A reação do mercado à inesperada vitória do PT foi dramática. Com todas as posições montadas para a consagração de Flávio Bolsonaro, restou sair correndo para cancelar tudo na primeira hora, empurrando ainda mais os preços, o que forçou outros operadores a liquidarem, no sufoco, suas posições. Um clássico exemplo de desespero, aflição e cólera.
Para quem se assustou com a disparada do dólar, vale lembrar que quando Lula ganhou a presidência em outubro de 2022 o dólar alcançou R$ 15,10, em valores de hoje atualizados pelo IPCA. A cotação de fechamento de segunda-feira, 26, ficou em R$ 5,50, exatamente igual à cotação no fechamento do ano passado. Não é ainda o fim do mundo. Mas o recado foi claro.
O mercado entra em modo-chilique porque não vê perspectiva de um ajuste fiscal capaz de frear a aceleração da dívida pública. O governo, nessas condições, tem uma excelente oportunidade de provar que o mercado se descabela à toa. O que fazer? Anunciar medidas para um ajuste fiscal. Não se pede muito – apenas anunciar medidas críveis.
Nos últimos 12 meses até agosto, o governo central gastou R$ 1,15 trilhão acima do que arrecadou; não tem como zerar essa conta, mas há como corrigir a rota Foto: Wilton Junior/Estadão
O espaço de manobra é restrito, mas, superada a má vontade, dá para fazer algo. Dentro do governo, já há quem pense em estabelecer três salários mínimos: um para o mercado de trabalho, um para as aposentadorias e o outro para os benefícios. Pode ser uma boa ideia para contornar as dificuldades perante a opinião pública.
Criar um grupo de trabalho para propor uma nova reforma da Previdência, nos moldes do que aconteceu com a reforma tributária, também pegaria bem. Fica mais palatável para o próprio PT se for anunciada desde o início a intenção de incluir dessa vez os militares. Pode haver uma chance também de rever os gastos tributários, dirimindo as incertezas da Lei Complementar n.º 224/2025 e ampliando seus efeitos.
Não é fácil cortar subsídios e sinecuras, mas pode ser tentado. Também não é impossível propor o corte de penduricalhos e salários acima do teto legal. Resolve quase nada, mas sinaliza. Medidas higiênicas que signifiquem um pente fino no Bolsa Família e no Benefício de Prestação Continuada (BPC) teriam a mesma natureza.
O importante é agir – agora. Não se trata de curvar-se ao mercado. O governo tem a oportunidade de, convertendo-se a uma política fiscal mais judiciosa, criar condições para a queda dos juros e para a aceleração do crescimento do emprego e da renda, o que rende votos em 2028 e 2030.
O presidente Lula gosta de dizer que aprendeu com sua mãe, Dona Lindu, que não se deve gastar mais do que se ganha. Nem é preciso tanto. Nos últimos 12 meses até agosto, o governo central gastou R$ 1,15 trilhão acima do que arrecadou. Não tem como zerar essa conta. No entanto, acenar com medidas que impeçam a explosão da dívida é um compromisso com a governabilidade. A oportunidade está na mão – mas, claro, pode escapar.