Cerca de 40% das habilidades centrais da força de trabalho devem mudar ou perder relevância até 2030, segundo o Fórum Econômico Mundial.
Em um mundo onde a transformação é a única constante, impulsionada pelo avanço acelerado da tecnologia e, especialmente, da inteligência artificial, aprender deixou de ser uma etapa da carreira para se tornar um processo permanente. “A requalificação nunca vai parar”, afirma Anthony Salcito, vice-presidente sênior e general manager de Enterprise da Coursera, uma das maiores plataformas de educação online do mundo.
O executivo dedicou suas mais de três décadas de carreira à interseção entre tecnologia e educação, duas delas à Microsoft, onde foi VP de educação global.
Hoje, é responsável por costurar parcerias com empresas, universidades e governos para ajudar profissionais e estudantes a desenvolver as competências mais demandadas pelo mercado em um ambiente de mudanças contínuas. “Haverá um novo paradigma além da IA em alguns anos, e você precisará se requalificar constantemente ao longo de toda a vida.”
Os brasileiros parecem ter entendido o recado. Segundo o executivo, as matrículas em cursos de inteligência artificial generativa na Coursera cresceram 617% no país em um ano. A plataforma soma atualmente cerca de 7 milhões de usuários brasileiros. “O apetite do Brasil para crescer digitalmente só será atendido com a construção de uma base de habilidades entre os estudantes universitários e com a requalificação dos profissionais no ambiente de trabalho”, afirma.
O movimento é global. Um relatório divulgado pela Coursera neste ano, com base no feedback de 6 milhões de usuários, indica que as matrículas nesses cursos cresceram mais de 200% entre alunos corporativos.
Mas para além das hard skills, Salcito chama a atenção para a alta demanda por human skills, habilidades como liderança e pensamento crítico. “Muitas vezes, focamos na tecnologia e percebemos tarde demais que as pessoas e a cultura eram a força motriz.”
Para ele, a mensagem aos líderes é clara: nenhuma estratégia de adoção de inteligência artificial será bem-sucedida sem investimento nas pessoas. “A verdadeira vantagem competitiva é uma força de trabalho qualificada.”
A seguir, o líder da Coursera analisa os impactos da IA no mercado de trabalho, discute o futuro do diploma universitário e explica por que liderança e pensamento crítico se tornaram ainda mais valiosos na era da inteligência artificial.
Forbes Brasil: Você assumiu como VP global da Coursera no ano passado, mas traz mais de três décadas de experiência na Microsoft e em outras empresas. Como você descreveria sua trajetória de carreira?
Anthony Salcito: Primeiro, fui abençoado. Tive a oportunidade de trabalhar não apenas com grandes empresas e líderes, mas de focar em servir alguns dos heróis do planeta: os professores. Isso é verdade no Brasil e no mundo todo. Tive a sorte de estar na vanguarda da interseção da tecnologia com a educação. Vi o impacto incrível da tecnologia em liberar o potencial humano no mundo inteiro, algo que tem sido vibrante nas salas de aula e universidades, e que agora está moldando tudo no mundo do trabalho.
O que te trouxe ao Brasil desta vez? Esta é a sua terceira vez aqui?
Na verdade, estive no Brasil muito mais do que isso. Um dos meus grandes destaques foi trazer professores de cerca de 130 países para Salvador para um evento marcante no início do meu mandato liderando a educação global na Microsoft.
Estou aqui em parte pela importância do Brasil para o Coursera. É um ambiente de trabalho vibrante com uma economia digital crescente, o que se reflete no crescimento que vimos em nossa plataforma, onde temos mais de sete milhões de alunos no Brasil. Tivemos um aumento impressionante de 617% nas matrículas em IA generativa ano a ano, o que reflete a vibração do que está acontecendo não só no ambiente de trabalho, mas também na economia de todo o Brasil.
Qual a relevância do Brasil para a Coursera?
Nós queremos atuar globalmente, mas vemos um momento importante em países focados em construir uma economia digital e que reconhecem a existência de uma lacuna de habilidades. É bom colocar uma infraestrutura tecnológica, data centers e nuvem, mas sem as habilidades na sua organização para impulsionar essa tecnologia, você não verá o impacto. O apetite do Brasil para crescer digitalmente só será atendido com a construção de uma base de habilidades entre os estudantes universitários e com a requalificação dos profissionais no ambiente de trabalho.
Como essas mais de três décadas de experiência em tecnologia moldaram sua visão sobre o impacto da tecnologia na educação?
Eu vivi minha vida pensando no papel da tecnologia em moldar o aprendizado, e uma das coisas que ela faz é oferecer a oportunidade de conectar e compartilhar conteúdo de forma cada vez mais ilimitada.
Viajando pelo mundo, vi a crescente expectativa dos alunos sobre o que eles podiam fazer não só para progredir na carreira, mas para resolver problemas significativos em suas comunidades. Com a tecnologia, há uma capacidade crescente de os alunos usarem suas paixões para causar impacto no mundo.
