Todo mês, o casal de artistas Rebeca Sauwen, 31, e Renan Rocha, 30, envia, de Niterói, cartas endereçadas a desconhecidos de todas as regiões do Brasil e de alguns lugares do exterior. Eles são fundadores da Tinta e Tempo, um clube de correspondência mensal criado em fevereiro e que hoje reúne mais de 500 assinantes.
O casal faz parte de um mercado que nasceu como um antídoto das redes sociais e da vida acelerada pelo avanço da tecnologia. No exterior, o movimento viralizou com a #snailmail (algo como correspondência tradicional). O relatório de tendências do Pinterest para 2026 registrou crescimento global de 90% nas buscas por ideias para amigos por correspondência e de 45% por cartas escritas à mão. Os dados comparam o período de setembro de 2024 a agosto de 2025 com os 12 meses anteriores.
No Brasil, há indícios de que esse mercado também ensaia ampliar espaço. Ainda assim, não há levantamentos feitos localmente que permitam estimar o número de clubes em atividade. A hipótese é de que a tendência ganhou adeptos no Brasil mais recentemente e começou a atrair a geração Z e os millennials em busca de hábitos mais analógicos, mas não significa que o mercado esteja consolidado.
“As pessoas estão buscando experiências diferentes, quase peculiares, em um cotidiano muito digital: algo mais lento, com objeto físico e espera… Não se trata de rejeitar a tecnologia, mas de buscar uma pausa. Para artistas e escritores com público, o clube é uma forma de transformar seguidores em renda recorrente. Mas é cedo para falar em mercado consolidado”, afirma Eduardo Mesquita, coordenador do Centro de Estudos Aplicados de Marketing da ESPM e especialista em comportamento do consumidor.
As cartas manuscritas e decoradas geralmente são acompanhadas por artes exclusivas, elementos surpresa, marca-páginas, cartões-postais e outros itens de papelaria. Não há um tema universal. O Estadão mapeou clubes de tarô, arte, literatura, cinema e histórias pessoais. Os assinantes da Tinta e Tempo, por exemplo, pagam R$ 50 por mês para receber uma carta feita por Rebeca em que compartilha os bastidores do processo de criação de suas pinturas. A cada edição, uma obra serve de inspiração para o texto e para os brindes que vão no envelope.

Rebeca Sauwen e Renan Rocha lançaram um clube de cartas em fevereiro com mais de 500 assinantes de todas as regiões do Brasil e de outros países Foto: Pedro Kirilos/Estadão
Antes de se tornar um negócio com centenas de assinantes, a iniciativa surgiu como um hobby para a jovem artista desacelerar em meio à rotina profissional. No primeiro mês, em fevereiro, o projeto começou com apenas 20 assinantes, a maioria amigos e familiares. O clube furou a bolha com um vídeo publicado nas redes sociais em que Renan narrava a ida aos correios para o envio das cartas.
“Era uma vontade de ter o meu momento manual longe do celular, não imaginávamos que ia ter retorno financeiro”, conta Rebeca. Com o crescimento da base de clientes, a produção também ganhou novas etapas. Hoje, o processo de emissão e correção das etiquetas de envio consome cerca de duas horas a cada 100 assinantes. A logística envolve contratação de gráficas, impressão, personalização de envelopes, montagem dos kits e data dos envios. Uma parte do processo continua sendo feita manualmente pela dupla, em um cômodo da casa.

As pinturas feitas por Rebeca, que inspiram o tema e os materiais enviados aos assinantes a cada edição do clube de cartas Foto: Pedro Kirilos/Estadão
O casal também começou a perceber que os assinantes atribuíam novos significados às cartas. Uma cliente, por exemplo, assinou o clube para o pai, que mora no Brasil enquanto ela vive no exterior. Pai e filha criaram o ritual de conversar por telefone sempre que a correspondência chega. “O valor emocional que isso tem levado para a vida das pessoas é algo que faz a gente ver que a marca vale a pena”, relatam.
Há ainda assinantes que reutilizam os cartões e as ilustrações para escrever aos próprios amigos. É o caso da bailarina Mayariane Castro, de 24 anos, que tem o hábito de trocar cartas entre o círculo de amizade e com a finalidade de conhecer novas pessoas. “Sempre gostei de uma comunicação mais analógica”, diz.
Ela troca cartas quase todos os meses, inclusive com uma amiga que mora na Austrália, que conheceu por meio da comunidade de correspondência. A jovem também escreve para a irmã de consideração, que, apesar de encontrar com frequência, quis receber uma carta escrita à mão. “Ela falou: ‘Eu quero uma carta, eu quero guardar a sua carta’”, conta.

