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‘A Odisseia’ e nós: as metáforas de Homero para os dilemas humanos

No século 6 antes de Cristo, os sete sábios da Grécia foram convocados para definir as duas frases-síntese do pensamento helênico, para que fossem inscritas nas fachadas do templo de Apolo em Delfos.

Apresentaram duas: “Conhece-te a ti mesmo” (Gnothi seauton) e “Nada em excesso” (Meden Agan). Dois séculos antes, em sua Odisseia, Homero já incorporava esses dois princípios. Trata-se da epopeia de Ulisses (Odisseu), na sua trajetória de dez anos de volta para casa, volta para si mesmo.

Depois da Bíblia, a Odisseia é o livro mais importante da civilização ocidental. É um manancial de metáforas sobre os principais desafios da vida de qualquer pessoa, inclusive na área econômica.

Textos filosóficos, monumentos, a cerâmica antiga, a arte clássica e moderna, o teatro e a literatura e o cinema encontram nela inspiração para expressar a vida humana.

Quem, por exemplo, não se sentiu perdido, a ponto de considerar-se um Ninguém, nome com que Ulisses se apresentou ao Ciclope comedor de gente? É lamentável que o filme em cartaz, de Christopher Nolan, tenha omitido essa passagem.

Para quem lê com alma aberta para os ensinamentos, vale a pena ler ‘Odisseia’, de Homero Foto: Museu de Atenas

Ah, as sereias… Lá pelas tantas, aparecem elas na vida de qualquer um, com seu canto sedutor para arrastar as vítimas água abaixo. A saída é deixar-se amarrar ao mastro e entupir os ouvidos com cera.

Cila e Caríbdis são rochas traiçoeiras, ocupadas por monstros. Não dá para escapar de uma sem bater na outra, ou sem perder coisas importantes. É quando opções contraditórias e estreitas se apresentam.

Quem come flor de lótus (eis aqui as drogas!) não sente saudades de casa e destrói o impulso ao desenvolvimento e ao conhecimento de si próprio.

A feiticeira Circe mantém feras mansas nos jardins de seu palácio porque ela é a ferocidade e transforma pessoas em porcos. O único jeito de enfrentá-la é de espada em punho.

A descida do herói ao submundo dos mortos demonstra que é preciso considerar a experiência e os ensinamentos dos que vieram antes.

E quem não teve de enfrentar crise de confiança? Foi o que aconteceu quando o navio de Ulisses deixou a ilha de Éolo, o deus dos ventos. Dele recebeu um odre de couro que aprisionava os ventos contrários.

Seus marinheiros desconfiaram de que aquilo escondia tesouro. Quando abriram o odre, os ventos escaparam e o barco foi atirado para longe de Ítaca, o reino de Ulisses.

Esse episódio também não está no filme. A vida é feita também de naufrágios, de Nausícaa e da ilha da ninfa Calipso…

O retorno não encerra tudo. É preciso enfrentar a luta de vida e morte contra os pretendentes que invadiram a ilha.

O cavalo de Troia e a destruição da cidade apenas constam de passagem no texto da Odisseia, ao contrário do filme, no qual são narrativa importante.

Apesar de alguns equívocos e omissões, vale a pena ver o filme. E para quem lê com alma aberta para os ensinamentos, vale ainda mais a obra escrita, a eterna Odisseia.

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