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A Ilusão da Atividade: Por Que Estar Mais Ocupado Não Significa Gerar Mais Valor

A produtividade voltou ao centro da agenda pública e empresarial, mas voltou cercada por um desconforto difícil de ignorar. Em conselhos, comitês executivos e reviews de gestão, fala-se cada vez mais em produzir mais, fazer mais com menos e recuperar eficiência. Em seu relatório State of Work, a Slack, empresa do grupo Salesforce, reforça essa preocupação ao apontar que 71% dos líderes afirmam estar sob pressão da alta gestão para elevar a produtividade, em um contexto no qual o próprio significado de ser produtivo parece cada vez menos consensual. O problema é que, embora o tema tenha ganhado centralidade, o debate ainda costuma surgir de forma apressada, quase sempre associado a cobrança, presença, velocidade de resposta e disponibilidade constante, como se produtividade pudesse ser tratada apenas como intensidade de trabalho.

No Brasil, essa preocupação está longe de ser apenas retórica. Em relatório recente, a FGV IBRE mostra que, no segundo trimestre de 2025, a produtividade do trabalho por hora efetivamente trabalhada cresceu apenas 0,3% em relação ao mesmo período do ano anterior, enquanto as métricas por hora habitual e por população ocupada recuaram 0,1%. No mesmo período, a Produtividade Total dos Fatores caiu 1,1% na métrica por hora efetivamente trabalhada e 1,4% na métrica por hora habitualmente trabalhada. O dado é relevante porque sugere que o problema da produtividade não pode ser reduzido a esforço individual, disciplina ou volume de horas trabalhadas. Há, também, uma dificuldade mais ampla de eficiência na forma como trabalho, capital e organização vêm sendo combinados.

Ainda assim, grande parte do debate sobre produtividade continua ancorada em sinais superficiais de atividade, que nem sempre correspondem à geração efetiva de valor. Em relatório recente, a Slack mostra que 27% dos executivos utilizam visible activity, isto é, sinais de presença e movimentação aparente, como principal forma de medir produtividade. Os colaboradores, por sua vez, preferem ser avaliados por resultados concretos, metas e indicadores de desempenho. Esse contraste levanta uma questão importante: quando empresas passam a tratar rapidez de resposta, presença constante, participação em reuniões ou circulação intensa em ferramentas digitais como sinônimo de produtividade, correm o risco de recompensar visibilidade e responsividade, e não, necessariamente, geração efetiva de valor.

Essa distorção se agrava porque o trabalho contemporâneo se tornou mais fragmentado. No estudo Collaborating During Coronavirus, publicado pelo NBER, DeFilippis et al. mostram que, após a migração para o trabalho remoto, o número de reuniões por pessoa aumentou 12,9%, o número de participantes subiu 13,5%, o span do dia de trabalho cresceu 8,2% e os e-mails enviados fora do expediente avançaram 8,3%. Ao mesmo tempo, a duração média das reuniões caiu 20,1%, o que sugere um ambiente de trabalho mais distribuído, mais interrompido e mais espalhado ao longo do dia. Em outras palavras, a digitalização ampliou possibilidades de coordenação, mas também aprofundou uma lógica de fragmentação que torna o trabalho mais intenso, mais difuso e, muitas vezes, menos eficiente.

O ponto é que o problema da produtividade hoje não está apenas no excesso de tarefas, mas na forma como o trabalho foi reorganizado. Em muitos casos, a digitalização não veio acompanhada de um verdadeiro redesenho do trabalho, mas da sobreposição de novas ferramentas, novos rituais e novas camadas de coordenação sobre estruturas antigas de gestão. O resultado é um cotidiano em que a tecnologia amplia a capacidade de conexão, mas nem sempre melhora a qualidade da execução. Quando isso acontece, o ganho potencial de eficiência se perde em ruído, dispersão e excesso de mediação.

Nesse contexto, não basta incorporar tecnologia ou ampliar a digitalização dos processos. A produtividade do trabalho contemporâneo também depende da capacidade concreta de compreender, absorver e utilizar bem essas ferramentas no cotidiano profissional. Em estudo recente sobre AI Literacy e adoção de inteligência artificial generativa no trabalho, Figueiredo e Terlizzi mostram que essa competência influencia de forma positiva a facilidade percebida de uso e a utilidade percebida da tecnologia, elementos que sustentam sua adoção de forma mais efetiva. O ponto é relevante porque reforça uma ideia mais ampla: tecnologia não gera valor automaticamente. Para que isso aconteça, é preciso repertório, preparo e condições organizacionais que permitam transformar potencial técnico em contribuição real.

Sem esse preparo, a tecnologia corre o risco de ampliar ruído em vez de gerar produtividade. Ferramentas mal compreendidas, adotadas sem critério ou inseridas em rotinas já fragmentadas podem aumentar dependência, dispersão e sobrecarga cognitiva, em vez de produzir ganhos concretos de desempenho. O próprio estudo de Figueiredo e Terlizzi ajuda a iluminar esse ponto ao mostrar que a percepção de utilidade e facilidade de uso não é um dado automático da tecnologia, mas algo mediado por competências e contexto de uso.

