Com a eventual adoção dessa salvaguarda, a avaliação no setor é que poderiam ser fixadas cotas “generosas” para não prejudicar os exportadores já presentes e estabelecidos no mercado chinês, mas criar barreiras a novos entrantes. A medida, na prática, funcionaria como um congelamento da estrutura atual de mercado.
Os chineses também podem optar por estabelecer uma cota global, com critérios específicos, administrada pela Administração-Geral de Alfândegas do país (GACC, na sigla em inglês). A medida seria “muito ruim” para o Brasil e teria capacidade de “bagunçar o mercado”, disse uma fonte a par do assunto.
O setor privado brasileiro aguarda a decisão para se manifestar. Do ponto de vista jurídico, a avaliação dos exportadores é que o processo de investigação da China viola as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC). Se a decisão desta semana for muito negativa para o mercado, o Brasil poderá acionar o organismo internacional para abertura de um caso contra os chineses.
O novo adiamento faz a China “ganhar tempo” na sua prioridade de negociação comercial com os EUA. O preço da carne no mercado chinês iniciou uma recuperação, o que reduz a percepção de dano causado pelas importações, avaliam fontes. O desafio chinês é respeitar compromissos internacionais do multilateralismo e, ao mesmo tempo, responder às pressões do setor produtivo doméstico.
Os EUA não têm capacidade de suprir a demanda chinesa da proteína animal, lembrou uma fonte. Em 2024, por exemplo, os americanos venderam menos de 140 mil toneladas de carne para a China, enquanto o Brasil exportou mais de 1,3 milhões de toneladas.
Os produtos embarcados por brasileiros e americanos têm características e finalidades diferentes. A carne americana tem maior valor agregado e é vendida em cortes para consumo dos chineses. A proteína brasileira é destinada a receitas com molho, de menor valor agregado.
Outra fonte disse que a China não tem muita “escolha” na questão dos fornecedores. “O Brasil não vai diminuir preço nem descontar tarifa ou qualquer coisa, vai embutir no preço. A carne vai ficar mais cara”, disse. “Eles querem que paremos de exportar, mas quem cobre essa demanda? Eles não têm produção interna para isso, muito menos nossos concorrentes. O Brasil cresceu lá no espaço deixado pelos EUA e Austrália e não porque aumentou o consumo”, avaliou.
“Estão tentando manter um número de importação que não afete o preço da produção local. Estão perdendo muito dinheiro”, disse um dono de frigorífico.
A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec) aguarda a decisão chinesa para se manifestar. A entidade se habilitou para participar do processo e enviou informações sobre o aumento das exportações brasileiras para lá. A estratégia foi demonstrar que os produtos que o Brasil exporta complementam a indústria chinesa. A maior parte da carne brasileira segue para processamento nas empresas locais e não “tira mercado” dos chineses.