A recente morte do cão comunitário Orelha, na Praia Brava, em Florianópolis, reacendeu uma discussão urgente e dolorosa: a escalada dos maus-tratos a animais em Santa Catarina e a necessidade de repensar urgentemente a forma como lidamos com esse tipo de violência.
Os casos de denúncias de maus-tratos contra animais cresceram 206% no Estado ao longo da década: saíram de 1.300 em 2015 para mais de 4.000 no ano passado – foram 3.783 ocorrências registradas até o início de dezembro.
Orelha, também chamado de Preto por muitos moradores, não era apenas mais um cão na rua. Era parte da vida local há quase uma década, alimentado, cuidado e respeitado por pescadores, comerciantes e famílias que o acolhiam. A morte por eutanásia foi resultado de agressões tão brutais sofridas pelo animal e gerou revolta e mobilizou centenas de pessoas em um protesto que clamou por justiça e punição dos responsáveis.
A Polícia Civil já identificou os adolescentes envolvidos no caso e os pais devem ser ouvidos ainda nesta semana. Mas o caso de Orelha é apenas um em um cenário mais amplo.
Em diversas cidades brasileiras, episódios de violência contra cães, gatos e cavalos têm gerado comoção nas redes sociais e protestos nas ruas — de ataques físicos até abandono cruel após ferimentos.
Esses episódios refletem uma falha sistêmica: apesar de o Código Penal e leis mais recentes, como a Lei Sansão (14.064/2020), terem endurecido as penas para maus-tratos, a aplicação efetiva da lei e a prevenção desses crimes ainda são insuficientes.
Os maus-tratos também resvalam na falta de educação e de respeito. O que ocorreu em Florianópolis expõe um desafio coletivo. Não basta que esses casos sejam investigados; é preciso promover educação, empatia e políticas públicas que protejam os animais de maneira efetiva. A mobilização comunitária na Praia Brava mostrou que a sociedade não aceita mais o sofrimento animal.
Ao transformar a dor pela perda de um companheiro de quatro patas em um grito por dignidade e justiça, ouvimos um pedido mais amplo: é hora de repensar nossas atitudes, fortalecer a fiscalização, apoiar as instituições de proteção aos animais e garantir que casos como o de Orelha não se repitam. A violência contra animais, assim como qualquer outra forma de crueldade, compromete a consciência social e exige de todos reflexão e ação.