Desculpe, não possível recuperar os dados no momento.
Search
Close this search box.

Não interessa a Trump escalar disputa de Flávio com Lula, diz diretor da Eurasia

Christopher Garman, diretor da Eurasia, afirma que a ida de Flávio Bolsonaro aos EUA não deve gerar retaliações do governo Trump ao Brasil, embora possa estressar relações bilaterais. Garman destaca que negociações tarifárias são difíceis, pois o Brasil não aceita exigências americanas. Ele prevê que, após as eleições, Trump e Lula iniciarão negociações, mas sem rápida redução de tarifas. Garman também comenta que mudanças no Congresso dos EUA podem limitar novas tarifas e que o governo Lula busca ajustes fiscais para facilitar a redução de juros.

Foto: TABA BENEDICTO / ESTADAO

Christopher GarmanDiretor executivo para as Américas da Eurasia

Diretor-executivo para as Américas da Eurasia, Christopher Garman não vê novas retaliações do governo norte-americano ao Brasil, mesmo após a ida de Flávio Bolsonaro (PL), candidato derrotado na eleição presidencial, aos Estados Unidos — o senador chegou a se autodeclarar presidente do Brasil.

“Não vislumbro retaliação. É claro que pode estressar a relação bilateral, mas acho que o equilíbrio fica como está”, afirma Garman.

Na avaliação do diretor da Eurasia, maior consultoria de risco político do mundo, no entanto, é difícil que o Brasil consiga avançar nas negociações tarifárias, uma vez que o governo brasileiro não sinaliza disposição para atender às exigências do governo de Donald Trump.

“É difícil retirar as tarifas sem o Brasil dar nada em retorno”, diz Garman. “Os brasileiros não estão dispostos a aceitar as exigências que os americanos estão colocando para a retirada das tarifas.”

A seguir, trechos da entrevista concedida ao Estadão.

Pode haver algum novo impacto dessa ida de Flávio Bolsonaro aos EUA na relação do governo Trump com o Brasil?

A nossa leitura das declarações de Trump nessas últimas 48 horas, na medida em que ele disse, na mesma frase, que não tomou partido (da eleição do Brasil) e que tem uma relação com o presidente Lula, a nossa leitura dessas falas é: “Vou registrar a minha queixa de reconhecimento das queixas do Bolsonaro, mas a vida segue”. Essa foi a nossa leitura. E parece que ele está falando exatamente isso hoje. Então, não vislumbro retaliação. É claro que pode estressar a relação bilateral, mas acho que o equilíbrio fica como está.

Qual é o espaço que o governo brasileiro tem para continuar negociando tarifas e eventuais sanções que ainda persistem? Como você vê esses dois últimos anos de Trump em relação ao Brasil?

O equilíbrio hoje, em Washington, no governo Trump, é que temos uma base de diplomatas no Departamento de Estado com uma postura muito arraigada contra o Brasil, com essa visão mais ideológica da região. Eles defenderam as sanções e as tarifas. O presidente Trump ficou frustrado com essa política depois que não teve êxito em tirar Jair Bolsonaro das suas dificuldades jurídicas. Ele ficou frustrado. E abriu-se uma janela para essa relação bilateral dos dois (Trump e Lula), que aconteceu na reunião da ONU, um pouco mais de um ano atrás, e eles desenvolveram uma relação pessoal, e o presidente Trump valoriza as relações pessoais. O presidente Trump está mais aberto a negociar com o Brasil. O problema é que, quando você coloca as tarifas punitivas, Trump tem um perfil transacional.

Christopher Garman vê cenário difícil para a retirada das tarifas impostas pelos EUA ao Brasil  Foto: TABA BENEDICTO / ESTADAO

O que isso significa?

É difícil retirar as tarifas sem o Brasil dar nada em retorno. Mesmo com a postura mais aberta dos dois presidentes, o preço de retirada de tarifa não é fácil. Os brasileiros não estão dispostos a aceitar as exigências que os americanos estão colocando para a retirada das tarifas. Então, acho que, após a eleição, os dois presidentes vão sentar, devem se encontrar e vão iniciar um processo de negociação. Mas não deve haver uma redução rápida dessas tarifas. Existe o risco de novas medidas punitivas, como uma nova aplicação da Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes? Existe, mas acho que a escalada tende a ser modesta. No fundo, o que Trump está querendo é seguir a vida como está, sem pegar a disputa pelo lado do Flávio para poder acelerar mais.

As projeções para as eleições de meio de mandato nos EUA apontam para possíveis vitórias dos democratas na Câmara e no Senado. O resultado da eleição pode alterar alguma coisa na relação com o Brasil?

Eu não acho que uma derrota dos republicanos no Senado e na Câmara, que é o nosso cenário-base, altere muito a relação bilateral com o Brasil. Mas eu diria que, se os republicanos perderem o Senado e a Câmara dos Deputados, isso coloca algumas restrições sobre o potencial de os Estados Unidos implementarem novas tarifas que seriam questionadas pelo Congresso. Então, isso coloca um pouco de restrição para novas rodadas de tarifárias acima do que já foi feito. E é um presidente que vai estar recuado, sendo investigado e infernizado pelos democratas, com dificuldade de aprovar qualquer coisa no Congresso.

Apesar da surpresa, o mercado dá a eleição como página virada e há expectativa em relação à escolha da equipe econômica. Qual é o seu cenário para a questão fiscal? O governo Lula fará algum tipo de ajuste?

Eu acho que existe um diagnóstico dentro do governo de que é necessário fazer alguma correção de rumo das regras fiscais para criar condições que facilitem ao Banco Central reduzir os juros. O governo enxerga uma crise de alta de juros e reconhece uma correção necessária. O debate é o escopo dessa correção. O parâmetro dessa correção é tentar reduzir o ritmo do aumento do gasto obrigatório e fazer com que o aumento dos gastos caiba dentro do Orçamento, dentro do limite de gastos de 2,5%. Acho que é isso que está sendo debatido.

Um esforço nesse sentido é mais crível se for via emenda constitucional. É menos crível se não for. Em um contexto em que o governo não tem muita credibilidade fiscal, parece-me importante que seja por meio de uma emenda constitucional, para sinalizar controle dos gastos futuros ao longo do tempo. O que eu acho que não está em jogo é um arrocho fiscal no ano que vem. É só tentar controlar o gasto futuro.

Clique aqui para acessar a Fonte da Notícia

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *