzindo investimentos, consumo e atividade econômica.

Além do desemprego, há um outro risco em jogo com a IA: uma frustração de expectativas de investidores poderia atingir não apenas os acionistas, mas também credores e instituições financeiras Foto: Peter Hamlin/AP
O segundo risco vem dos investimentos em IA, que estão crescendo em velocidade extraordinária e ainda não está claro se os retornos acompanharão esse ritmo. Não se discute o poder transformador da IA, mas a questão financeira.
Em outubro, o FMI examinou 14 grandes operações de financiamento relacionadas à IA envolvendo aproximadamente US$ 300 bilhões em capital próprio, US$ 650 bilhões em dívidas e compromissos de receitas futuras de US$ 1,4 trilhão.
Esses valores não representam o endividamento total do setor, mas revelam a dimensão e a complexidade financeira que sustenta parte dos investimentos. Uma frustração das expectativas poderia, portanto, atingir não apenas os acionistas, mas também credores e instituições financeiras, o que pode provocar um ajuste de preços muito forte.
Os dois riscos aparentam ser independentes, mas existe uma relação importante entre eles. Em geral, uma crise das Bolsas faz com que os investidores busquem proteção nos títulos públicos de países mais seguros. Situação que eleva o preço dos títulos e reduz seus rendimentos, ajudando a compensar parte das perdas nos mercados acionários. Mas essa compensação não é garantida.
O risco mais preocupante está na possibilidade de que a deterioração de um mercado retire do outro sua capacidade de funcionar como proteção. A IA precisa financiar sua expansão. Os governos, suas dívidas. O maior perigo surge quando a crise de um compromete a estabilidade do outro. O problema não é apenas quando uma crise alimenta outra, mas descobrir que a proteção também está em crise.