Mayariane Castro, de 24 anos, diz que o hábito do clube de cartas é uma oportunidade de desacelerar e estabelecer relações mais próximas; na foto, uma edição do clube que assina Foto: Arquivo pessoal
Desde o começo do ano, Mayariane compartilha em sua conta no TikTok as correspondências que recebe. Ao todo, chegou a assinar três clubes de cartas, mas dois foram descontinuados. Atualmente, ela mantém uma assinatura ativa, de R$ 59,90 por mês. O pacote inclui cartas, adesivos, ilustrações e outros materiais produzidos manualmente. “Pelo trabalho manual e artístico, acredito que é um valor até baixo”, afirma a jovem, que estima que os clubes se tornaram uma alternativa para artistas independentes divulgarem as produções artísticas.
Mercado atrai profissionais que desenvolvem trabalhos manuais
Assim como Mayariane, outras pessoas descobrem a existência dos clubes nas redes sociais, embora a tendência seja descrita como um recurso que estimula uma vida longe das telas. Nesse contexto, muitos profissionais que estão apostando no mercado, ainda incipiente no Brasil, aproveitam a comunidade online que construíram para atrair possíveis assinantes para o clube.
O ilustrador e escritor Lucas Misunaga, de 31 anos, conhecido na internet como @artedoluc, planejava aprofundar os textos que escrevia quando teve a ideia do clube. Com mais de 600 mil seguidores apenas no Instagram, ele também desejava criar uma fonte de financiamento menos dependente dos algoritmos.
“Eu preciso financiar o meu trabalho, mas também não quero fazer qualquer coisa. Quero fazer algo que faça sentido para mim. Com o clube de cartas, existe essa construção de comunidade, de pessoas que gostam do que eu escrevo e do que eu desenho”, afirma.

O ilustrador e escritor Lucas Misunaga, de 31 anos, já trabalhava exclusivamente com arte e escrita antes de começar o clube de cartas Foto: Arquivo pessoal
Há pouco mais de seis meses, ele criou o próprio clube de correspondência, que hoje soma mais de 300 assinantes. A mensalidade custa R$ 50 para quem recebe a carta impressa e, a partir de R$ 10, para quem opta pela versão digital. Diferentemente de clubes em que a carta surge a partir da obra visual, o principal conteúdo de Lucas é uma crônica inspirada em situações cotidianas, que depois dá origem a uma ilustração. Os assinantes recebem a carta e uma reprodução impressa da arte, além de adesivos, desenhos para colorir e livros independentes, os chamados zines.
Hoje o clube é a principal fonte de renda do artista. Com o valor das assinaturas, Lucas consegue pagar os custos de produção e usar o lucro para despesas pessoais, como aluguel e contas do dia a dia. Mesmo com o sucesso do clube, Lucas diz sentir insegurança para manter o interesse dos assinantes. A estratégia tem sido preservar a espontaneidade do projeto.
“Estou trazendo algo humano para o que escrevo e desenho, para que isso gere conexão”, diz. No longo prazo, ele pretende adaptar as crônicas enviadas aos assinantes em um livro.
Quem também conseguiu tornar o clube de carta em uma frente de negócio foi a artista Camila Lopes, de 33 anos. No entanto, não seguiu o “modelo convencional” de edições mensais. Ela apostou em lançamentos avulsos. A primeira edição foi lançada em março, em celebração ao próprio aniversário, com uma carta sobre o ciclo, com sugestões de músicas e frases que a acompanharam. Ao todo, foram três edições. A estreia teve 80 compradores.

A artista Cami Lopes cria edições avulsas em seu clube de cartas, que permitiu abrir outras frentes de negócio no laboratório criativo que comanda Foto: Reprodução/TikTok
Ela relata que o clube nasceu como uma extensão de outro trabalho que desenvolvia: oficinas de journaling, prática de registrar memórias em um diário visual, com colagens, fotografias, ilustrações e itens de papelaria. A ideia era oferecer, inclusive para quem não morava em São Paulo, materiais para experimentar a atividade em casa. “O mail club nasceu como uma possibilidade para abastecer o estoque de itens para produzir journal”, explica.
A iniciativa também trouxe mais visibilidade ao trabalho da artista e abriu portas para outras frentes comerciais. Camila conta que diversas marcas a contrataram para organizar oficinas corporativas de journaling a partir do clube de cartas.
Agora, a intenção é retomar o clube de forma esporádica em vez de manter uma frequência fixa. “Hoje eu entendo que diversos artistas passaram a levar o clube como fonte de renda, justamente por terem furado a bolha”, diz.
Modelo de negócio ainda não é garantia de renda
Nem todos que criam clube de cartas almejam lucro direto com as vendas. A ilustradora Magê Bocutto, de 27 anos, também encontrou no movimento de correspondência física uma oportunidade para aumentar a visibilidade da marca autoral. Formada em moda, ela trabalha em um estúdio de design especializado em casamentos e, em paralelo, desenvolve projetos de ilustração para marcas e pessoas físicas.
“Não recomendaria criar clube para renda extra. Quis ter outro retorno e deu certo. Tem gente que contratou o meu serviço a partir das cartas”, diz a profissional, acrescentando que “gasta mais do que recebe” na venda dos envelopes. A primeira coleção, lançada em junho, incluía porta-copos, adesivos, cartões-postais e uma carta em que a ilustradora explicava as referências por trás da criação.
Ela diz que o custo de produção de 50 unidades é de R$ 3,2 mil. Para conseguir ter lucro, ou pelo menos compensar o investimento, é necessário vender mais da metade. Mas afirma que consegue bancar o projeto porque mantém outras fontes de renda. Uma carta custa R$ 130.