No entanto, após visitar quase 3 mil salas de aula e universidades em mais de 65 países, percebi que a conexão humana é o que faz a diferença. A tecnologia é ótima, mas alunos motivados e professores sendo valorizados (porque eles são os verdadeiros heróis) fazem a mágica acontecer. Vemos na Coursera que as inscrições em tecnologia crescem exponencialmente, mas, paralelamente, as habilidades humanas, como pensamento crítico, tomada de decisão e liderança, estão em altíssima demanda.
Nesse cenário que você está descrevendo, o que é necessário para se destacar no mercado de trabalho hoje?
Todos precisam abraçar o aprendizado ao longo da vida. Estudantes que saem da universidade percebem cada vez mais que credenciais e certificados voltados para o trabalho os ajudarão a se destacar, e empresas estão tentando requalificar seus funcionários porque a requalificação nunca vai parar. Focamos muito em IA agora, mas há poucos anos falávamos sobre ciência de dados, tomada de decisão baseada em dados, e antes disso sobre nuvem e desenvolvedores. Haverá um novo paradigma além da IA em alguns anos, e você precisará se requalificar constantemente ao longo de toda a sua vida.
Qual papel as empresas e os governos desempenham na qualificação e requalificação dos profissionais?
Governos ao redor do mundo reconhecem que o mercado de trabalho está mudando e que a verdadeira vantagem competitiva é uma força de trabalho qualificada, não apenas para atrair empresas, mas para aumentar a base de impostos e financiar programas governamentais. As empresas gastam muito tempo em decisões tecnológicas, mas estão começando a perceber que o grande componente em que precisam focar são os humanos. Vemos empresas focando em capacitar trabalhadores para repensar o que fazem todos os dias com um novo conjunto de tecnologias, porque a IA generativa exige que todos na organização sejam requalificados, ao contrário de tecnologias passadas em que talvez apenas 10% do ambiente precisasse focar na ferramenta.
Como a IA já está mudando a forma como trabalhamos e a maneira como aprendemos ou devemos aprender?
Uma tecnologia como a IA vai ajudar as organizações a pensar de forma diferente e criar mais eficiência em todas as linhas de produção e alcance de clientes. Mas isso só fará diferença se você liberar o potencial das suas pessoas. Hoje, o foco é alinhar investimentos em tecnologia, como IA generativa e segurança, com a requalificação, liderança e cultura. Muitas vezes, focamos na tecnologia e percebemos tarde demais que as pessoas e a cultura eram a força motriz.
Um relatório recente da Coursera destaca um futuro impulsionado por colaborações humano-máquina. Na sua visão, os profissionais têm razão em se preocupar com a segurança dos seus empregos?
A IA mudará os requisitos de alguns trabalhos e reduzirá a necessidade de outros. Mas, como ocorreu com tecnologias ao longo da nossa vida e no passado, ela desloca e muda habilidades, mas também cria mais empregos e oportunidades. Quanto mais rápido você fechar essa lacuna de talentos e habilidades, mais poderá se beneficiar da tecnologia, da mesma forma como aconteceu com a computação em nuvem, quando o temor de perdas de empregos de TI foi substituído por muito mais oportunidades.
A IA é agora a habilidade mais demandada na história da Coursera. Quais outras habilidades estão em alta demanda hoje e se tornarão mais importantes nos próximos anos?
Nosso relatório de habilidades destacou o crescimento global da GenAI, e um crescimento de 617% no Brasil é muito forte. Habilidades como SQL Server, processamento de dados e tomada de decisão baseada em dados cresceram quase 300% em relação ao ano anterior. Ao mesmo tempo, as habilidades humanas que mencionei antes – tomada de decisão, pensamento crítico e liderança – cresceram significativamente. Também estamos vendo uma mudança para aprender áreas mais profundas da IA, como engenharia de prompt e visualização de dados, além de um investimento paralelo e contínuo na necessidade de capacitação em segurança cibernética e privacidade de dados.
Como o Brasil e a América Latina podem se manter competitivos nesse cenário de avanços da IA?
É um foco baseado em um tripé: governo, empresas e o sistema universitário. As universidades são críticas para fornecer essas habilidades aos alunos e também compartilhar conteúdo e insights de seus professores em nosso catálogo. Governos devem construir políticas digitais sobre IA e comprometer-se com a requalificação da força de trabalho para melhorar a prontidão para o emprego. E há um entusiasmo tremendo acontecendo em toda a América Latina e no Brasil em torno disso.
Na sua opinião, nesse cenário em que as habilidades ficam obsoletas muito rápido, quão importante é ter um diploma hoje?