Com a difusão recente da inteligência artificial generativa, essa tensão tende a se tornar ainda mais visível. Relatórios recentes da Microsoft e da OECD mostram que a IA pode, de fato, acelerar tarefas e ampliar a eficiência, mas que esses efeitos dependem menos da simples adoção da tecnologia e mais do redesenho do trabalho, do tipo de tarefa, da experiência do usuário e da qualidade da interação entre pessoas e sistemas. Quando organizações passam a medir sua adoção apenas por volume de outputs, velocidade de resposta ou encurtamento de turnaround, correm o risco de automatizar a própria fragmentação que já compromete o desempenho. Seu valor real aparece menos quando acelera o excesso de atividade e mais quando ajuda a simplificar fluxos, reduzir mediações desnecessárias e deslocar a contribuição humana para julgamento, coordenação e decisão.

Os custos desse problema também já aparecem de forma concreta. Em análise recente, a McKinsey estima que, em uma empresa mediana do S&P 500, o desengajamento e a rotatividade podem representar perdas anuais entre US$ 228 milhões e US$ 355 milhões em produtividade. Mais do que o número em si, o dado ajuda a iluminar o tamanho do desafio. Quando o trabalho é mal organizado, quando a gestão mede presença em vez de contribuição e quando as condições de engajamento se deterioram, a perda de produtividade deixa de ser uma abstração e passa a comprometer valor econômico de forma direta.

Discutir produtividade com seriedade, portanto, exige mudar o eixo da conversa. Em um ambiente de trabalho mais digital, mais fragmentado e mais intensivo em tecnologia, produtividade não pode continuar sendo tratada apenas como cobrança por mais entrega em menos tempo. Ela passa, cada vez mais, pelo desenho do trabalho, pela qualidade da gestão, pela redução de ruído, por critérios mais inteligentes de avaliação e pelo desenvolvimento das capacidades necessárias para transformar tecnologia em valor. O custo de não repensar esse modelo aparece menos em um colapso visível e mais em perdas graduais de eficiência, relevância e capacidade competitiva. Antes de perguntar por que as pessoas não estão produzindo mais, talvez devêssemos perguntar por que seguimos organizando o trabalho de maneira tão inadequada para que a produtividade, de fato, aconteça.

 

Diego Albino Figueiredo, Mestre em Gestão para Competitividade pela FGV EAESP, especialista em Data-Driven Marketing pela Universidade Nova de Lisboa. Chief Digital, Marketing and Technology Officer no Grupo La Moda.

Raphael Mendes Motta, Mestre em Gestão para Competitividade pela FGV EAESP. Engenheiro Eletricista pela Poli-USP. Business Engineering & AI Advisor na Oracle.

Ulysses Espuny, Mestre em Gestão para Competitividade pela FGV EAESP, Superintendente Geral de TI no Banco Safra, autor do livro IA para Centros de Serviço e pesquisador em inteligência artificial aplicada a serviços, atendimento e transformação digital.

Referências

DeFilippis, E., Impink, S. M., Singell, M., Polzer, J. T., & Sadun, R. (2020). Collaborating during coronavirus: The impact of COVID-19 on the nature of work [Working paper]. National Bureau of Economic Research.

Espuny, U., & Meirelles, F. S. (2026). Fatores críticos de sucesso no uso de agentes com inteligência artificial no atendimento (Trabalho Aplicado de Mestrado Profissional, Fundação Getulio Vargas, Escola de Administração de Empresas de São Paulo).

Figueiredo, D. A., & Terlizzi, M. A. (2025). The influence of AI literacy on the cognitive determinants of generative AI adoption in the workplace (Trabalho Aplicado de Mestrado Profissional, Fundação Getulio Vargas, Escola de Administração de Empresas de São Paulo).

Matos, S., Barbosa Filho, F. de H., & Peruchetti, P. (2025). Resultados dos indicadores de produtividade do trabalho no segundo trimestre de 2025. FGV IBRE, Observatório da Produtividade Regis Bonelli.

Matos, S., Barbosa Filho, F. de H., & Peruchetti, P. (2025). Resultados dos indicadores de PTF no segundo trimestre de 2025. FGV IBRE, Observatório da Produtividade Regis Bonelli.

Microsoft. (2025, June 17). Breaking down the infinite workday. WorkLab.

OECD. (2025, June 20). The effects of generative AI on productivity, innovation and entrepreneurship. OECD.AI.

Slack. (2023). State of Work (2nd ed.). Slack, a Salesforce company.

De Smet, A., Mugayar-Baldocchi, M., Reich, A., & Schaninger, B. (2023, September). Some employees are destroying value. Others are building it. Do you know the difference? McKinsey & Company.

 

“As opiniões expressas neste ensaio são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem necessariamente a visão da FGV EAESP ou do Blog Gestão e Negócios – Estadão

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