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Do 6×1 ao 7×0: quem dará descanso ao produtor rural?

O fim da escala 6×1 pode criar uma contradição no campo: enquanto empregados passam a ter mais descanso, milhares de pequenos e médios produtores rurais terão de trabalhar ainda mais. Para muitas famílias, o resultado será uma escala informal de 7×0: sete dias de trabalho, nenhum de folga.

A agricultura não obedece ao relógio. O plantio depende da umidade do solo; a colheita, do clima e do ponto de maturação. Perder poucos dias pode comprometer uma safra. Na pecuária, os animais exigem cuidados diários. E, em boa parte das propriedades, o produtor não apenas administra: opera máquinas, acompanha a lavoura e divide tarefas com os empregados.

Reduzir horas sem oferecer alternativas viáveis pode transferir tarefas ao agricultor e à sua família; a conta não desaparece: muda de mãos Foto: Tasso Marcelo/Estadão

O problema é que já falta gente para contratar. Pesquisa divulgada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), em parceria com o Cepea/Esalq, apontou dificuldades de contratação para 94,8% dos produtores entrevistados; 84,3% disseram trabalhar com equipes menores do que necessitam. Reduzir horas sem oferecer alternativas viáveis pode transferir tarefas ao agricultor e à sua família. A conta não desaparece: muda de mãos.

A dimensão dessa realidade merece atenção. Segundo o Censo Agropecuário de 2017, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 1,6 milhão de estabelecimentos cultivavam milho no País. No conjunto da agropecuária, 77% dos estabelecimentos eram classificados como agricultura familiar. Esses números não significam que todos serão afetados diretamente, mas mostram por que não se pode tratar o campo como se fosse composto apenas por grandes empresas.

Há também o efeito econômico. Passar de 44 para 40 horas semanais sem reduzir salários eleva em 10% o custo salarial por hora dos empregados que cumprem a jornada anterior. Isso não representa aumento de 10% no custo total da produção, mas pressiona margens.

O agricultor de milho e sorgo, sujeito aos preços de mercado, não consegue simplesmente repassar essa conta. Eventuais custos adicionais ao longo da cadeia podem alcançar carnes, ovos e outros alimentos.

Garantir descanso e qualidade de vida aos trabalhadores é legítimo. Justamente por isso, a regulamentação deve contemplar a sazonalidade agrícola, a escassez de mão de obra e formas flexíveis de organização do trabalho, com respeito aos direitos dos empregados.

Não podemos melhorar a jornada de quem trabalha no campo à custa de ampliar indefinidamente a jornada de quem produz ao seu lado. Sem soluções adequadas, o fim do 6×1 poderá significar o início do 7×0 para inúmeras famílias rurais.

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