Qual será a próxima grande descoberta científica da inteligência artificial?
A solução do problema do milênio de Navier-Stokes por uma IA acelerou as expectativas. Crédito: Alexandre Chiavegatto Filho
O presidente Donald Trump deixou claro na última semana que considera uma “FARSA” o temor de que a inteligência artificial possa levar à extinção em massa, e que vê os opositores dos data centers como pessoas que “querem acabar atrasadas e pobres”. Pessoas que discutiram o assunto com Trump em particular dizem que seus desabafos têm raiz na preocupação de que, se o boom da inteligência artificial que alimenta a economia americana desacelerar, o mercado pode desabar e uma recessão viria rapidamente na sequência.
Suas investidas antirregulação e contra qualquer freio têm sido encorajadas por uma fatia das vozes mais influentes do Vale do Silício. A principal delas é David Sacks, investidor de venture capital que interveio para enfraquecer uma ordem executiva, em maio, que teria exigido revisões de segurança para novos modelos de IA. Mark Zuckerberg, da Meta, e Jensen Huang, da Nvidia, também conversaram com o presidente. Todos aconselharam Trump de que o risco maior é ser ultrapassado por concorrentes chineses.
Mas, dentro do governo, o debate é bem mais complexo, e há outras vozes no ouvido de Trump pedindo cautela.
O tom mais cauteloso dentro da Casa Branca reflete uma preocupação crescente de que, apesar do desafio estratégico representado pela China, um meio de ano de surpresas na IA elevou a perspectiva de riscos que, um ano atrás, eram frequentemente descartados como conversa fiada de “doomers” — os que preveem catástrofe.

Donald Trump durante convenção do Partido Republicano, dia 9 de setembro de 2026, em Dallas. Foto: Andrew Harnik/Getty Images/AFP
Agora, até os maiores entusiastas da IA no governo admitem que invasões de infraestrutura impulsionadas por IA, ameaças biológicas, ataques a sistemas de comando e controle nuclear, perdas de empregos e instabilidade financeira global parecem mais possíveis do que antes de agentes de IA saírem do controle.
A questão da segurança em IA deve ganhar corpo neste fim de semana, quando o secretário do Tesouro, Scott Bessent, se reunir em Nova York com seu equivalente chinês para definir a agenda da visita de Trump a Washington com o presidente chinês, Xi Jinping, que começa na quarta-feira, 23. Bessent tenta negociar algum tipo de acordo entre Trump e Xi que sinalize que os dois países estão trabalhando juntos em preocupações mútuas de segurança em IA.
Mas autoridades dizem que algumas das ideias mais ambiciosas em discussão entre especialistas em segurança de IA — incluindo um acordo sobre padrões de segurança e revisões de futuros modelos chineses e americanos antes de seu lançamento público — provavelmente não farão parte de um eventual acordo inicial.
Um diplomata envolvido no esforço disse acreditar que “o melhor que podemos esperar” é a criação de algum tipo de grupo de trabalho EUA-China que se apoie em um acordo da era Biden com a China para barrar o uso de inteligência artificial em decisões sobre o emprego de armas nucleares. Mas isso nem começa a enfrentar a complexidade do problema dos agentes imprevisíveis movidos a IA, que pegaram a indústria e o governo de surpresa neste verão do hemisfério Norte.
Tampouco toca nas questões fundamentais sobre impor salvaguardas a modelos de fronteira. Os Estados Unidos poderiam seguir seu próprio caminho e impor revisões obrigatórias de segurança a novos modelos de criação americana, mas Trump e seus assessores acreditam que isso empurraria o mercado global para alternativas chinesas, em grande parte de código aberto. E, como esses modelos abertos podem ser modificados pelos usuários — que poderiam remover os “guardrails” destinados a limitar seus poderes —, uma revisão de segurança pode significar pouco.
Trump quer se reunir com os executivos de IA na próxima semana, segundo representantes das empresas. (Uma autoridade da Casa Branca disse na quinta-feira que, até aquele momento, nada estava na agenda.)
Se a reunião acontecer, ela presumivelmente incluiria alguns dos executivos de IA que, nos últimos dias, vêm pedindo exatamente o tipo de desaceleração no lançamento de novos modelos a que Trump diz se opor.
Poucos esperam que Dario Amodei, um dos fundadores da Anthropic, esteja entre os convidados: os produtos de sua empresa foram banidos pelo Pentágono, e ele aparentemente irritou Trump recentemente ao propor um plano detalhado para que a indústria imponha a si mesma um ritmo e traga inspetores de segurança independentes. Trump o desqualificou e denunciou uma categoria não identificada de “Teóricos da Conspiração, Traidores, Renegados e Vazadores” que estariam politizando o debate sobre IA e solapando a liderança americana.

