O Carnaval é, por essência, uma celebração da alegria, da liberdade e da ocupação democrática do espaço público. Mas, ano após ano, essa festa popular também expõe uma ferida social persistente: a violência contra as mulheres.
Nesse contexto, a campanha nacional “Se liga ou eu ligo 180”, lançada pelo Ministério das Mulheres para o Carnaval deste ano, surge como uma resposta necessária e urgente a um problema que não pode mais ser tratado como exceção ou exagero.
Ao reafirmar que as mulheres têm direito à festa e ao espaço público sem violência, o governo federal envia uma mensagem clara: assédio, importunação sexual e qualquer forma de agressão não fazem parte do Carnaval. Nunca fizeram.
A naturalização desses comportamentos, muitas vezes disfarçada de “brincadeira” ou “excesso de animação”, é um dos grandes obstáculos para a construção de ambientes realmente seguros. Combater essa cultura exige ações firmes, visíveis e contínuas, exatamente o que a campanha propõe.
A força da iniciativa está, também, na sua capilaridade. Levar a mensagem do Ligue 180 para os grandes carnavais do país, com ações de alto impacto visual, locuções, iluminação simbólica e presença direta nos espaços da festa, significa ocupar o mesmo território onde a violência acontece.
Mais do que informar, a campanha constrange o agressor e empodera a vítima, ao deixar claro que há canais de denúncia, acolhimento e responsabilização.
Outro ponto relevante é o apelo à responsabilidade coletiva. Garantir um Carnaval seguro para as mulheres não é tarefa exclusiva do Poder Público ou das vítimas. É um compromisso que envolve foliões, organizadores, artistas, patrocinadores e toda a sociedade. Silenciar diante do assédio também é uma forma de conivência, e a campanha acerta ao chamar todos para esse enfrentamento.
O Carnaval movimenta milhões de pessoas, recursos e atenções. Usar essa vitrine para afirmar direitos, promover respeito e salvar vidas não diminui a festa; ao contrário, a engrandece. Um Carnaval verdadeiramente popular só é completo quando todas e todos podem brincar sem medo.
Que o “Se liga ou eu ligo 180” não seja apenas um slogan de temporada, mas um marco na consolidação de um Carnaval em que a liberdade não sirva de desculpa para a violência. E que o respeito seja regra, não exceção.