A globalização multilateral regida pela Organização Mundial do Comércio (OMC), a partir da cláusula de regras uniformes, sofre gradual enfraquecimento pelo efeito dos dois tarifaços americanos. Em contrapartida, outro modelo de integração comercial está ganhando forma e força. Trata-se de uma espécie de globalização seletiva, organizada em blocos e em grupos de parceiros supostamente confiáveis. Boa parte dos acordos que estão sendo anunciados em 2026 surgiu justamente como alternativa ao crescimento do protecionismo americano.
A União Europeia (UE) é o caso mais impactante. A Comissão Europeia propôs agregar o Canadá ao bloco com um status inédito de membro associado. As regras ainda não foram definidas, e a adesão tem limites, pois seu território não faz parte do território europeu. Mesmo assim, é uma proposta que sinaliza uma amplitude que pode ir além do livre-comércio.
Por exemplo, poderia acrescentar acesso privilegiado a programas estratégicos de pesquisa e inovação, participação em compras públicas de defesa e cooperação espacial e tecnológica.

Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá Foto: Jon Blacker/The Canadian Press via AP
Para os dois lados, é uma forma de mitigar riscos geopolíticos e diminuir a dependência dos Estados Unidos. É também uma alternativa à rivalidade entre Washington e Pequim.
A indicação é que o movimento faz parte de uma estratégia de mudança na diplomacia da UE, que adotou elementos de intensidade. O bloco fechou acordos com o Mercosul e a Índia, além de modernizar os termos com Chile, Nova Zelândia, Japão e Coreia do Sul.
A globalização, portanto, não está acabando, mas assumindo nova natureza. O modelo genérico perdeu espaço para o friend-shoring: o comércio mundial se reorganiza em torno de países afins e de blocos de confiança. Os fluxos globais continuam crescendo, sobretudo em finanças e serviços digitais, como mostram os dados recentes da OMC.
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O Brasil segue a tendência e responde com pragmatismo. Estreita laços com a Europa por meio do agronegócio e dos minerais críticos. Ao mesmo tempo, mantém protagonismo nos Brics e laços comerciais fortes com a China. E tenta novos contornos para o tarifaço americano.
Outra prioridade é fortalecer o Mercosul, que também se movimenta. O grupo assinou o acordo com a UE e abriu negociações com o Japão. Também mira Canadá, Emirados Árabes Unidos e China. O choque tarifário acabou provocando uma reacomodação da inserção externa brasileira. Os desafios são grandes, mas a vontade e o diálogo para superá-los é maior. A senha é o pragmatismo.