Dario Amodei, CEO da Anthropic, durante depoimento ao Senado americano, em 2023: executivo perdeu espaço junto ao governo americano, após fazer propostas ligadas à segurança da IA. Foto: Saul Loeb/ AFP
Mas outro fundador da Anthropic, Tom Brown, que desperta menos ira na Casa Branca, conversa regularmente com autoridades. Nos últimos dias, Trump também falou com Sam Altman, da OpenAI, e Elon Musk, da SpaceX, ambos os quais endossaram, ao menos em termos gerais, o plano de Amodei de desacelerar, testar novos modelos em busca de vulnerabilidades e admitir inspetores externos.
Bessent e a chefe de gabinete da Casa Branca, Susie Wiles, vêm se preocupando cada vez mais, nos últimos meses, com a possibilidade de a IA causar rupturas maciças em diversos setores, incluindo invasões a grandes instituições financeiras capazes de desestabilizar a economia mundial.
Wiles começou neste ano a organizar um grupo informal para pensar como lidar com o risco criado por modelos novos e mais poderosos. Bessent é o principal membro desse grupo, disse uma autoridade do governo, mas outros especialistas são chamados dependendo do tema.
A Casa Branca apontou uma publicação de Wiles nas redes sociais, em 6 de maio, como a declaração fundadora de como Trump equilibra os riscos e as oportunidades da nova tecnologia. “Este governo tem um objetivo: garantir que a melhor e mais segura tecnologia seja implantada rapidamente para derrotar todas e quaisquer ameaças”, escreveu ela na ocasião. Disse ainda que “a Casa Branca continuará a liderar um esforço America First que empodera os grandes inovadores americanos, não a burocracia, para conduzir a implantação segura de tecnologias poderosas, mantendo os Estados Unidos seguros”.
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Questionada sobre a acusação de Trump de que o risco da IA é exagerado, Elizabeth Huston, porta-voz da Casa Branca, disse: “O presidente Trump está dizendo que os democratas usarem a preocupação com a IA como forma de marcar pontos é uma farsa, assim como suas alegações de que a mudança climática mataria todo mundo em seis anos.”
Ela acrescentou que Trump reverteu a “abordagem fracassada” do governo Biden, que, segundo ela, “sufocou a inovação, prejudicou os consumidores e quase custou aos Estados Unidos sua vantagem competitiva sobre a China”.
Mas, em um momento em que a IA emergiu como talvez a questão de longo prazo mais importante para a saúde econômica e a segurança nacional do país, na Casa Branca de Trump não há uma única pessoa encarregada de coordenar a política de inteligência artificial. Marco Rubio, em seu papel de conselheiro de segurança nacional, raramente é mencionado como ator nessas questões. A Casa Branca eliminou o cargo de vice-conselheiro de segurança nacional para cibersegurança e tecnologias emergentes, criado durante o governo Biden.
E o diretor nacional de cibersegurança, posição criada pelo Congresso, tem apenas autoridade indireta sobre questões de inteligência artificial. O atual ocupante é Sean Cairncross, ex-alto funcionário do Comitê Nacional Republicano, que tinha pouca experiência em cibersegurança e IA antes de assumir o cargo.
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Duas pessoas usando o mesmo modelo entregam resultados muito diferentes e a razão não está no modelo. Crédito: Estadão
Houve ainda um expurgo de parte da expertise técnica, inclusive na Agência de Cibersegurança e Segurança de Infraestrutura (CISA), que integra o Departamento de Segurança Interna. (O diretor interino da CISA disse recentemente que a agência está contratando cerca de 250 novos funcionários, depois de perder aproximadamente mil postos — cerca de um terço de sua força de trabalho — desde que Trump voltou à Casa Branca.)
Como resultado, a IA se tornou a mais recente batata quente do governo, com diferentes autoridades entrando e saindo do círculo de influência conforme o tema, ou o dia da semana.
Trump parece movido principalmente pela percepção de que a IA é o caminho para o crescimento econômico e de que nada pode ser autorizado a ficar em seu caminho.
Ele se agarrou a essa ideia no fim da temporada de campanha. Em uma reunião reservada com executivos da OpenAI, em junho de 2024, Trump discutiu com eles a ideia de criar uma versão da “Operação Warp Speed” — sua iniciativa de todo o governo para acelerar as vacinas contra a covid-19 — voltada à construção de data centers.
Desde então, ele tem se mostrado determinado a alimentar o crescimento da IA a quase qualquer custo político, para manter viva o que já chamou de “galinha dos ovos de ouro”. Trump, um incorporador imobiliário, está ávido para continuar construindo, descartando as preocupações de Estados e cidades que querem frear ou interromper as obras.
“Os robôs não vão dominar”, insistiu Trump ao participar por telefone de uma grande conferência em que Sacks e Jensen Huang estavam no palco nesta semana. “A IA não vai dominar o resto do mundo.”
Este artigo foi publicado originalmente no The New York Times.
Este conteúdo foi traduzido com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial e revisado por nossa equipe editorial.Saiba mais em nossa Política de IA.