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E-commerce, recuperação judicial e juros altos: por que o desemprego no comércio varejista aumentou

Motor do mercado de trabalho e porta de entrada para o primeiro emprego de milhares de brasileiros, o setor do comércio surpreendeu negativamente: o saldo de contratações entrou no vermelho, puxado especialmente pelo varejo. Pela primeira vez desde 2021, quando começou a nova metodologia do Cadastro de Empregados e Desempregados (Caged), o setor mais demitiu do que admitiu trabalhadores com carteira assinada entre janeiro e julho deste ano.

A reversão é resultado de um conjunto de fatores que tem afetado as vendas. Além dos juros altos e da inadimplência, a onda de recuperações judiciais que assola as empresas do setor e as mudanças estruturais de consumo devido ao avanço das vendas online tiveram reflexo no número de empregos.

Entre contratações e demissões, o saldo do comércio ficou negativo em 7,8 mil postos de trabalho de janeiro a julho deste ano. O resultado contrasta com o desempenho alcançado no mesmo período de anos anteriores. De janeiro a julho de 2025, por exemplo, as contratações no comércio superavam as demissões em 125,8 mil vagas.

Neste ano, no entanto, o cenário virou. Foram destruídas, comparativamente ao mesmo período do ano passado, 133,8 mil vagas, aponta um estudo feito pela economista e pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ibre), Janaína Feijó. Para chegar a esses resultados, ela usou microdados do Caged do Ministério do Trabalho.

“Foi a primeira vez desde a pandemia que a gente começou a ver não apenas uma desaceleração (do emprego), mas uma destruição de vagas, e isso aconteceu primeiramente no comércio”, afirma a economista.

Em recuperação judicial desde agosto, Casas Bahia anunciou o fechamento de 298 lojas e demissão de 3 mil funcionários  Foto: Isabella Finholdt/ Estadão

Desde meados do ano passado, o mercado formal de trabalho vinha perdendo fôlego. A desaceleração ficou mais nítida neste ano, atingindo todos os segmentos.

Entre janeiro e julho, o saldo geral do mercado de trabalho ficou positivo com 972,2 mil vagas formais, mas com recuo de 29% ante os mesmos meses de 2025. Na agropecuária, o saldo foi de 51,4 mil vagas, com queda de 51% na comparação anual; na indústria foram 154 mil postos e recuo de 40% e, nos serviços, saldo de 591,5 mil e retração de 15%.

Só a construção civil ampliou o saldo de vagas entre janeiro e julho deste ano ante 2025 e, mesmo assim, a alta foi pequena. O saldo foi de 180,4 mil postos teve expansão de 2%.

Varejo afunda comércio

Apesar da desaceleração do emprego em curso, Janaína diz que foi surpreendida pelo desempenho do comércio. “A gente sabia que ele ia desacelerar, mas não de uma forma tão expressiva.”

O baque no emprego pegou o comércio, que teve o primeiro resultado negativo de geração de vagas no período. E o segmento do comércio que mais contribuiu para a destruição de postos de trabalho foi o varejo.

De janeiro a julho, o saldo do varejo ficou negativo em 51,7 mil vagas, ante a marca positiva de 44,1 mil no mesmo período do ano passado.

Já os saldos de empregos no comércio atacadista e no comércio de veículos automotores continuaram positivos nos sete primeiros meses deste ano, porém em desaceleração. Isto é, com recuos de 48% no atacado e de 44% no comércio de veículos em relação aos mesmos meses do ano anterior.

“O problema do comércio em 2026 está essencialmente localizado no varejo”, destaca a economista. Isso porque, diz ela, o varejo reúne questões macroeconômicas que afetam tanto as vendas como a saúde financeira das empresas.

Juros altos, inadimplência elevada e crédito restrito prejudicam as vendas, especialmente de produtos comprados a prazo, como móveis, eletrodomésticos e outros bens, cujas compras podem ser postergadas pelas famílias.

Em julho, por exemplo, as vendas do comércio varejista caíram 0,8% em relação a junho, já com ajuste sazonal, segundo Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Janaína Feijó, economista e pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ibre), diz que redução do emprego formal no comércio foi puxado pelo varejo Foto: Marcelo Freire/FGV/Divulgação

No mês, o resultado do comércio varejista ficou abaixo das expectativas e foi afetado pelas vendas de móveis e eletrodomésticos, geralmente comprados a prazo, que recuaram 4,9%. Foi a retração mais intensa desse segmento desde dezembro de 2023 (-6,6%), aponta o IBGE.

Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o crédito caro e o orçamento familiar comprometido por dívidas seguiram limitando compras de maior valor no comércio varejista brasileiro.

Janaína lembra que o comércio varejista também tem uma margem muito pequena de lucro. Por isso, tenta ganhar produtividade para poder melhorar os ganhos. “Os varejistas acabam investindo muito na otimização de processos e isso também faz com que menos mão de obra seja contratada.”

Recuperações judiciais aumentam no setor

Outro fator que tem jogado contra o emprego do varejo é o grande número de pedidos de recuperação judicial de redes varejistas, lembra a economista.

Excluindo microempresas, Organizações Não Governamentais (ONGs), filiais e empresas inativas, havia no País 6.341 companhias em recuperação judicial em junho deste ano, segundo relatório da insolvência empresarial da consultoria RGF Bizdoc. E o comércio aparece como o setor que acumula o maior número absoluto de empresas nessa condição: 1.649 CNPJs no primeiro semestre deste ano.

Normalmente, varejistas que recorrem a esse instrumento jurídico para renegociar dívidas fecham lojas e demitem funcionários, contribuindo para a redução do emprego formal no setor. Desde agosto em recuperação judicial, a Casas Bahia, por exemplo, fechou 298 lojas físicas e demitiu 3 mil trabalhadores como parte de um plano de reestruturação.

Além de fatores macroeconômicos que afetam as vendas e a saúde das empresas, Janaína aponta mudanças estruturais no comércio varejista como outro fator que contribui para o enxugamento do quadro de trabalhadores.

“O avanço do e-commerce pode tornar o comércio menos intensivo em mão de obra tradicional”, diz a economista. É que a expansão das vendas digitais desloca parte da atividade de milhares de estabelecimentos físicos para marketplaces, centros de distribuição, hubs logísticos e operações mais automatizadas. Com isso, pode ocorrer aumento ou manutenção de vendas simultaneamente a menor necessidade de vendedores, caixas e funcionários de lojas físicas.

Contratação de temporários para o fim de ano não deve reverter situação

Com a proximidade da Black Friday no final de novembro e do Natal em dezembro, a perspectiva é que aumentem as contratações de trabalhadores temporários nos próximos meses. Na análise da pesquisadora, o maior volume de contratações nos próximos meses não será suficiente para reverter o cenário negativo do emprego formal do comércio no ano.

Diante do quadro atual, a perspectiva de que trabalhadores temporários sejam efetivados é menor neste ano. “Mesmo que haja contratação de temporários, acredito que ocorra em uma magnitude menor do que nos anos anteriores e que seja cada vez mais difícil efetivar esses trabalhadores.”

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