IA precisa entrar no centro do debate das eleições de 2026; veja prioridades
Datacenters verdes e incentivos à tecnologia devem ser incluídos nos planos de governo. Crédito: Alexandre Chiavegatto Filho | TV Estadão
A Geyser Data, empresa americana, inicia operações no Brasil com foco em armazenamento de dados frios, investindo US$ 100 milhões até 2029 em Campinas. Robson Andrade, CRO da empresa, destaca a importância da soberania de dados e a vantagem de não cobrar pelo acesso aos dados. O mercado de data centers no Brasil cresce, impulsionado por incentivos fiscais como o ReData, apesar de preocupações ambientais e fiscais levantadas pela Coalizão Direitos na Rede. O maior projeto está em construção no Complexo do Pecém, CE.
A americana Geyser Data está iniciando operações no Brasil com foco em oferecer armazenamento de dados frios às empresas brasileiras. Diferentemente dos data centers que processam demandas de inteligência artificial (IA), o negócio da companhia é guardar dados que já foram gerados e precisam ser armazenados por longos períodos, como backups históricos, exames médicos, documentos judiciais e notas fiscais.
Com investimento de US$ 100 milhões (R$ 510 milhões, em conversão direta) até 2029, a operação da Geyser Data será na região de Campinas, conhecida por ter data centers de empresas como Ascenty e Scala. Cerca de 70% do capital investido no País será destinado à infraestrutura (hardware, software e serviços de nuvem). Os 30% restantes serão aplicados na contratação de equipe e nas despesas da operação.
Robson Andrade, diretor global de receita (CRO) da Geyser Data e responsável pela operação brasileira, afirma que o volume de criação de dados tem crescido exponencialmente nos últimos anos, o que traz para a empresa oportunidades em diferentes ramos de mercado. “Por exemplo, a imagem de uma câmera de segurança vale no momento. A gravação já é um dado frio. Quando você faz um exame no hospital, como um raio X ou uma ressonância, e ele é armazenado, já não é mais um dado quente, é um dado frio”, explica.

Robson Andrade lidera a operação brasileira da Geyser Data Foto: Alexandre Machado
O executivo conta que a localização do data center foi escolhida estrategicamente para manter uma cópia de segurança dos dados das empresas a pelo menos 50 km de distância do eixo Rio-São Paulo. Por isso, a unidade serve como uma alternativa viável para recuperação de informações em casos de desastres.
Como diferencial do negócio, Andrade destaca que a companhia não cobra pelo acesso aos dados como fazem tipicamente empresas de data center. “Temos muitas vantagens competitivas, por exemplo, não temos custo de extração do dado para não gerar lock-in (aprisionamento). As hyper scalers (grandes empresas de tecnologia) fazem isso hoje. Você põe o dado lá para armazenar por um valor. Quando precisa acessá-lo, o preço dobra. No passado, batizei isso de pacote de maldades. São milhares de linhas pequenininhas nos contratos que deixam o Brasil escravo”, afirma.
De acordo com o executivo, a soberania de dados na era da IA se tornou um tema importante no mundo todo e no qual o Brasil ainda precisa avançar, reduzindo, por exemplo, a dependência de grandes empresas americanas ou chinesas para acessar seus dados. Ele diz que o objetivo da Geyser Data é demonstrar de forma prática que o País pode garantir sua soberania ao hospedar uma infraestrutura de nuvem local física em Campinas que atenda à LGPD e mantenha os dados sob as leis nacionais, e não no exterior.
Andrade diz ainda que as organizações brasileiras podem continuar utilizando serviços de computação de nuvens públicas estrangeiras, como a AWS, da Amazon, no dia a dia, desde que mantenham uma cópia de segurança física isolada em um cofre local, fora do alcance dessas empresas.
O executivo conta que o consumo energético do novo data center é baixo por não precisar de processamento de cargas de IA em tempo real como ocorre em empreendimentos que tratam dados de necessidade imediata. Segundo Andrade, o consumo é de 3,5 kVA para 50 petabytes (50 milhões de gigabytes), ou seja, 0,07 W por terabyte armazenado, o que representa um consumo 80% inferior ao de outros data centers.
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Segundo dados da consultoria JLL, 2026 deve ser um ano com número recorde de novos data centers no Brasil. No primeiro semestre, os dados da companhia mostram que US$ 8 bilhões foram investidos na área, resultando na chegada de 106 megawatts (MW), com outros 134 MW previstos para chegarem ao mercado até o fim do ano. A taxa de vacância é tida como baixa, em 4%, devido à alta demanda das empresas.
O crescimento médio do setor é de 15% ao ano, segundo a JLL. Com isso, os números mostram um aumento de seis vezes no tamanho do mercado brasileiro para data centers desde 2012.
Com a aprovação do Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (ReData) no Senado, projeto que suspende tributos federais para empresas, o País pode ver a chegada de mais empreendimentos focados no processamento e armazenamento de dados. O texto ainda vai à sanção.
O maior projeto de data center no País está em construção no Complexo do Pecém, próximo a Fortaleza (CE), e terá investimento total previsto de R$ 200 bilhões em cerca de duas décadas. O empreendimento será dedicado ao processamento de dados de IA do aplicativo TikTok e é feito em parceria com a Omnia, empresa de data centers do Grupo Pátria Investimentos.
Mesmo antes da aprovação do Redata no Senado, outras empresas têm trazido seus data centers ao País, como é o caso da Ascenty. A empresa anunciou um investimento de US$ 1,2 bilhão para construir quatro empreendimentos dedicados ao processamento de dados de IA.
O ReData, no entanto, também enfrenta resistência de parte do mercado, sob argumentos de baixa geração de emprego e alto consumo de água e energia. A Coalizão Direitos na Rede (CDR), articulação de mais de 40 organizações da sociedade civil, manifestou preocupações ambientais e fiscais com relação à aprovação do Redata.
“A Coalizão também alerta para o impacto fiscal da proposta. Estimativas da Receita Federal apontam renúncia de aproximadamente R$ 5,2 bilhões em 2026, R$ 1 bilhão em 2027 e R$ 1,05 bilhão em 2028. Diante desse volume de recursos públicos, é fundamental que eventuais benefícios sejam condicionados a contrapartidas efetivas em sustentabilidade, eficiência energética, proteção hídrica, desenvolvimento tecnológico nacional e soberania digital, além de mecanismos de transparência e controle social”, informou, em nota, a CDR.