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Investimento recorde em mobilidade põe indústria à prova

O Brasil está diante de uma oportunidade histórica. O Estudo Nacional de Mobilidade Urbana (BNDES e Ministério das Cidades) estima mais de R$ 400 bilhões em investimentos até 2050 para ampliar e modernizar o transporte nas principais regiões metropolitanas. Até 2030, serão necessários mais de 2 mil carros de metrô, um mercado de cerca de R$ 24 bilhões.

Esse ciclo pode transformar a mobilidade urbana e impulsionar a economia, estimulando a inovação, a indústria e a geração de empregos qualificados. Porém, da forma como as licitações vêm sendo conduzidas, os investimentos podem ampliar a participação de equipamentos importados, especialmente da China, sem que a maior parte do valor agregado permaneça no País.

Uma licitação define onde estarão os empregos, a tecnologia e os investimentos Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Não se trata de defender reserva de mercado, mas condições justas de concorrência. Fabricantes chineses contam com financiamento estatal, incentivos às exportações, escala e uma cadeia integrada. Já as empresas instaladas no Brasil mantêm fábricas, centros de engenharia, fornecedores e milhares de empregos, além de enfrentarem custos tributários e operacionais maiores.

Um trem mobiliza fornecedores de aço, alumínio, componentes mecânicos, sistemas elétricos e eletrônicos, software, cabos, usinagem e engenharia. No Brasil, essa cadeia reúne mais de 240 empresas. Em 80 anos, a indústria já movimentou cerca de R$ 7 bilhões, empregou cerca de 100 mil pessoas e recebeu mais de R$ 6 bilhões em investimentos.

Essa estrutura está em risco. Nos últimos três anos, 100% das encomendas de trens de passageiros, cerca de 800 carros, foram atendidas por importações da China ou por operações nas quais os componentes são produzidos no exterior e apenas a montagem ocorre no Brasil. A maior parte do valor agregado em engenharia, tecnologia e fabricação permanece fora do País.

O Brasil dispõe de instrumentos para reduzir essas assimetrias, como conteúdo local, margens de preferência nas compras públicas e critérios de financiamento que valorizem a produção nacional. Estados Unidos, União Europeia, Índia e China articulam investimentos e política industrial para fortalecer suas cadeias produtivas.

Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), cada R$ 1 produzido pela indústria gera R$ 2,44 para a economia. Uma licitação define, portanto, onde estarão os empregos, a tecnologia e os investimentos.

O debate não é sobre a origem das empresas, mas sobre o destino dos recursos. O País precisa garantir que esse ciclo de investimentos em mobilidade fortaleça sua capacidade produtiva, preserve empregos, estimule a inovação e amplie a competitividade da indústria ferroviária nacional.

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