O Brasil se orgulha de ser o país do futebol. Aqui, o esporte ultrapassa o campo: vira assunto de bar, de família, de bairro, de cidade. É uma identidade. Mas quando a paixão deixa de ser celebração e se transforma em violência, o futebol perde seu sentido mais básico. Perde o brilho.
As cenas de brigas entre torcidas — recentes ou antigas, que já feriram, já deixaram sequelas e, tragicamente, já mataram — mostram que estamos muito além do limite do aceitável. A situação envolvendo os torcedores de Santos e Internacional, na BR-101, em Itapema, nesta semana, mostra isso.
Não há justificativa possível. Não há provocação que explique. Não há rivalidade que sustente. O que vemos não é futebol: é barbárie. E, enquanto isso continuar acontecendo, seguimos falhando como sociedade, como instituições esportivas e como Poder Público. Não é plausível uma pessoa ir ao estádio assistir ao jogo do time de coração e se envolver em discussões, brigas, voltar machucado ou, pior: nem voltar.
O estádio deveria ser o lugar de resenha, de risada, da emoção de levar os filhos pela primeira vez, da disputa saudável, das histórias que atravessam gerações. Mas, para muita gente, virou espaço de medo. Famílias deixam de ir aos jogos. Torcedores repensam sua presença. E a festa — que deveria ser de todos — passa a ser de poucos.
A violência de torcidas é um fenômeno conhecido, antigo e repetido. E justamente por ser repetido é que se torna ainda mais inaceitável. Não dá para tratar como “excesso isolado” o que acontece com frequência, nem como “erro da torcida A ou B” um problema que se alimenta de ódio, impunidade e falhas de gestão. É responsabilidade de todos: clubes, federações, segurança pública e torcedores que se dizem apaixonados pelo time, mas que não o representam, o envergonham.
Clássicos continuam sendo disputados sem garantias reais de segurança. Jogos decisivos são tratados como batalhas. Redes sociais alimentam provocações que escalam para embates físicos. E o futebol, que deveria ser ponte, vira campo de guerra e insegurança.
É preciso encarar o problema com seriedade, com punições duras para quem agride, participa ou organiza confrontos. Com monitoramento eficiente das torcidas, tecnologia nos estádios, inteligência policial e acordos firmes entre os clubes. Assim como ocorre nos casos de racismo no futebol, não basta reagir depois da tragédia — é preciso prevenir antes que ela aconteça.
O futebol brasileiro é grande demais para ser controlado por pequenos grupos que confundem paixão com violência. O torcedor que canta, vibra, sofre e celebra é o que mantém o esporte vivo. O que briga, destrói e coloca vidas em risco é o que o afasta o esporte da sua essência. É hora de recuperar o sentido verdadeiro do jogo: emoção, alegria, convivência. Futebol é uma festa, e torcer não pode ser sinônimo de medo.