A Polícia Militar de Santa Catarina deflagrou nesta semana mais uma edição da Operação Quaresma, num recado claro de que não há mais espaço para tolerância com a barbárie travestida de tradição. A chamada farra do boi, repetida ano após ano sob o rótulo de “cultura açoriana”, é, na essência, um ato de crueldade que envergonha Santa Catarina e afronta a legislação brasileira.
Não se trata de debate sobre identidade cultural, mas de respeito à vida e ao estado de direito. A Lei 9.605/1998 é explícita ao criminalizar práticas de abuso e maus-tratos contra animais. A Lei 17.902/2020 vai além, e estabelece multas pesadas para quem promove, participa ou facilita a prática. Não há brecha para interpretações diferentes: é crime.
Ainda assim, a cada Quaresma, grupos insistem em organizar eventos clandestinos, colocando animais sob estresse extremo, perseguição e agressões. O sofrimento não pode ser relativizado por discursos que evocam o passado. Cultura é construção social dinâmica, que evolui com o tempo e se adapta aos valores contemporâneos. E os valores de hoje são claros quanto à proteção e ao bem-estar animal.
Os números do ano passado apontam seis ocorrências registradas, o que pode parecer pequeno diante do histórico do Estado. Mas cada caso representa um retrocesso civilizatório. Dois animais apreendidos, além de multa aplicada. Cada ocorrência mobiliza forças de segurança, estrutura pública e expõe municípios a uma imagem negativa que em nada contribui para o desenvolvimento regional.
A integração com a Cidasc (Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina) e órgãos de vigilância sanitária demonstra que o combate é amplo e articulado. Mais do que reprimir, é preciso prevenir. A presença ostensiva do Estado nas regiões mapeadas é fundamental para inibir a prática antes que ela comece.
Santa Catarina é referência em qualidade de vida, belezas naturais, turismo e desenvolvimento econômico. Não pode permitir que atos de violência contra animais manchem sua reputação.
Respeitar a lei não é opção. É obrigação. E proteger os mais vulneráveis, inclusive os animais, é sinal inequívoco de maturidade social. A farra do boi não é folclore, é crime, e deve ser tratada com rigor, fiscalização permanente e tolerância zero.