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A longa marcha dos robôs humanoides

Vimos na coluna anterior por que os robôs de propósito específico ainda levam vantagem em eficiência, capacidade de carga e acesso a ambientes perigosos. Há, porém, um argumento relevante que favorece, ao menos em teoria, os robôs humanoides: fábricas, armazéns e lojas foram criados tendo-se em mente operadores bípedes que medem entre 1,60 m e 1,80 m: escadas, maçanetas, bancadas, cabines, alturas de prateleira. Adaptar um galpão antigo para robôs de propósito específico exige rampas, piso nivelado e corredores dedicados, enquanto robôs humanoides podem começar a trabalhar com um esforço bem menor de adaptação. Em novos projetos (greenfield), isso vale pouco; em projetos já existentes (brownfield), é uma escolha econômica importante.

Os números de campo já existem: segundo resultados divulgados em novembro de 2025 pela startup Figure AI (financiada por nomes como OpenAI, Nvidia e Jeff Bezos), dois de seus robôs passaram 11 meses na planta da BMW na cidade de Spartanburg, no Estado da Carolina do Sul (EUA). Realizaram turnos de dez horas de segunda a sexta, mais de 90 mil peças de chapa carregadas, cerca de 1,2 milhão de passos e produção de mais de 30 mil unidades BMW modelo X3. A inserção das peças obteve mais de 99% de sucesso.

Robôs humanoides em operação ainda executam uma tarefa só Foto: Cheng Yu-Chen/AFP

Não se trata de um caso isolado. A Agility Robotics, outra startup norte-americana conhecida pela criação do “Digit” (um robô bípede com pernas articuladas para trás semelhantes às de uma ave), informou que acumula mais de 65 mil horas de operação em nove instalações de clientes, entre elas Schaeffler, GXO, Toyota Motor Manufacturing Canada e Mercado Livre. Só na unidade da GXO, na Geórgia, foram mais de 100 mil totes (caixas ou recipientes de plástico padronizados, comuns em armazéns e centros de distribuição) movimentados, em um contrato de robot-as-a-service (“robô como um serviço”, semelhante ao conceito já bastante difundido no mercado de “software como um serviço”).

Aqui, vale uma observação importante: em ambos os casos, o humanoide executa uma única tarefa repetitiva em ambiente controlado: está sendo usado exatamente como um robô de propósito específico. A ideia de “propósito geral” ainda não é observável no mundo real. E a escala ajuda a calibrar expectativas: de acordo com a segunda parte do relatório Physical AI, publicado pelo Bank of America Institute em março de 2026, projeta-se que as vendas anuais de humanoides saltem de 20 mil unidades em 2025 para 90 mil em 2026, 1,2 milhão em 2030 e 10 milhões em 2035, refletindo um crescimento de 86% ao ano. O Goldman Sachs, em estudo de fevereiro de 2024, estima um mercado endereçável de US$ 38 bilhões em 2035; o Morgan Stanley, em abril de 2025, fala em mais de US$ 5 trilhões, incluindo cadeia de suprimentos e serviços, com cerca de 1 bilhão de unidades em uso em 2050, 90% delas em trabalho industrial e comercial. Mas o relatório World Robotics 2025, da International Federation of Robotics, lembra que o mundo instalou 542 mil robôs industriais em 2024 (o quarto ano consecutivo acima de 500 mil unidades). Por pelo menos uma década, é provável que os robôs de propósito específico continuem a desempenhar um papel mais relevante no mercado.

A fronteira, aliás, provavelmente será movida por uma combinação de avanços mecânicos (especialmente na parte de habilidade manual) e de utilização de dados. Modelos de linguagem foram treinados com base em trilhões de palavras disponíveis na internet; entretanto, não há um repositório equivalente para gestos como “abrir uma porta emperrada”, “encaixar um conector” ou “segurar um copo”. Isso ajuda a entender por que os robôs humanoides em operação ainda executam uma tarefa só ou, quando procuram executar mais tarefas, fazem isso de maneira extremamente lenta: falta experiência e um entendimento mais completo do mundo dos átomos. Na próxima coluna, vamos discutir a corrida para construir o “ImageNet das ações”, as apostas concorrentes para chegar lá (robôs operados à distância, vídeos de pessoas trabalhando e simulação) e uma dúvida que o setor ainda não resolveu: se esse acervo, uma vez reunido, será de fato a vantagem decisiva na economia robótica da próxima década. Até lá.

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