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Quem se diz aventureiro, na verdade, não está em sintonia com as trajetórias de Amyr Klink e Lars Grael, dois velejadores brasileiros de sucesso, que sempre se apoiaram no planejamento detalhado para as missões que encaram. A inspiração que eles transmitem vem bem a calhar para tomadores de decisão que precisam escolher, no dia a dia, qual caminho seguir diante das transformações provocadas pela inteligência artificial.
Para a dupla, o mar pode oferecer muitas lições a quem precisa tomar decisões em ambientes de incerteza e mudança. “Quem vai ao mar avia-se em terra”, resume Grael. Para ele, o planejamento começa muito antes da partida e vai além de um bom faro. “Não basta o talento ou a intuição se você não conhece a teoria. É preciso saber de física para entender a aerodinâmica e a hidrodinâmica”, exemplificou o iatista.
Preparar-se, porém, não significa esperar que todas as condições estejam sob controle. “Tenho amigos que sonham em fazer uma viagem de volta ao mundo há décadas e nunca vão partir. É preciso saber sair da preparação e entrar na execução”, disse Amyr Klink.
Primeiro homem a fazer sozinho a travessia do Atlântico Sul a remo, em 1984, o navegador confessou nunca se sentir totalmente pronto para uma viagem. “Você não sabe o caminho que vai fazer, mas você sabe onde você quer amarrar o barco”, afirmou o autor de best-sellers como Cem Dias Entre Céu e Mar.

Painel sobre as inspirações que o mar pode trazer para os negócios, com Giuliana Morrone (esquerda), Amyr Klin (centro) e Lars Grael (direita) Foto: Marco Ankosqui/Estadão Blue Studio
Abraçar o risco
Ao encomendar o projeto do barco IAT ao engenheiro José Carlos Furia, o navegador sonhou com uma embarcação que não capotasse. O projetista foi na direção contrária. Ele disse que Klink deveria estar justamente preparado para saber o que fazer caso o barco capotasse durante a travessia do Atlântico Sul.
“O medo não diminuiu, mas fiquei feliz quando percebi que o sistema que desenvolvemos funcionou”, contou. A lógica também vale para ambientes corporativos em que a transformação tecnológica produz novos riscos. Em vez de esperar por estabilidade, as organizações precisam criar estruturas para experimentar, avaliar resultados e corrigir a rota.
Klink, que começou sua trajetória no mar usando ferramentas centenárias, como o sextante e a trigonometria esférica, também incorpora em seu dia a dia as novidades tecnológicas. Hoje, ele se surpreende com a capacidade de receber informações em tempo real, inclusive com o apoio da inteligência artificial, que ele não vê como concorrente dos seres humanos. “A IA é uma potencializadora dos nossos talentos”, afirmou.
Espírito de equipe
O trabalho em equipe também foi lembrado por Grael, que tem duas medalhas olímpicas de bronze, conquistadas em Seul-1988 e Atlanta-1996 pela classe Tornado. Se no passado os atletas da vela dependiam principalmente da observação e da intuição para tomar decisões, hoje eles contam com uma estrutura cada vez mais apoiada em tecnologia, dados e preparação.
“Por trás de uma medalha olímpica, tem muito mais que um timoneiro ou proeiro: há o projeto, o desenvolvimento de velas e muitos testes”, disse o iatista. A dedicação tem motivo, afirmou. “A diferença entre a glória e o fracasso é uma linha muito tênue. Às vezes, centímetros que separam um medalhista de um quarto colocado.”
Nesse contexto, a tomada de decisão pode acontecer em frações de segundo. Reunindo elementos oferecidos pela natureza e pela tecnologia, o atleta precisa decidir quando manobrar e qual posição buscar em relação aos adversários. “A gente pode até abrir mão do leme para outro timoneiro, mas a decisão tática de para onde ir não”, ressaltou Grael.
É um paralelo com a adoção da IA, que requer muito mais do que a escolha de uma ferramenta tecnológica. Conforme os sistemas assumem tarefas operacionais e analíticas, cabe às lideranças definir o que deve ser automatizado, quais limites precisam existir e em que situações o julgamento humano continua indispensável.
Ajustes de rota
Grael também mostra que é possível se adaptar sem necessariamente abandonar os objetivos. Depois do acidente que sofreu em 1998, no qual perdeu a perna direita, o medalhista olímpico acreditou que sua carreira esportiva havia terminado. Anos depois, voltou à vela na classe Star e chegou a conquistar um título mundial em 2015, ao lado de Samuel Gonçalves, que aprendeu o esporte em um projeto social tocado pela família Grael.
“A perda me ensinou muito. Eu era um atleta convencional que queria ter medalha no peito, diploma na parede e dinheiro na conta. Hoje em dia não: tenho a responsabilidade de produzir referências para os outros”, disse o iatista.
Klink segue uma linha semelhante ao falar sobre legado. “Não é o sucesso econômico ou o resultado que importa, mas a história que a gente escreve e se perpetua ao longo do tempo.”
É com esse horizonte que os dois seguem se lançando ao mar e convidaram os presentes a fazer o mesmo, mesmo diante dos ventos fortes da tecnologia. “O pessimista reclama do vento. O otimista espera o vento mudar. Já o realista ajusta as velas pro vento que tem”, resumiu Grael.
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