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Loja de conveniência digital: como o Zé Delivery deixou de ser só um app de cerveja para a Ambev

Cerveja sem álcool e zero caloria: tudo que você precisa saber

A convite de Paladar, mestre-cervejeiro prova 3 marcas zero do mercado; veja a avaliação. Crédito: Edição: Joaquim Macruz, Coord de pós: Anderson Russo, Captação: Lucas Ghitelar, Produção: Vitória Schimdtz

A Ambev expandiu o Zé Delivery, que completa 10 anos, como ferramenta de inteligência de mercado e conveniência, oferecendo produtos além de bebidas, como carvão e sorvetes. A plataforma, que já possui 6 mil itens, visa aumentar a proporção de produtos complementares de 20% para 40%. O Zé Delivery, presente em 800 cidades, é crucial para a Ambev, fornecendo dados valiosos e ampliando margens. A empresa descarta, por ora, competir com iFood e 99 no setor de comidas.

A Ambev descobriu no aplicativo Zé Delivery uma forma de ir muito além do que apenas a entrega direta ao consumidor. A plataforma chega aos 10 anos consolidada como uma poderosa ferramenta de inteligência de mercado do grupo e, de quebra, uma espécie de delivery de conveniência, voltado para turbinar o negócio principal da fabricante brasileira: a venda de bebidas.

A lógica é simples: entregar tudo o que o consumidor precisa nas ocasiões que envolvem o consumo de cerveja — por vezes, ser também o indutor de novos momentos. Para o caso de um churrasco, por exemplo, oferecer do carvão ao detergente, incluindo aí até bebidas de concorrentes, além de itens como baralho, figurinhas e sorvete de marcas como Bacio di Latte.

Ao adicionar produtos de terceiros no aplicativo, a empresa cobra uma taxa num modelo semelhante ao dos deliverys tradicionais. Aí entra em campo a logística própria já consolidada da gigante, num ciclo que reduz o custo e aumenta a margem da cerveja entregue na plataforma.

A fórmula se tornou tão potente que o mercado passou a especular sobre um cenário em que essa operação poderia ganhar pernas próprias, como companhia independente. Também forçou os executivos do grupo a refletir se não faria sentido entrar no negócio de comidas e concorrer diretamente com empresas como iFood e 99.

Mas o caminho é outro, por ora. A Ambev tem planos para novas parcerias comerciais no Zé Delivery. A ideia é aumentar a base disponível de produtos que são consumidos nas mesmas ocasiões em que se toma cerveja, chegando a uma proporção de até 40% de produtos complementares à bebida sendo vendidos no aplicativo. Hoje, essa proporção está em cerca de 20%.

O Zé, como a empresa gosta de chamar o negócio, tornou-se também uma rica fonte de dados sobre consumidores finais da Ambev, mais uma razão para que a empresa veja nele muito mais valor dentro da Ambev do que fora dela.

O vice-presidente do Zé Delivery, Fernando Mazzarolo, diz que novas parcerias comerciais de longo prazo estão no radar. “Não vejo a necessidade de um sócio, mas eu acho que parcerias estratégicas grandes fazem todo sentido. Nossa operação pode ajudar outros players, e eles podem nos ajudar com audiência. Então isso é super factível”, disse.

A ideia agora é expandir no aplicativo o número de itens de categorias como “Churrasco”, por exemplo. Nos grandes centros, já é possível comprar a carne para esse tipo de evento na plataforma, mas há, segundo o executivo, uma parceria engatilhada para ampliar esse fornecimento. “A ideia é que o churrasco seja comprado 100% do Zé. Sem a necessidade de planejamento”, diz. Mazzarolo explica que o nicho no qual o Zé Delivery está é o da conveniência, com compras pontuais e entrega rápida, em até 15 minutos.

Alguns aplicativos vão além do delivery de comida, trabalhando com outros tipos de produtos, com medicamentos e bebidas. (Fonte: Zé Delivery/Reprodução) 

É justamente das lojas de conveniência que vem a referência da proporção de produtos complementares: “60% do que se vende em uma loja de conveniência é cerveja, 40% não é cerveja. Se olharmos para esse mercado, vemos que, sem atrapalhar a (venda de) cerveja, tem muita coisa para crescer”, afirma Mazzarolo.

Ou seja, da mesma forma como um delivery como o iFood reproduz no mundo digital — e em casa — o consumo dos restaurantes, o Zé faria as vezes de ser a loja virtual de conveniência. Quanto mais categorias eu tenho, mais o consumidor me considera nas ocasiões de consumo. Estamos desenvolvendo a missão de consumo nesse formato da conveniência”, diz Mazzarolo.

O Zé Delivery já conta hoje com cerca de 6 mil itens disponíveis, muitos deles com parcerias regionais. Como comparação, um supermercado tem até cerca de 10 mil itens, diz o executivo.

