A escolha das músicas para um jantar entre amigos, para uma viagem em família ou para criar um clima romântico não é uma tarefa que depende exclusivamente das preferências dos envolvidos. O algoritmo das plataformas de streaming faz uma seleção para combinar o som ambiente com o momento ou a ocasião.
Se no passado ter uma coleção de CDs podia garantir a trilha perfeita, agora tudo está mais simples e inevitavelmente mais automático. Escolha uma playlist, aperte o play e deixe o robô trabalhar.
O que para muitos é visto como uma praticidade, para outros transforma as pessoas em reféns do algoritmo na hora de buscar experiências musicais novas. Nesse sentido, surge um movimento daqueles que querem que um especialista faça a seleção musical.
O nome disso é Omakase Listening e faz uma referência ao universo gastronômico do Japão, no qual o cliente confia no chef do restaurante e não participa da escolha dos pratos que serão servidos.
“A curadoria por algoritmo reforça padrões já existentes e pode favorecer certas obras. Já a curadoria humana tende a trazer mais diversidade, podendo valorizar gêneros regionais, música instrumental, erudita, independente ou outros segmentos que dificilmente apareceriam numa curadoria algorítmica”, afirma Isabel Amorim, superintendente do Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição).
O comportamento que pode parecer novo para os mais jovens era mais comum no passado. As rádios e os programas de TV ocuparam esse espaço por décadas e tinham o papel de indicar o que era bom para ser ouvido. Ou seja, alguém tinha que escutar uma música, avaliar e dizer para todos se merecia ou não tocar sem parar.
Para Marcelo Braga, diretor-geral da Forbes Radio, a curadoria das músicas da programação começa pelo entendimento de quem são os ouvintes. “Nosso público já passou da fase de consumir música apenas pelo que está em alta. Ele busca qualidade, repertório e uma experiência agradável, não necessariamente os big hits do momento”, explica.
O algoritmo tem como característica garantir que a pessoa irá escutar as músicas que já está acostumada. Assim, uma playlist terá mais ou menos o mesmo estilo musical e os principais nomes do gênero. O problema é quando a intenção é conhecer algo diferente, pois é necessário driblar o sistema para explorar as possibilidades.
“O luxo significa ter acesso a coisas que poucas pessoas podem ter. Hoje, quando falamos de entretenimento, acontece quase o contrário. Todos têm acesso a praticamente toda a música já gravada, na palma da mão, de forma rápida e fácil. O desafio deixou de ser encontrar uma música. Passou a ser encontrar significado em meio ao excesso de opções disponíveis”, diz Braga.
Neste cenário, o diferencial é ter alguém para escolher para você e não ter um sistema criado por uma empresa de tecnologia fazendo isso. É a ideia de confiar no paladar e nas habilidades de um chef em vez de escolher um prato pela descrição ou pela foto no cardápio.
“Um modelo híbrido é bastante interessante. Os algoritmos fazem a coleta e a análise massiva de dados, e a curadoria humana poderia supervisionar, corrigir distorções e garantir diversidade”, afirma Isabel.
Movimento fora do Brasil
A empresa de tecnologia Atonemo e a rádio online britânica NTS se uniram para oferecer uma experiência Omakase Listening.
Os ouvintes precisam adquirir um pequeno dispositivo e conectar uma caixa de som. O aparelho tem apenas dois botões e um seletor de temas, são 16 opções representadas por desenhos semelhantes a emojis.
Não é possível pular para a próxima música e nem saber o que vem na sequência. A rádio transmite as músicas que foram selecionadas previamente por especialistas.
Se preferir, o ouvinte pode apertar os botões do aparelho para escutar a programação da rádio ao vivo.
“Quando alguém com repertório, experiência e uma intenção clara faz escolhas por você, economiza seu tempo e organiza esse universo de uma forma inteligente. O valor não está na quantidade de opções, mas na qualidade da seleção que é entregue”, diz Braga.
Música feita por IA
A curadoria humana também é uma garantia maior de que as músicas tocadas não são meras composições feitas por inteligência artificial, algo novo e que gera debate na indústria fonográfica.
Para a superintendente do Ecad, a decisão de excluir ou não as músicas feitas por IA de uma playlist cabe a cada empresa, mas destaca que esse tipo de música não deveria ter espaço. Do ponto de vista de quem defende o direito autoral, ela afirma que essas músicas não deveriam estar nem em curadorias feitas por humanos e nem por algoritmos.
“Uma playlist feita por humanos não garante, por si só, que todas as músicas ali foram compostas por pessoas. Identificar uma música feita por IA exige tempo e investimento em tecnologia”, conclui Isabel.