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IA não disputa apenas a nossa atenção, mas também o raciocínio, as decisões e as emoções

Toda nova tecnologia traz benefícios, mas também cria problemas que normalmente só percebemos depois de incorporá-la ao nosso cotidiano. Com a inteligência artificial (IA) não está sendo diferente. Em artigo publicado recentemente, intitulado O Paradoxo da Dependência de IA, Gilberto Sarfati, professor da FGV, chama a atenção para uma questão ainda pouco discutida: quanto custará a inteligência artificial depois que já não conseguirmos trabalhar sem ela?

Essa questão levanta outra: se cada pergunta feita a uma IA custa dinheiro, por que as plataformas oferecem milhões de respostas gratuitamente?

Para responder a esse aparente paradoxo temos de tratar do conceito denominado Freemium – um modelo de negócio onde é oferecido um serviço gratuito com funções básicas, mas você é cobrado por recursos extras ou avançados. O usuário de IA gratuita efetivamente custa dinheiro ao fornecedor, mas também pode gerar valor.

Vista aérea do campus do data center Stargate da Oracle e da OpenAI em Abilene, Texas, na quarta-feira, 26 Foto: Brandon Bell/AFP

O extraordinário na nova economia da inteligência artificial é que as empresas têm razões econômicas para subsidiar nossa entrada justamente enquanto estamos aprendendo a tornar a tecnologia indispensável.

Não significa que exista um plano para “viciar” o consumidor. Mas indica que os incentivos econômicos do fornecedor e a crescente dependência do usuário podem caminhar na mesma direção.

Assim, ocorre o efeito Jevons, que é descrito como um fenômeno econômico que mostra que aumentar a eficiência no uso de um recurso pode aumentar, em vez de diminuir, o seu consumo total.

Como o caso da revolução industrial, que fez com que as novas máquinas a vapor usassem menos carvão para produzir a mesma força. Em vez de gastar menos carvão no país, a melhoria tornou a energia mais barata, fazendo a indústria usar ainda mais carvão do que antes.

Para dar uma evidência desse efeito agora, em junho deste ano, o IBM Institute for Business Value fez uma pesquisa com 1 mil executivos seniores. Nada menos que 71% deles disseram que seria difícil trocar seu principal fornecedor ou modelo de IA. E 91% afirmaram não compreender completamente o graus de suas dependências de fornecedores, modelos e infraestrutura de IA.

O problema não é quanto custa entrar na IA. É quanto custará sair dela. Além desse custo, podemos ter outros maiores como a dependência cognitiva, emocional e social. Já sabemos que, quando o produto é gratuito, o verdadeiro negócio pode ser capturar nossa atenção. Estamos entrando na era da IA sem saber se estamos repetindo o mesmo erro – só que agora a tecnologia não disputa apenas nossa atenção. Ela pode disputar também nosso raciocínio, nossas decisões e até nossos vínculos emocionais. Redes sociais criaram a economia da atenção. A IA pode estar criando a economia da dependência.

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