Em busca ser referência em qualidade de vida, inovação e turismo sustentável, a Grande Florianópolis segue na contradição de ser prisioneira do modelo de mobilidade que privilegia o automóvel individual.
A cada manhã, moradores do Norte da Ilha enfrentam filas quilométricas rumo ao Centro; quem vive no continente enfrenta o para e anda na Via Expressa para atravessar a ponte congestionada; ônibus se arrastam no mesmo asfalto disputado com carros e motos. Por aqui, o tempo perdido no trânsito é rotina.
Essa dependência do carro cobra um preço silencioso e alto. A produtividade despenca quando profissionais levam duas horas para percorrer trajetos de dez quilômetros. Empresas perdem, trabalhadores perdem, serviços públicos perdem.
Não há criatividade, turismo ou economia digital que floresça tendo como base os deslocamentos caóticos. O tempo, que poderia ser investido em lazer, em formação, em convivência familiar ou em inovação, é consumido em marcha lenta.
Os efeitos na qualidade de vida são igualmente devastadores. A cidade, que vende a imagem de paraíso, produz diariamente estresse, irritação e ansiedade. A pressa e o esgotamento moldam relações sociais, deixando bairros isolados, agendas comprometidas e a sensação de que morar longe do Centro é um castigo. O sofrimento coletivo foi naturalizado.
Há décadas, especialistas apontam a necessidade de investimentos em transporte público eficiente, integração dos modais, ciclovias contínuas e densidade urbana planejada.
O que falta é coragem política para abandonar a ilusão de que abrir mais uma faixa vai resolver o problema. Mais carros significam mais congestionamento, não importa quantas faixas, túneis ou elevados sejam propostos.
Priorizar o transporte coletivo não é ideologia — é racionalidade econômica. Corredores exclusivos, ônibus com frequência confiável e conexões inteligentes entre Ilha e Continente podem devolver dignidade aos deslocamentos. A experiência de outras capitais brasileiras e de cidades mundo afora prova que reduzir a centralidade do automóvel traz ganhos concretos.
As cidades, incluindo Florianópolis, precisam o que desejam ser: funcionais e humanas, que promovem trabalho, convivência e bem-estar, ou municípios congestionados, em que o motor ronca mais alto que o planejamento. A escolha passa por desapegar da política do improviso e coragem de admitir que a dependência do carro deixou de ser solução e se tornou obstáculo.