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‘Os Safra’: livro narra saga de riqueza, poder e tradição marcada também por mistério e conflito

Robson Viturino lança ‘Os Safra’, livro que narra a saga da família Safra, fundadora de nove bancos e instituições financeiras. A obra, fruto de nove anos de pesquisa e mais de 150 entrevistas, aborda desde as origens em Alepo até escândalos financeiros e disputas familiares. O livro começa com a morte de Edmond Safra em 1999 e culmina no acordo familiar em Genebra, 2024, explorando temas de poder, tradição e sigilo. Lançamento ocorre em 22 de setembro na Livraria Travessa.

“O mar esculpe, teimoso, em cada onda, o monumento em que se desmorona.” A epígrafe de Octavio Paz, escolhida por Robson Viturino para abrir Os Safra, sintetiza tanto a história que será contada nas mais de 450 páginas seguintes quanto o trabalho obstinado do autor. Para relatar a saga da família que fundou nove bancos e instituições financeiras relevantes em diferentes países, além de gestoras de investimentos com a geração de riqueza, foram nada menos do que nove anos de trabalho, mais de 150 entrevistas, pesquisas em três continentes e muita escrita e reescrita.

Jornalista que se transformou em psicanalista ao sair das redações, Viturino escreveu sua primeira reportagem sobre a dinastia em 2013. Ele trabalhava na revista Época Negócios e, por três meses, conversou com banqueiros, empresários e executivos do Safra, um dos dez maiores bancos brasileiros, cuja família fundadora é conhecida pela discrição e aversão à imprensa. Diz ter, então, apenas tocado uma fina película, reveladora, mas superficial.

“Fiquei com aquela história me rondando, porque eu achava tudo muito romanesco: era muito impressionante o poder dos Safra, a história de Mônaco (onde Edmond Safra morreu em um incêndio cercado de mistério), a relação deles com a política e a capacidade de sair de lugar para o outro do mundo, reinventando-se e descobrindo oportunidades de negócio”, diz Viturino, hoje com 47 anos de idade. “Levei o projeto para a Companhia das Letras, eles embarcaram comigo. Comecei, de fato, em 2017.”

Sede do Safra: prédio icônico na Av. Paulista Foto: Alex Silva/Estadão

Os Safra, com lançamento na terça-feira, 22, na Livraria Travessa, do Shopping Iguatemi, a partir das 19h, ocupa um lugar pouco comum entre as epopeias de negócios que costumam ser narradas no País. Além da profundidade da pesquisa e da independência jornalística, Viturino evita contar a história cronologicamente e cria uma certa tensão no ritmo da história.

Alguns integrantes da família deram entrevista, mas não tiveram envolvimento com a produção do livro. Trata-se de uma obra independente. Apesar de sempre haver episódios de superação, criação de riqueza e sucesso no mundo dos negócios, não faltam escândalos e passagens obscuras na longa epopeia da família. O livro começa com a morte de Edmond em 1999, que gerou um frenesi de manchetes, num episódio que permaneceu cercado por controvérsias, falhas de investigação e dúvidas sobre as circunstâncias exatas.

Como recurso narrativo são intercalados fatos próximos e outros históricos e mais distantes. Lá estão as origens dos negócios da família em Alepo, na Síria, em 1880, com a criação da Safra Frères & Cie., a casa bancária fundada pelos primeiros antepassados da família. “Comecei a escrita pensando num caminho cronológico e fui longe nisso, mas, como jornalista, me incomodava que a parte ‘quente’ estava demorando muito a entrar”, diz Viturino. “Cometi uma pequena loucura, falei com os editores e ‘virei’ o livro.”

Nessas idas e vindas, houve um grande trabalho para entender a comunidade judaica originária de Alepo, bastante particular. Percorreu a diáspora e a dispersão de serfaditas e halabis, ao longo da História recente, com o colapso do império otomano, o êxodo do Oriente Médio, a dispersão global e a chegada ao Brasil, bem como a preservação da identidade ao longo do exílio – não em descrições teóricas, mas pelos episódios que a família viveu ao longo das décadas.

Para essa construção, além de pessoas próximas ao círculo da família, foram pesquisados livros e arquivos no mundo todo. Até mesmo arquivos da CIA foram revirados. Membros da própria família também deram seus depoimentos. Para convencer alguns deles, principalmente os mais velhos, Viturino apelou a cartas de papel. O mais surpreendente: elas deram resultado.

“Apesar de a família ser muito fechada, há um paradoxo que é a necessidade de reconhecimento pelo que eles fizeram”, afirma Viturino.

O êxodo de milhares de judeus em regiões de conflito

Além de construir um grupo financeiro importante, os Safra financiaram o êxodo de milhares de judeus em regiões de conflito, quando a situação histórica exigiu. Também têm uma vasta trajetória como beneméritos e doadores no Brasil e no exterior.

Ao mesmo tempo, diferentes escândalos acompanham a trajetória. Nos anos 90, o Republic National Bank, de Edmond Safra, despachava diariamente aviões carregados com centenas de milhões de dólares a bancos russos ligados ao crime organizado pós-União Soviética. O banco chegou a ser investigado pelo FBI, mas não chegou a ser processado.

Em outro episódio, na primeira década dos anos 2000, o Banco Safra e o Safra National Bank de New York/Gibraltar viram-se envolvidos no esquema de pirâmide de Bernard Madoff por meio do fundo Zeus Partners, que captou cerca de US$ 300 milhões de clientes brasileiros para a corretora fraudulenta. Para estancar a crise, uma equipe de advogados e executivos do Safra National Bank de New York foi enviada ao Brasil para negociar diretamente com os investidores afetados. O banco ofereceu a devolução de 30% do valor investido, pago ao longo de anos.

Viturino: nove anos de trabalho e 150 entrevistas Foto: Renato Parada

O Safra também foi investigado pela Polícia Federal na Operação Zelotes, há pouco mais de uma década, sob a suspeita de negociar R$ 15 milhões em propinas com conselheiros do Conselho de Administração de Recursos Fiscais (Carf) para cancelar uma dívida tributária de R$ 1,5 bilhão. Um executivo do banco respondeu pelas acusações, e o Safra pagou o valor devido com desconto.

Em outra frente narrada no livro, o banco suíço do grupo admitiu ao Departamento de Justiça dos EUA ter ajudado contribuintes norte-americanos a ocultar mais de US$ 2,2 bilhões em contas secretas e paraísos fiscais, pagando uma multa de US$ 85,8 milhões.

São retratadas também as disputas familiares mais recentes, em torno da herança de José Safra, que acabaram influenciando no tempo de elaboração da obra. “Em determinada altura, os editores sugeriram que focássemos em parte da história, mas eu fiquei obcecado para seguir até o fim, até a resolução do conflito entre os irmãos”, diz. “Foi angustiante porque ninguém saberia quando acabaria, mas também foi bom porque pude lapidar mais o livro.”

O desfecho com o acordo firmado pela família em Genebra, em 2024, também vai além do mero relato de jornalismo financeiro. Põe um ponto final numa saga sobre sobrevivência, poder, tradição, sigilo e os limites do afeto, numa das famílias mais enigmáticas do mundo.

Os Safra

Livro ‘Os Safra’ Foto: Companhia das Letras/Divulgaçã

  • Autor: Robson Viturino
  • Editora: Companhia das Letras (453 págs.; R$ 99,90; R$ 39,90 o e-book)
  • Lançamento: 22 de setembro de 2026
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