Magê Boccuto, de 27 anos, é formada em moda e desde junho mantém um clube de cartas limitado para 50 leitores Foto: Werther Santana/Estadão
As propostas de marcas com as quais sonhava trabalhar e os pedidos de projetos autorais de pessoas que conheceram o trabalho da ilustradora por meio das cartas compensaram os custos. “Pode ser que eu fique só com metade do investimento que fiz no clube, mas estou tendo esse retorno que não esperava e que está sendo tão legal quanto”, diz.
Já a designer gráfica Débora Fomin, de 37 anos, não busca retorno financeiro tampouco visibilidade profissional. Ele criou um clube de cartas, batizado de Relicário, como uma homenagem à mãe, que faleceu quando Débora tinha 11 anos.
O clube reúne 11 assinantes. Cada envio mensal, vendido por R$ 59, reúne uma carta autoral, uma ilustração produzida por Débora, um item artesanal, geralmente um bordado feito no papel, um pedaço de tecido, além de adesivos e outros materiais de papelaria. O pacote também traz uma atividade para que as assinantes participem da experiência.

Uma das edições do Relicário, clube de cartas criada pela designer Débora Fomin a partir das memórias da mãe Foto: Arquivo pessoal
Na edição de outubro, por exemplo, a proposta era que cada pessoa registrasse um costume familiar, quem o ensinou e por que gostaria de mantê-lo. Os materiais são apresentados em envelopes e saquinhos costurados, com detalhes como rendas, carimbos e selos de cera reutilizáveis.
O dinheiro arrecadado é destinado ao funcionamento do clube, sem que Débora comprometa o orçamento pessoal. “Eu pego essa renda e invisto na minha arte. Tinta, tela, papel, tudo isso sai desse orçamento”, afirma.
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Ainda que Débora não almeje ter uma renda do clube de cartas, a demanda por experiências analógicas pode representar oportunidades para pequenos empreendedores, afirma Enio Pinto, gerente de Relacionamento com o Cliente do Sebrae Nacional. “As experiências de desaceleração são insumos nobres para quem busca a tão desejada qualidade de vida”, diz.
Do ponto de vista empresarial, o formato de assinatura favorece a organização financeira dos pequenos negócios. “Os clubes de assinatura são muito bem-vindos, porque hoje asseguram o que chamamos de receitas recorrentes, o que simplifica o processo de gestão de fluxo de caixa, ponto crítico para o sucesso empresarial”, afirma.
Apesar da previsibilidade das assinaturas recorrentes, tornar um clube de cartas em um negócio sustentável não é uma tarefa simples, pondera Eduardo Mesquita, professor da ESPM. “O maior desafio é conseguir aumentar o número de assinantes sem perder aquilo que torna o produto especial, que é o trabalho feito à mão e a sensação de receber algo pessoal”, afirma.
Outro gargalo é a personalização, que pode ser determinante para a experiência de quem recebe a carta, avalia Mesquita. Se diferentes clientes recebem o mesmo conteúdo, com mudanças apenas no nome do destinatário, a sensação de exclusividade se esvazia. “O caminho é ser transparente. A carta pode ser assumida como um texto coletivo, folhetim. A personalização fica reservada para detalhes pequenos e únicos, ou para um plano premium com poucas vagas. Fingir que a carta é individual é arriscado”, diz. Na parte operacional, ele recomenda estabelecer um calendário fixo, produção em lote, além de calcular o preço considerando não apenas os materiais e o envio, mas também as horas trabalhadas.
À frente do clube de cartas da Tinta e Tempo, Rebeca e Renan pretendem manter o modelo de assinatura mensal, que alcança leitores na Nova Zelândia, nos Estados Unidos, na Holanda, na Argentina, no Canadá e na França. A expectativa é de que o negócio se torne a principal fonte de renda do casal. Paralelamente, eles também começaram a vender pinturas em tela pelo site do clube, novo projeto que surgiu após a repercussão das assinaturas.
“Nós estamos ganhando dinheiro fazendo arte, isso é muito legal”, diz o casal.