Quando o assunto é automóvel, os chineses já fazem quase tudo igual ou melhor que os ocidentais — só lhes falta nome, status e tradição.
O dinheiro, porém, compra tudo. E, pelo visto, a Great Wall Motor tornou-se a nova dona da tradicionalíssima marca Packard, que fabricou carros de luxo nos Estados Unidos entre 1899 e 1958. Ao menos, é esse o nosso palpite…
Desde a produção do último automóvel da marca, os direitos sobre o nome Packard já passaram por vários donos e ficaram à venda por mais de 20 anos.
O último proprietário conhecido foi um fabricante de relógios de Ohio (EUA), que comprou a marca em 2019 e planejava fazer réplicas exatas do Packard 1934.
Packard 160 leiloado pela Sotheby’s
Foto de: Divulgação
Packard One-Sixty na charada
A novidade agora é um teaser da Great Wall Motor (GWM) mostrando um carro antigo semi-encoberto, mas sem citar o nome da marca ou do modelo.
Contudo, apaixonados por clássicos que somos, foi fácil identificar o “gato escondido com o rabo de fora”: trata-se de um Packard One-Sixty de 1941. E, agora, começam nossas ilações…
O engenheiro-chefe de chassis drive-by-wire da Great Wall Motor (GWM), Li Fei, publicou no Weibo — a rede social chinesa — um comentário que sugere a chegada de uma nova marca da fabricante: “A sexta marca da GWM está vindo?”. A postagem traz as imagens-teaser do Packard 1941, sem dizer seu nome.
Packard 160 leiloado pela Sotheby’s
Foto de: Divulgação
A postagem de Li vai além na charada, com outras pistas:
“Claramente não é uma simples expansão da linha de produtos, mas sim um ‘novo produto’ dentro de uma série completamente inédita”.
“Pelo design exterior, contrasta fortemente com as cinco marcas atuais da GWM. Não segue o caminho dos SUVs urbanos da Haval, nem o estilo off-road robusto da Tank. Também não se alinha à proposta de luxo tecnológico da Wey, nem ao posicionamento elétrico e descolado da Ora, e tampouco combina com as características de picape da Great Wall Poer”.
Outro dado para completar o exercício de dedução: no início deste ano, a GWM anunciou a criação de um departamento de veículos ultraluxuosos, para lançar modelos acima de 1 milhão de yuans (R$ 784 mil na conversão direta).
O nome Packard também poderia ajudar a GWM a entrar no mercado norte-americano, uma antiga ambição do grupo.
ZiS-110 que foi usado por Mao Tsé-Tung
Foto de: Divulgação
Carros dos líderes chineses antes do HongQi
A Packard esteve presente na China como marca de luxo antes da Segunda Guerra Mundial.
Quem teve uma limusine da marca — e blindada — foi Chiang Kai-shek, líder do Partido Nacionalista (Kuomintang), que governou a China, combateu os comunistas e, após a derrota em 1949, estabeleceu seu governo em Taiwan.
Mesmo após o nascimento da República Popular da China, em 1949, as limusines Packard continuaram (de certa forma) ligadas ao poder. Antes da criação dos HongQi chineses, o líder Mao Tsé-Tung usava o ZiS-110 — nada mais que uma versão soviética do Packard norte-americano.
O soviético Josef Stalin presenteou Mao com o carro nos tempos em que a URSS fornecia assistência econômica e técnica à China.
ZiS-110 na União Soviética
Foto de: Divulgação
A história do ZiS-110, um “Packard soviético”
O ZiS-110 foi uma criação curiosa, desenvolvida nos tempos da Segunda Guerra, quando soviéticos e americanos eram aliados.
Começou como cópia do Packard Custom Super Eight 1942, em um trabalho de engenharia reversa, recebendo algumas modificações inspiradas no Clipper, outro modelo da Packard.
O historiador automotivo britânico Michael Sedgwick afirma que, durante a guerra, sob pressão do governo dos EUA, matrizes para a produção do ZiS-110 foram vendidas pela fábrica de carrocerias Budd Company à URSS.
Há ainda rumores de que a ZiS (Zavod imeni Stalina, ou “Fábrica Stalin”) teria usado maquinário da própria Packard 180, que teria sido enviado à URSS após o fim da produção americana do modelo. No entanto, de acordo com The Fall of the Packard Motor Car Company, não há qualquer evidência nos arquivos da Packard de que essa transferência realmente tenha ocorrido.
Se realmente a GWM está revivendo a Packard, é uma pena que isso não tenha acontecido a tempo de salvar os restos da bela fábrica original, em Detroit. Entre 2017 e 2024, as construções foram demolidas em etapas, apesar das tentativas de preservação por parte do patrimônio histórico.
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– Equipe do Motor1.com