Os números são alarmantes e não podem ser tratados como mera estatística policial. Em 2025, quase três em cada dez pessoas desaparecidas no Brasil eram crianças ou adolescentes. Foram 23.919 registros envolvendo menores de 18 anos, média cruel de 66 ocorrências por dia.
O dado, por si só, já exigiria reação imediata do Poder Público e da sociedade. O agravante é que esse índice cresce em ritmo superior ao dos desaparecimentos em geral, revelando que a infância brasileira segue exposta a riscos que o Estado ainda não conseguiu enfrentar de forma eficaz.
É verdade que, desde 2019, quando entrou em vigor a Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas, houve redução em relação a anos anteriores. Mas a curva voltou a subir a partir de 2023, e isso não pode ser ignorado.
A persistência do problema evidencia que a legislação, embora necessária, não basta. Falta estrutura, prevenção, acompanhamento e, sobretudo, articulação entre órgãos públicos, escolas, conselhos tutelares, serviços de assistência social e forças de segurança.
Outro dado perturbador é o recorte de gênero: enquanto os homens são maioria entre os desaparecidos em geral, entre crianças e adolescentes são as meninas que lideram as estatísticas. Isso expõe uma realidade ainda mais sensível, ligada à violência doméstica, aos abusos, à exploração e às desigualdades que atingem de forma desproporcional meninas e adolescentes em situação de vulnerabilidade.
Especialistas já alertam que nem todo desaparecimento é igual. Há os voluntários, os involuntários, os forçados e até os chamados “desaparecimentos estratégicos”, quando a fuga é uma tentativa de sobrevivência diante de abusos e maus-tratos.
Ignorar essa complexidade é tratar o drama de forma superficial. Cada caso carrega uma história, um contexto familiar, social e psicológico que precisa ser compreendido para que a resposta seja efetiva.
Além da angústia dilacerante de não saber onde está um filho, muitos pais ainda enfrentam julgamentos apressados, críticas nas redes sociais e até ameaças de responsabilização, quando o que buscam é ajuda. A dor do desaparecimento não pode vir acompanhada de criminalização automática da família, mas sim de acolhimento, orientação e apoio psicológico.
O desaparecimento de crianças e adolescentes não é um problema privado; é uma falha coletiva. Exige políticas públicas permanentes, campanhas de conscientização, canais ágeis de busca, uso responsável da tecnologia e suporte às famílias antes, durante e depois do ocorrido.
Mais do que localizar quem some, é preciso impedir que nossas crianças continuem desaparecendo no silêncio da omissão. Cada número dessa estatística tem nome, rosto e uma vida que não pode ser tratada como detalhe.