O escândalo do Banco Master é de direita ou de esquerda?
Estadão cria ferramenta detalhando conexões políticas de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Crédito: Daniel Weterman
A Titan, holding de Daniel Vorcaro, enfrenta liquidação nas Ilhas Cayman, sem ativos ou operações locais. Com dívidas de US$ 1 bilhão, incluindo US$ 300 milhões à Tether, a empresa é investigada por lavagem de dinheiro no Brasil. Ex-diretores se recusam a cooperar, e a holding é suspeita de esvaziamento patrimonial. Envolvida em transações com a Fictor, a Titan é credora de R$ 430 milhões após a recuperação judicial da empresa. A Grant Thorton lidera a liquidação, buscando ativos para pagar credores.
A Titan, “holding ostentação” do banqueiro Daniel Vorcaro, não tem ativos nas Ilhas Cayman, onde é sediada formalmente. Também não teve funcionários ou indícios de operação naquele território. Ex-diretores formais da Titan, que também foram executivos do Master, têm se recusado a fornecer documentos e informações sobre o paradeiro do dinheiro e outros bens da holding. Ela tem dívidas de US$ 1 bilhão.
Procurada, a defesa de Vorcaro não se manifestou. Os ex-diretores da Titan e do Master não foram localizados.
Esses são os apontamentos da Grant Thorton, multinacional britânica de auditoria, nomeada pela Justiça das Ilhas Cayman para ser liquidante da empresa. Resultados de apurações iniciais sobre os ativos da holding foram apresentados em uma reunião entre o liquidante e credores na tarde desta quarta-feira, 9.
Titan foi dona do Credcesta e tinha escritório no ‘prédio da baleia’
Como mostrou o Estadão, a Titan Capital Holding é a empresa que Vorcaro usou para abrigar seus investimentos pessoais. A holding anunciava como parte do seu portfólio empresas como a corretora do Credcesta, consignado que alavancou o Master, e antigos ativos, como o Fasano Itaim.
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Apesar de sediada formalmente em Georgetown, nas Ilhas Cayman, a Titan tinha seu escritório no Brasil. Ele ficava em dois andares de um dos ícones da Faria Lima, o “prédio da baleia”. O escritório tinha 4 mil metros quadrados, divididos em duas lajes. Um elevador privativo liga a Titan ao heliponto. Daí a alcunha de “holding ostentação”.
Dívida com gigante de criptomoedas levou à liquidação de holding de Vorcaro
O pedido de liquidação da Titan foi feito em abril pela Tether, uma das maiores empresas de criptomoedas do mundo, que cobra uma dívida de US$ 300 milhões da holding em razão de um empréstimo concedido em março de 2025. A ação da empresa estrangeira foi acolhida pela Justiça, que indicou a Grant Thorton como liquidante responsável por encontrar e leiloar bens da holding para satisfazer as dívidas com credores.
Representantes da Grant Thorton, liquidante nas Ilhas Cayman, tiveram uma reunião na tarde desta quarta-feira, 9, com advogados do liquidante do Master no Brasil, da Tether e outros credores menores. O encontro foi realizado por videoconferência. Foi informado aos credores pelo liquidante que a Titan tem uma dívida de US$ 1 bilhão. Desse valor, US$ 300 milhões são referentes às dívidas da Tether. O próprio Master foi apresentado como credor da Titan, mas o valor da dívida não foi detalhado na reunião.
Relatório mostra falta de documentos e recusa de cooperação de ex-diretores do Master
O Estadão obteve um relatório do escritório, datado de 26 de agosto, que mostra que a Titan basicamente não passava de uma caixa postal nas Ilhas Cayman. Não tinha funcionários nem operações próprias em Georgetown. De acordo com a Grant Thorton, “os registros da Companhia encontram-se principalmente no Brasil e estão, em grande parte, sob a guarda de terceiros”. O liquidante ainda busca livros e registros da Titan.
“Com base nas informações atualmente disponíveis, a Companhia aparentemente não detinha ativos relevantes nas Ilhas Cayman. Ao contrário, os interesses da Companhia parecem ter consistido em participações em subsidiárias brasileiras, veículos de investimento e outros investimentos associados ao grupo mais amplo”, afirma o Grant Thorton, em seu relatório inicial.

Banco Master
Os diretores formais da Titan, segundo o Grant Thorton, são Luiz Antônio Bull e Angelo Silva, que eram executivos do Master e são investigados pela Polícia Federal na Operação Compliance Zero, que apura as fraudes no banco. O liquidante afirmou, no relatório de agosto, que ambos não haviam atendido “solicitações de informações ou documentos”. A reportagem não localizou a defesa deles.
“Os liquidantes reconhecem que ambos os diretores estão sujeitos a procedimentos criminais e a medidas de congelamento de ativos no Brasil. As implicações desses procedimentos para a liquidação continuam sendo analisadas”, afirma a Grant Thorton no relatório.
Titan entrou na mira da PF e do Coaf
Se no exterior a Titan não é dona de nada, no Brasil, a holding fez transações vultosas envolvendo fundos de investimentos. O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e a Polícia Federal identificaram que a Titan foi usada no esquema de esvaziamento patrimonial e lavagem de dinheiro do Master.
Segundo o Coaf, foram feitas transferências de R$ 700 milhões por meio de cotas de fundos de investimento do Banco Master para a Titan, entre janeiro e julho de 2025. Com a informação de que o Master é seu maior credor no exterior, também existe, agora, entre credores, a suspeita de que a holding tenha sido também esvaziada por Vorcaro.
Holding ostentação de Vorcaro foi usada em negócio com a Fictor
A Titan também foi usada em negociações entre o Master e a Fictor, empresa de investimentos que anunciou a compra do banco de Daniel Vorcaro às vésperas da prisão do banqueiro e da liquidação do banco, em novembro de 2025.
Titan Holding, de Daniel Vorcaro, fez um negócio de R$ 566 milhões com a Fictor. A quantia se refere à aquisição de direitos creditórios de usinas de açúcar e álcool que conseguiram na Justiça a condenação do governo federal a indenizá-las em razão de prejuízos causados pelo congelamento de preços nos anos 1980. O valor equivale à quantia que elas teriam a receber decorrente da condenação judicial.
O Banco Master comprou esses direitos das usinas e repassou à holding de Vorcaro, que vendeu à Fictor. Em janeiro de 2026, a Fictor entrou em recuperação judicial. Ela havia pago somente uma parte dos valores da aquisição dos precatórios. Ficou devendo R$ 430 milhões à Titan. Com isso, a holding de Vorcaro é uma das maiores credoras do processo de recuperação da Fictor.