Esta campanha eleitoral se limitou a denunciar escândalos, fazer acusações e fofocas. Passou longe das discussões sobre os maiores problemas do Brasil, sobre propostas de soluções e sobre as opções para o futuro dos nossos filhos e netos.
E, no entanto, raras vezes a história do ser humano passou por tantas e tão rápidas transformações que exigem atitude.
É a revolução no mercado de trabalho, o rápido envelhecimento da população, a enorme disseminação do uso da internet e dos aplicativos, a inserção da mulher no mercado de trabalho, a cada vez maior relevância do mercado financeiro no PIB global, a rapidez do aquecimento do planeta, a necessidade de substituir a energia de fonte fóssil pela de fonte limpa, a reviravolta na geopolítica e na ordem mundial, a invenção e o desenvolvimento da inteligência artificial, que ninguém sabe onde vai parar.

Ninguém ficou sabendo, por exemplo, qual é a proposta dos principais candidatos, Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), para enfrentar o rombo fiscal Foto: Wilton Junior/Estadão e Taba Benedicto/Estadão
Tudo isso já tem e terá grande impacto sobre a vida da sociedade e da economia do Brasil. E, no entanto, a campanha eleitoral ficou girando em falso sobre as indecências de Brasília, sobre quem tinha e quanto tinha o rabo preso com o megaescroque Daniel Vorcaro. Até mesmo a Padroeira do Brasil foi envolvida nas tensões.
Mas os temas que importam foram ignorados, ou porque sua discussão envolve a distribuição de enormes contas a pagar e ninguém quer falar disso nos palanques, ou porque os candidatos não têm programação a apresentar.
Ninguém ficou sabendo, por exemplo, qual é a proposta dos principais candidatos para enfrentar o grande rombo fiscal, que já empurrou a dívida pública para acima dos R$ 11 trilhões e é o principal fator responsável pelos juros de 13,75% ao ano e pelo voo de galinha do PIB do Brasil.
A Previdência Social está atuarialmente quebrada. É inevitável uma reforma que estique a idade mínima para a aposentadoria, que aumente as contribuições e que reduza o valor das aposentadorias.
Ninguém mais se sente seguro. Multiplicam-se os casos de feminicídio e de agressões às mulheres. Os celulares roubados não são rastreados, todos os dias as pessoas são bombardeadas por tentativas de golpes financeiros via aplicativos, sem que as instituições de segurança sejam ao menos capazes de seguir a rota do dinheiro.
O crime organizado vai tomando as repartições de governo, usurpando o monopólio da força do Estado, comandando o tráfico de drogas e de armas e corrompendo o Judiciário. E, no entanto, nenhum candidato aponta um plano convincente de como pretende restabelecer a ordem e o progresso deste País.
Falta saber como será a política de saúde pública, de educação e de preparo de mão de obra. A indústria do País continua em desidratação, perde competitividade no exterior e, no entanto, a política industrial não deslancha, porque as soluções são ignoradas.
O eleitor brasileiro vai às urnas sem saber em que futuro estará votando.