Um diploma não é só um requisito, mas também te ajuda a pensar na sua jornada ao longo da vida. Não acredito que as microcredenciais e ferramentas como a Coursera substituem um diploma. Mas se você acha que vai tirar um diploma e carregá-lo por toda a sua vida profissional, está perdendo uma grande oportunidade e será desafiado por habilidades que mudam mais rápido do que sua universidade te preparou. É importante ter uma mistura. A universidade te dá uma base de conexão e habilidades colaborativas, e incita o seu desejo de buscar aprendizado constante. Hoje, professores podem aprimorar seus currículos e trazer o melhor dos dois mundos para os alunos. A importância da requalificação constante e das microcredenciais só aumentará no futuro.
O que são essas microcredenciais e por que estão se tornando mais relevantes?
Pense na jornada tradicional de quatro anos como uma macrocredencial – um diploma. Uma microcredencial é muito menor, mais focada, e pode ser concluída em um dia ou alguns dias para demonstrar uma habilidade específica. Elas ajudam empregadores a identificar pessoas que estão prontas para o trabalho imediatamente. As microcredenciais também ajudam a construir seu portfólio e a entender o seu caminho de aprendizado, permitindo saber quais habilidades construir com base naquelas que você já adquiriu. A grande maioria dos alunos acredita que as microcredenciais estão ajudando na busca por empregos, e vemos isso dos empregadores também.
E pessoalmente, como você se mantém atualizado? O que você está aprendendo hoje para te ajudar nesse futuro do trabalho?
Estou sempre aprendendo com as pessoas, com os clientes e equipes que apoio, e também com viagens, visitando governos e empresas pelo mundo. A outra coisa é usar uma ferramenta como a Coursera. Atualmente, estou fazendo o recém-anunciado certificado global em IA do Google, focado em redação e comunicação de IA. Depois de passar a minha carreira inteira focado nas plataformas da Microsoft, aprender do lado do Google é algo novo e empolgante para mim.
A Coursera anunciou um acordo para adquirir a Udemy. O que você pode adiantar sobre esse movimento?
Estamos empolgados em combinar forças com a Udemy para entregar mais valor e expandir a flexibilidade para os nossos clientes. Também estou animado com o ritmo do nosso trabalho em IA, utilizando ferramentas em ambas as plataformas para melhorar a jornada de aprendizado, desde a descoberta de cursos até um coach de IA que funciona como um tutor pessoal para guiá-lo ao longo da sua jornada de aprendizagem. A força combinada das empresas aumentará nossa capacidade de investir em mais ferramentas de IA.
Estamos falando muito sobre IA. Na sua visão, o que a inteligência artificial generativa tem de diferente de outras tecnologias que mudaram o trabalho e como ela está democratizando a aprendizagem?
O foco no “generativo” é a peça-chave: trata-se de criar, construir e fazer coisas. Antes, muito do foco tecnológico era em infraestrutura e bases. Agora, qualquer um pode participar usando a IA como uma ferramenta para pensar de forma diferente, obter outra perspectiva, dar feedback sobre um documento ou resumir rapidamente documentos extensos.
Você tem usado para tudo isso?
Sem dúvida. Como a Coursera tem uma cultura voltada a documentos longos, eu recorro a ferramentas como o NotebookLM e o Gemini para resumir rapidamente o que está acontecendo. Também utilizo para orientar estudantes em empreendedorismo, dando ideias sobre como aplicar ferramentas de IA para começar um negócio.
Como você vê o futuro do trabalho? Quais outras tendências se destacam?
A dinâmica do trabalho será cada vez mais impulsionada pela tecnologia, mas o foco será na agência humana. Tendências como a computação quântica e a ascensão da robótica seguirão o crescimento da IA, tornando o ambiente de trabalho cada vez mais global. Mas ainda estamos em estágios muito iniciais do uso da IA; a mudança passará de uma simples automação leve para uma verdadeira transformação nos próximos anos à medida que os avanços ocorrerem rapidamente.
Também falamos muito sobre as gerações mais jovens que chegam ao mercado com diferentes perspectivas e habilidades. Qual a sua visão sobre essa nova geração?
Essa é a esperança. Durante a minha carreira, trabalhei muito com estudantes jovens que sonham em fazer a diferença. Como você motiva seus jovens a aplicar seus talentos e resolver problemas no mundo é o combustível de qualquer empresa ou país. Precisamos ver a tecnologia não apenas como algo a se estudar, mas fazer com que os estudantes a utilizem para resolver problemas alinhados às suas paixões. Estou animado com os jovens da América Latina.
Qual mensagem você deixaria para os líderes que querem ter sucesso nesse ambiente do futuro?
Para os líderes, muitos querem ser “AI first”. Isso significa que nós vamos pensar na IA como parte do trabalho que fazemos, transformar cada parte da missão com a IA, mas isso começa com o compromisso com as suas pessoas. Como dizem, a cultura devora a estratégia no café da manhã. Construir a cultura certa e encaixar a tecnologia começa com a capacitação. Governos e universidades devem priorizar a capacitação da força de trabalho para ajudar a atrair empregos e criar um futuro econômico mais estável.