A discussão sobre elevar a meta de inflação no Brasil volta periodicamente. Em época eleitoral, é um atalho para atribuir o juro elevado à ambição excessiva da política monetária, em vez de analisar suas causas.
É possível discutir se 3% é a meta ótima para o Brasil. Mas a ideia de que mais inflação ajudaria a compatibilizar o regime monetário com a fragilidade fiscal – ou permitiria juros reais permanentemente menores – não é um bom argumento.
Há três canais pelos quais a inflação maior pode aliviar as contas públicas. O primeiro é a senhoriagem. Como a base monetária equivale a cerca de 4% do Produto Interno Bruto (PIB), um ponto adicional de inflação geraria receita próxima de 0,04% do PIB.

O desequilíbrio fiscal reflete escolhas e eleva a demanda agregada, a necessidade de financiamento e o prêmio de risco Foto: André Dusek/Estadão
O segundo opera sobre despesas não corrigidas automaticamente pela inflação: o mesmo choque reduziria inicialmente seu valor real em cerca de 0,05% do PIB. O terceiro é a corrosão da dívida prefixada. Em termos de menor esforço anual para estabilizar a dívida, o ganho seria próximo de 0,01% do PIB.
Somados os três canais, o alívio é de cerca de 0,10% do PIB por ponto adicional de inflação. Para obter melhora fiscal modesta, de 1% do PIB, seriam necessários dez pontos a mais de inflação – hipótese que mudaria os parâmetros do exercício.
Há outro problema: o ganho depende da surpresa. Se a meta mais alta for crível, contratos, salários, preços e juros se adaptarão à inflação maior, reduzindo o benefício, que só seria contínuo com inflação sempre maior que a prometida.
Isso não significa que 3% seja a melhor meta. Há argumentos defensáveis para elevá-la um pouco, sobretudo em uma economia mais sujeita a choques de preços relativos. Para acomodá-los, a nosso ver, basta dar ao Banco Central flexibilidade para não compensar os choques com recessão forte, sem mexer na meta.
É muito diferente dizer que o Brasil precisa de inflação maior porque as contas públicas são frágeis ou que o juro alto decorre da meta. O desequilíbrio fiscal reflete escolhas e eleva a demanda agregada, a necessidade de financiamento e o prêmio de risco, pressionando o juro real necessário para controlar a inflação.
Elevar a meta é mais simples do que decidir quais despesas crescerão menos, quais privilégios serão revistos ou quais impostos aumentarão. Mas transformar o resultado do desajuste fiscal em argumento para acomodá-lo é um roteiro equivocado e conhecido, que cedo ou tarde acaba provocando mais inflação, sem redução duradoura do juro real, prejudicando a economia, especialmente os mais pobres.