Juros x Inflação: Entenda a relação entre eles
Crédito: Larissa Burchard/Laís Nagayama
O Copom do Banco Central inicia reunião para decidir a taxa de juros, com previsões divididas entre corte de 0,25 ponto e manutenção em 13,75%. Após a reeleição de Lula, o câmbio e o petróleo pressionam os juros. Stephan Kautz, da EQI, prevê corte, mas alerta para volatilidade. Rafaela Vitoria, do Inter, espera pausa após corte. Nicolas Borsoi, da Tullett Prebon, sugere manutenção devido ao câmbio e petróleo. Felipe de Oliveira, da MAG, vê possível interrupção no ciclo de cortes.
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central começa nesta terça-feira, 3, sua reunião que vai definir o rumo da taxa de juros do País. E pela primeira vez em muito tempo o mercado chega com um cenário de previsões completamente indefinido. Pesquisa feita pelo Projeções Broadcast com 75 instituições financeiras aponta quase um “empate técnico”: 39 acreditam que o juro terá uma redução de 0,25 ponto porcentual, enquanto 36 apostam na manutenção do patamar atual da Selic, de 13,75% ao ano.
Seja qual for o resultado, há uma certeza no mercado de que esse será o juro até o final do ano – não deve haver mexida na última reunião do ano, nos dias 8 e 9 de dezembro.
Após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o câmbio disparou e os juros sentiram a pressão, refletindo a desconfiança dos agentes quanto aos planos fiscais do novo mandato. A cotação do petróleo acima de US$ 110, alavancada pelas tensões no Oriente Médio, também seria mais um vetor de alerta que atuaria contra o afrouxamento monetário, segundo analistas.

Sede do Banco Central, em Brasília Foto: Dida Sampaio/Estadão
“É um cenário bem dividido”, resume o economista-chefe da EQI Investimentos, Stephan Kautz. Para ele, o Banco Central deve promover mais um corte de 0,25 ponto porcentual na Selic em novembro, decisão que ainda se apoia na leitura do banco de uma atividade mais fraca. O economista pondera que a forte volatilidade nos mercados após as eleições, como o câmbio mais depreciado, ainda é muito recente para cravar tendência.
“Com essa piora no câmbio, o BC ainda não tem como saber se é um movimento que vai se manter à frente, porque é algo muito recente. Com a incerteza do que tem por vir, não deveríamos fazer muitas apostas”, observa Kautz.
A economista-chefe do Inter, Rafaela Vitoria, também prevê mais um corte de 0,25 ponto nesta reunião de novembro, mas espera que o Copom comunique uma pausa no ciclo de calibragem na próxima reunião. “Apesar da maior incerteza e do aumento do prêmio de risco na curva de juros futuros, a taxa Selic em 13,50% permanece restritiva o suficiente para amortecer os choques inflacionários esperados para o começo de 2027, mas não vemos espaço para a continuidade dos cortes nesse momento”, afirma, em relatório.
Vitoria reitera, porém, as incertezas do cenário e diz que uma manutenção da taxa também está dentro das opções. Ela lembra que, recentemente, o mercado promoveu uma rodada de reajustes para cima nas estimativas para o IPCA de 2027, incluindo o Inter, de 3,9% para 5%. “As revisões devem dar um tom de cautela para o BC, o que pode ser um fator para o Copom antecipar a pausa já para novembro, mantendo a Selic em 13,75%.”
Para o estrategista-sênior da Tullett Prebon, Nicolas Borsoi, o cenário sugere uma manutenção da Selic em 13,75%. Mas ele considera que a decisão dependerá de qual visão o Copom vai aderir. “Tem duas visões possíveis: olhar para a foto ou para o filme. Se olhar para a foto, é sinal claro de manutenção”, afirma ele, que destaca o salto na taxa de câmbio para R$ 5,40 e o petróleo cotado a US$ 110 o barril.
“Esse conjunto de câmbio e petróleo dão argumentos para o BC não cortar mais. A piora nessas variáveis faria o IPCA sair de 3,2% para 3,5% no fim do horizonte relevante. Assim, fica difícil manter a escrita de ‘ao redor da meta’”, diz Borsoi.
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Na MAG Investimentos, a projeção para a trajetória da taxa Selic chegou a ser de dois cortes de 0,25 ponto porcentual após o primeiro turno das eleições, mas voltou ao cenário de juros estáveis depois do resultado do segundo turno, segundo o economista-chefe Felipe de Oliveira.
Simulações da MAG apontam que a projeção de inflação do BC no horizonte relevante subiria de 3,2% para acima de 3,5%, nível semelhante ao alertado por Borsoi, da Tullett Prebon. “O BC tem uma possibilidade não desprezível de sinalizar uma interrupção do ciclo, de mostrar que o processo de calibração parou”, diz.
Sinal de fim de ciclo?
Kautz, da EQI, considera que este deve ser o último corte do ano, mas espera um sinal de fim do ciclo, com eventual retirada da menção à calibração na comunicação da autarquia e uma indicação de pausa.
Segundo o economista, a inflação tende a subir nos próximos meses, sobretudo no primeiro trimestre, com o impacto do El Niño, além de efeitos associados à reforma tributária. “Isso deve parar os cortes da Selic, por ora”, diz ele, que prevê retomada nos cortes entre o segundo e terceiro trimestre de 2027.
Embora boa parte dos argumentos esteja pendendo para o lado da manutenção na Selic, Borsoi reconhece que o BC pode focar na expectativa de atividade mais fraca e cortar o juro em 0,25 ponto neste encontro.
O economista da Tullett Prebon avalia que uma série de fatores sugere um reforço na cautela da comunicação. Para além da piora no câmbio e no petróleo, ele concorda que o qualitativo da inflação ainda indica atenção, com El Niño no radar, mercado de trabalho que se mantém aquecido, e eventuais pressões com o fim da escala 6×1 e a reforma tributária. “Se o corte vier, será um ‘hawkish cut’, com sinalização conservadora. A mensagem do BC está bem ajustada, mas precisa ser mais explícita do porquê é preciso ser cauteloso neste momento”, diz.