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Sanção dos EUA a Moraes abala relação com o Brasil

A aplicação da lei, segundo Poggio, foi criada para lidar com regimes autoritários — como Rússia, Venezuela e Arábia Saudita — onde não há garantias de processos legais justos. A surpresa, segundo o professor, está justamente na escolha de um país democrático e aliado histórico dos Estados Unidos como alvo da sanção: “Estamos falando da segunda maior democracia do continente. Isso nunca aconteceu antes”, declarou.

Decisão histórica

O professor destaca que a decisão de sancionar um ministro da Suprema Corte brasileira — e não um agente do crime organizado ou de corrupção — causou “espanto e perplexidade” e pode gerar repercussão internacional:

“A relação Brasil-EUA sempre foi marcada por proximidade. Essa ação coloca o país na mesma lista de regimes autoritários, e isso definitivamente abala as relações diplomáticas de maneira sem precedentes.”

Segundo Poggio, o gesto dos EUA está inserido em uma nova lógica da política externa sob influência do ex-presidente Donald Trump. Ele aponta que o governo Trump rompe com a tradição americana de priorizar instituições multilaterais, o apoio a democracias e os direitos humanos como pilares da diplomacia:

“O Trump desvaloriza a democracia como elemento central e toma decisões com base em interesses ideológicos e econômicos. Essa sanção parece menos sobre direitos humanos e mais sobre pressões internas e interesses específicos.”

Como fica o cenário com ‘tarifaço’?

Além do impacto político, Poggio alerta que a sanção ocorre num momento especialmente delicado: às vésperas da entrada em vigor da nova tarifa de 50% sobre produtos de e-commerce de até US$ 50 — medida imposta pelos EUA e já vista como prejudicial ao Brasil.

“A tarifa dos 50% já era ruim. Agora, com a sanção de uma autoridade do STF, se adiciona uma nova camada de tensão que pode ter efeitos sobre pagamentos internacionais, reputação do país e investimentos externos”, explicou.

O professor também lembrou que decisões como essa aumentam o risco de empresas estrangeiras evitarem negócios com o Brasil por receio de violar as sanções americanas, mesmo que indiretamente.

Maior desafio diplomático

Carlos Poggio comparou o momento atual a dois dos episódios mais tensos da história recente das relações bilaterais: o rompimento de acordos militares durante o governo Geisel em reação às críticas do presidente Jimmy Carter à ditadura militar, e o escândalo de espionagem contra Dilma Rousseff revelado em 2013. Mas, segundo ele, o atual embate supera ambos:

“Na ditadura, fazia algum sentido haver críticas a direitos humanos. Agora, o Brasil é uma democracia. Sancionar um ministro do Supremo é algo inédito. Nem mesmo nos momentos mais tensos houve um ataque institucional tão direto.”

Por fim, Poggio destacou que a condução das relações internacionais deveria se dar entre Estados soberanos e não ser influenciada por personalismos — algo que se torna mais difícil com a volta de Donald Trump ao cenário internacional:

“O Trump é líder de um movimento, não de um partido. Ele usa o caos como estratégia política e torna as negociações imprevisíveis. O Brasil enfrenta, agora, um dos maiores desafios diplomáticos da sua história recente.”

Para o professor, os efeitos da sanção tendem a se estender por anos e devem impactar a forma como o Brasil será visto em fóruns internacionais.

“Esse episódio será estudado daqui 10, 20, 30 anos. Entramos numa nova era de turbulência na política externa brasileira.”

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