Criado em 1992 pela ONU (Organização das Nações Unidas), o Dia Mundial da Água permanece, mais de três décadas depois, como um lembrete incômodo: o acesso à água de qualidade, longe de ser uma realidade universal, ainda é um desafio persistente, inclusive em países privilegiados como o Brasil.
Com cerca de 12% da água doce do planeta, o país construiu ao longo do tempo uma narrativa de abundância que, embora verdadeira em termos absolutos, mascara desigualdades profundas.
A água existe, mas não chega a todos. Milhões de brasileiros ainda convivem com a ausência de saneamento básico, sem acesso regular à água potável, coleta e tratamento de esgoto ou sistemas adequados de drenagem. É o retrato de um país onde riqueza natural e precariedade estrutural caminham lado a lado.
O compromisso assumido internacionalmente por meio do Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, especialmente o ODS 6, que prevê a universalização do saneamento até 2030, escancara a distância entre metas e realidade. Faltam investimentos consistentes, planejamento de longo prazo e, sobretudo, prioridade política. A água, essencial à vida, ainda não ocupa o centro das decisões como deveria.
A situação se agrava diante de pressões ambientais cada vez mais intensas. Poluição de rios, desmatamento de áreas de preservação e o desperdício cotidiano comprometem não apenas a quantidade, mas a qualidade dos recursos hídricos disponíveis.
Ao mesmo tempo, a degradação dos ecossistemas aquáticos afeta cadeias alimentares inteiras e reduz a capacidade da natureza de regular o clima, ampliando os impactos das mudanças climáticas.
Não se trata apenas de garantir água para beber. Rios, lagos e mares sustentam economias, abastecem cidades, viabilizam a produção de energia e asseguram a sobrevivência de incontáveis espécies. Ignorar essa complexidade é reduzir a água a um recurso utilitário, quando, na verdade, ela é um elemento estruturante da vida em todas as suas dimensões.
Diante desse cenário, a mobilização proposta pela ONU ganha contornos de urgência. Governos, instituições e sociedade civil precisam transformar conscientização em ação concreta.
Isso passa por educação ambiental, incentivo ao consumo responsável e, principalmente, pelo fortalecimento de políticas públicas que garantam acesso universal e preservação dos mananciais.
O Dia Mundial da Água não deve ser apenas uma data simbólica, mas um ponto de inflexão. Em um país onde a água é abundante, mas o acesso é desigual, cuidar desse recurso é uma obrigação coletiva. Afinal, preservar a água hoje é assegurar a própria continuidade da vida amanhã.