O momento é crítico. Segundo a Agência Nacional de Águas, o rio em Itaituba pode cair a 300 cm já no final de setembro, abaixo do nível de restrição. Em 2024, a estiagem já havia interrompido a navegação por 45 dias em trechos críticos. Se o Tapajós ficar sem navegação por três a quatro meses, estima-se que 5 milhões de toneladas de grãos deixarão de ser escoadas pela hidrovia, com prejuízo de até R$ 850 milhões, além do risco sobre o abastecimento de combustíveis que atende 17 municípios do Pará e do Mato Grosso. O Arco Norte já responde por mais de um terço das exportações de soja e milho do país, crescendo 14% ao ano desde 2009: é o corredor que mais cresce do agronegócio brasileiro, agora tratado como moeda populista em ano eleitoral.
O mais grave é que o que aconteceu no Tapajós não é exceção, é regra. No rio Tocantins, o derrocamento do Pedral do Lourenço, 35 km de rocha que travam a hidrovia Araguaia-Tocantins, prometido desde os anos 1980, foi licenciado, suspenso pela Justiça, liberado com condicionantes e agora é alvo de pedido de tombamento no Iphan. Em Marajó, o aprofundamento do Canal do Quiriri, principal acesso ao porto de Vila do Conde, depende de um estudo iniciado em 2022 pelo governo do Pará e pela UFPA, e que segue sem conclusão até hoje. Esse estudo poderia permitir navios de maior porte e, portanto, fretes menores.
O resultado é insegurança jurídica pura e explosiva: uma lei aprovada pelo Congresso e não aplicada pelo Planalto, pareceres técnicos favoráveis revertidos, contratos suspensos e depois liberados pela Justiça, ações no STF questionando o próprio marco legal. As empresas do Arco Norte já revisam seus planos de expansão. Um levantamento do Instituto GRI aponta R$ 4 bilhões em investimentos represados nas concessões hidroviárias da região.
O transporte por hidrovia custa cerca de R$ 70 por tonelada a cada mil quilômetros, metade dos R$ 130 cobrados pela rodovia no mesmo trajeto. Um comboio de 35 barcaças, com 70 mil toneladas, substitui 1.700 caminhões, emitindo cinco vezes menos gases de efeito estufa por tonelada-quilômetro.