Kevin Warsh, presidente do Fed, destacou em discurso em Jackson Hole a importância da moeda na política monetária. Warsh criticou a negligência dos bancos centrais com a moeda, apontando que a inflação nos EUA, acima da meta de 2% nos últimos anos, está ligada à expansão monetária. Após 2009, o Fed aumentou a base monetária sem inflação imediata, mas a pandemia trouxe inflação. Warsh resgata a Teoria Quantitativa da Moeda, defendida por Milton Friedman, sugerindo que a moeda é crucial para controlar a inflação.
Kevin Warsh, o novo presidente do Federal Reserve System (Fed), fez um importante discurso em Jackson Hole sobre sua visão de política monetária. Uma mensagem chamou a atenção: Money matters (O dinheiro importa). Warsh foi além: “É verdade que inovações financeiras e outros fatores alteram os mecanismos que ligam a base monetária, a velocidade da moeda e a economia em geral. No entanto, isso dificilmente justifica ignorar os efeitos últimos da moeda sobre as condições financeiras e os preços.”
É um aviso de mudança. Durante décadas, bancos centrais e modelos macroeconômicos relegaram a moeda a um papel secundário. Esse erro teve consequências. Nos últimos três anos, a inflação dos Estados Unidos permaneceu acima da meta de 2%. E isso tem relação com a quantidade de moeda.

Warsh levanta uma hipótese incômoda: paramos de prestar atenção aos dados e passamos a nos preocupar demais com discursos sofisticados Foto: Mark Schiefelbein/AP
Após 2009, em resposta à crise do subprime, o Fed quintuplicou a base monetária. A inflação não veio. Com a pandemia, o Fed dobrou novamente a base monetária. Dessa vez, a inflação chegou. Warsh levanta uma hipótese incômoda: paramos de prestar atenção aos dados e passamos a nos preocupar demais com discursos sofisticados.
Entre agosto de 2023 e junho de 2026, o estoque de moeda dos Estados Unidos, medido pelo M2, cresceu, em média, 3,6% ao ano. No mesmo período, sua velocidade de circulação aumentou 2,2%. Uma conta aproximada aponta para uma expansão da renda nominal próxima de 5,9% ao ano. Como o PIB real americano cresceu entre 2,5% e 3% durante boa parte do período, a inflação observada não parece distante daquela sugerida pela evolução do M2 e de sua velocidade.
Essa conclusão deriva de uma relação conhecida há séculos e sintetizada pela Teoria Quantitativa da Moeda, que teve em Milton Friedman seu mais importante defensor. Warsh parece resgatar parte dessa tradição monetarista.
A ideia de que a moeda não importa tem raízes principalmente na tradição keynesiana, que, nas últimas décadas, retirou progressivamente os agregados monetários do centro dos modelos e da condução da política monetária. A experiência recente sugere que isso pode ter sido um erro.
Não há solução rápida. Se o crescimento da moeda permanecer incompatível com a meta de inflação, o Fed terá de manter uma política monetária restritiva em um período de grande estresse no mercado mundial de dívida. Em diferentes momentos da história, expansões monetárias associadas ao financiamento de grandes déficits públicos tiveram importantes consequências sobre os preços. Friedman e Warsh estão certos. A moeda importa.