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E aí, candidato? E os empreendedores? Quem se eleger terá de responder com política pública concreta

Nos meus dias mais cansativos, quando olho para a agenda cheia, para as demandas que não param e para a complexidade de operar empresa no Brasil, tenho um pensamento que guardo para mim: por que é tão difícil empreender aqui? O ambiente não merece o sonho que as pessoas trazem.

A burocracia é pesada, o juro é caro, o imposto é confiscatório, o crédito é escasso. A mão de obra que você quer não está onde você está, e a regulação muda de posição de um governo para o outro sem avisar. Empreendo há mais de 24 anos. Sei do que estou falando. Comecei vendendo café expresso a 50 centavos.

E, mesmo assim, empreender é a minha vida. É o que me define. É o que vejo nos olhos de quem chega à FEN Educação com uma ideia e quer transformar em negócio. É o que me fez criar empresa, investir em empresa, ensinar empreendedor. A tensão entre o ambiente que desencoraja e o impulso que persiste é o paradoxo mais brasileiro que conheço.

O paradoxo central do empreendedorismo brasileiro é que as pessoas empreendem apesar do ambiente, não por causa dele Foto: David/Adobe Stock

O GEM 2025, maior pesquisa mundial de empreendedorismo conduzida no Brasil pelo Sebrae, confirma o movimento com precisão: em um ano, o porcentual de brasileiros que colocam abrir um negócio entre seus maiores sonhos foi de 34% para 40%, o maior salto entre todos os sonhos pesquisados, subindo da terceira para a segunda posição, atrás apenas da casa própria.

A pesquisa Quaest de setembro, que perguntou qual é o maior sonho de cada eleitor, colocou empreender em quarto lugar com 9% das menções. Os dois dados contam a mesma história por ângulos diferentes: num país onde casa própria e saúde dominam as urgências do cotidiano, empreender disputa espaço com os sonhos mais básicos. E ainda assim avança.

O país que vai às urnas em outubro tem o empreendedorismo como segundo maior sonho coletivo. E vai eleger um presidente que vai precisar, obrigatoriamente, responder a esse dado com política pública concreta. Não com discurso de palanque. Com ambiente.

O próximo presidente vai herdar um país onde uma em cada quatro empresas fecha antes de completar dois anos. Onde a carga tributária sobre as pequenas empresas consome entre 30% e 40% do faturamento dependendo do setor e do regime. Onde o crédito para capital de giro custa entre 3% e 5% ao mês. Onde abrir um CNPJ leva dias e fechar leva meses. Onde contratar um funcionário com carteira assinada custa ao empregador aproximadamente 70% a mais do que o salário nominal que o trabalhador recebe.

Esses não são dados de pessimismo. São o ambiente em que 42,5 milhões de brasileiros querem empreender, segundo novamente o GEM 2025, maior pesquisa mundial de empreendedorismo, conduzida no Brasil pelo Sebrae.

O paradoxo central do empreendedorismo brasileiro é que as pessoas empreendem apesar do ambiente, não por causa dele. Em 2017, apenas 18% da população citava abrir negócio entre os principais sonhos. Hoje, são 40%. O sonho cresceu. O ambiente não cresceu na mesma proporção.. Ainda é muito alta.

Os desafios que o próximo presidente vai encontrar não são abstratos. São cinco concretos que qualquer agenda séria de empreendedorismo precisa endereçar.

Primeiro, o custo de abrir e fechar empresa.

Segundo, o custo do crédito.

Terceiro, a carga tributária sobre micro e pequenas empresas.

Quarto, a qualificação da mão de obra.

Quinto, a estabilidade regulatória.

Os candidatos que disputam outubro apresentam respostas diferentes para esses cinco problemas. Alguns apostam em desburocratização radical, privatização de estatais e redução de carga tributária como caminho para liberar o empreendedorismo.

Outros apostam na expansão do crédito público, no fortalecimento (ou não) do Simples e em programas de capacitação como ferramentas de inclusão produtiva. E há quem veja o empreendedorismo como consequência natural de uma economia que cresce, sem política específica para o setor.

Nenhuma dessas respostas, isoladamente, resolve os cinco problemas ao mesmo tempo. Desburocratizar sem baratear o crédito ajuda quem já tem capital. Baratear o crédito sem reformar o custo tributário cria dívida que o negócio não consegue pagar. Formar empreendedor sem melhorar o ambiente é preparar alguém para um campo minado.

O próximo presidente vai precisar de agenda integrada, não de medida isolada. E vai precisar de continuidade, o que historicamente é o ativo mais escasso da política brasileira.

A pergunta que os 42,5 milhões de brasileiros que querem empreender vão fazer nas próximas semanas não é ideológica. É prática: o que você vai fazer, concretamente, para que meu negócio tenha mais chance de sobreviver do que os que vieram antes?

Empreender no Brasil é difícil. Continuará sendo enquanto os cinco problemas acima não forem endereçados com seriedade e continuidade. O segundo maior sonho dos brasileiros merece uma resposta à altura. Essa resposta não é palanque. É política pública que dura mais de um mandato.

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