A percepção é que ainda há bastante espaço para crescer nesse nicho. Isso explica também por que a ideia de avançar para entregas de comidas não faz sentido agora. Somado a isso, há também o fato de que o delivery de restaurantes vive uma guerra entre os concorrentes tradicionais, com um volume intenso de investimentos.

Embora tenha a vantagem de não demandar tanto capital, por usar a logística própria, a Ambev vê essa guerra como irracional e prefere não participar da disputa no momento, mas não descarta rever isso no futuro.

Motor de inteligência da companhia

O Zé Delivery nasceu em 2016, no interior de São Paulo, dentro do braço de inovação do grupo, e foi beneficiado pelo boom do delivery com o home office na pandemia. Hoje, está presente em 800 cidades, com 27 milhões de consumidores cadastrados. Em 2025, somou 67 milhões de pedidos realizados e R$ 4,7 bilhões em Volume Bruto de Mercadoria (GMV, na sigla em inglês, que soma o valor de tudo o que é vendido pela plataforma e não apenas a taxa retida no balanço da empresa).

Num modelo semelhante, a Ambev também conta com outra poderosa arma para os pontos de venda. O aplicativo BEES cumpre o mesmo papel do Zé Delivery só que na venda para empresas (B2B, no jargão corporativo). No caso da Ambev, venda direta para bares, restaurantes e afins. A plataforma também vem recebendo produtos de terceiros.

Ambas as operações se tornaram um motor de inteligência da companhia: permitem uma reação mais rápida e precisa sobre tendências de consumo, além de uma frente de otimização de custos e braços importantes para a execução das estratégias comerciais. Um mesmo produto pode passar pelas duas plataformas até chegar ao cliente: venda direta da Ambev a um bar (BEES) e, de lá, para um consumidor final (Zé Delivery).

Na Copa do Mundo, por exemplo, o Zé Delivery foi usado para levar a Michelob Ultra a 250 mil consumidores. Também já serviu como plataforma de testes do Guaraná Zero com fibras. “Todas as inovações passam pelo Zé. Para a Ambev, é um acelerador do futuro”, diz Mazzarolo.

Bônus para investidores da Ambev

Os dois aplicativos costumam ser citados como destaque nas divulgações de resultados da Ambev. No último trimestre, a companhia afirmou que as vendas no Zé dobraram em dias de jogos do Brasil na Copa, um sinal de como a plataforma atende à venda de ocasião. Também informou que as fatias de premium e de opções mais saudáveis são maiores no aplicativo. No segundo trimestre, a Ambev registrou receitas de R$ 20,14 bilhões e lucro de R$ 3,5 bilhões. A empresa é hoje uma das mais valiosas da Bolsa, com cerca de R$ 240 bilhões em valor de mercado.

Em relatório sobre o segundo trimestre da Ambev, o analista da XP Leonardo Alencar destacou o perfil do público alcançado pelo aplicativo, que contribui para margens maiores. “Como destaque adicional, BEES e Zé Delivery continuaram ganhando tração (no trimestre). A primeira manteve forte crescimento no marketplace de terceiros (3P), enquanto o Zé Delivery seguiu operando com um portfólio mais premium do que os demais canais.”

É difícil quantificar exatamente quanto as duas iniciativas contribuem para o resultado, porque parte da ajuda se dá de forma distribuída, não só pelo que vendem, como por ajudar a companhia a “acertar mais a mão” na escolha de qual produto vender, quando e como.

Num relatório de 2023, analistas da XP avaliaram as duas operações como um “bônus” que investidores da Ambev recebem de graça ao aplicar na ação da fabricante nacional.

Leonardo Alencar, um dos analistas que escreveu o relatório à época, diz hoje que o Zé Delivery virou uma ferramenta essencial de dados. “Tem o diferencial de controlar a ‘última milha’, conseguir capturar informações do consumidor, testar algumas coisas.” Ele cita ainda o potencial da companhia de ampliar a entrega de produtos terceiros na plataforma voltada a empresas (BEES).

Otimização

Mazzarolo explica que a base de clientes do aplicativo tem mais consumidores das classes A, B e C do que na média da população brasileira, o que ajuda a empresa a entregar crescimento nessa frente, mesmo em um período de consumo em supermercados afetado por questões como endividamento. Além de vender mais de seu portfólio premium, outro fator que disponibiliza margens melhores nesse negócio do que em outros serviços de entrega de compras é o uso da capilaridade da rede.

Como as entregas partem de bares e restaurantes dos quais a Ambev é fornecedora, a companhia consegue fazer entregas da base mais próxima do consumidor, sem o custo de abrir as chamadas “dark stores” (ou “lojas fantasmas”, que não são abertas para compras presenciais e funcionam, basicamente, como pequenos estoques avançados nos bairros).

Depois de se consolidar no Brasil, o formato do Zé também passou a ser exportado para outras regiões da AB Inbev, controladora da Ambev, e hoje está presente em mercados como México, Peru, Colômbia e Reino Unido, com o nome Ta Da.

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