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Inflação e risco climático: por que adaptar as metas?

Secas, enchentes, ondas de calor e tempestades afetam a produção de alimentos, a geração de energia e as cadeias de suprimentos, elevando preços e dificultando o controle da inflação. Diante da crise climática, é necessário discutir como adaptar o regime de metas no Brasil.

A transição para uma economia de baixo carbono também pode elevar custos no curto prazo, devido aos investimentos, às mudanças na matriz energética e à precificação do carbono. No longo prazo, porém, inovação e eficiência podem reduzi-los. Estudo de Barnes et al. (2024) estima que, até 2035, o aquecimento global poderá acrescentar de 0,32 a 1,18 ponto percentual à inflação mundial e de 0,92 a 3,23 pontos à inflação de alimentos.

Juros mais altos não recuperam safras perdidas nem reparam infraestruturas destruídas Foto: Taba Benedicto/Estadão

A resposta convencional dos bancos centrais é elevar juros diante de ameaças à meta. Entretanto, juros mais altos não recuperam safras perdidas nem reparam infraestruturas destruídas. Um aperto excessivo pode reduzir consumo, investimento e emprego sem eliminar as causas da alta de preços. Por outro lado, acomodar indiscriminadamente esses aumentos pode contaminar expectativas e salários. O desafio é distinguir choques temporários de oferta de processos inflacionários persistentes.

O Banco Central do Brasil (BCB) avançou na incorporação de riscos socioambientais à regulação e à supervisão financeira, mas pode integrar melhor os riscos climáticos à política monetária.

Propomos um regime de metas adaptativo: manter a meta como referência, mas tolerar desvios decorrentes de choques de oferta e ampliar o horizonte de convergência para três a cinco anos quando seus efeitos forem persistentes.

Para o Brasil, propomos uma meta central de pelo menos 4% ao ano, com banda de tolerância de 2%, em lugar da meta atual de 3% e intervalo de 1,5 ponto. A indexação, preços administrados e choques em itens como petróleo e fertilizantes tornam custosa a busca por uma inflação muito baixa, que pode exigir juros elevados e prejudicar o crescimento.

A adaptação também requer estoques estratégicos de alimentos e matérias-primas, medidas fiscais temporárias, instrumentos macroprudenciais e apoio do BCB ao crédito verde.

Adaptar as metas não significa abandonar a estabilidade de preços, mas reconhecer que ela também depende de uma oferta resiliente e da coordenação de políticas públicas. Diante de choques climáticos recorrentes, depender exclusivamente dos juros pode impor custos elevados e comprometer a estabilidade no longo prazo.

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