Dois temas foram o mantra em todas as entrevistas com comandantes de instituições financeiras, às vésperas das eleições 2026: ajuste fiscal e grandes chances de uma crise econômica no próximo ano. A trajetória de crescimento da dívida pública acelerou este ano, chegou quase aos 83% do PIB em agosto e pode superar 90% em 2028. Essa tendência indica que os juros devem permanecer altos para famílias e empresas já muito endividadas, com uma ameaça ainda maior pela frente: o risco de dominância fiscal, que é quando a política monetária do Banco Central (BC) para de fazer efeito, o que leva a um colapso da economia.
Com esse cenário difícil, os entrevistados veem que o próximo presidente, seja ele Lula (PT) ou Flávio Bolsonaro (PL), será obrigado a ter maior cuidado com as contas públicas. Isso, porém, deve levar a uma série de medidas impopulares, como reformas previdenciária, assistencial e administrativa ou cortes de gatilhos de vinculações constitucionais.
Com a eleição disputada voto a voto, o presidente que assumirá em janeiro deve enfrentar resistência da oposição e paralisia política quando tentar levar adiante as mudanças necessárias. Sem lua de mel com o Congresso e enfrentando pressão de setores afetados, os próximos anos tendem a ser bastante difíceis, afirmam. Leia as entrevistas:
‘Já votei no Bolsonaro e no Lula, e não quero que essa briga continue’, diz CEO da BR Partners
Ricardo Lacerda, CEO do banco de investimentos BR Partners, resolveu apoiar publicamente um candidato, pela primeira vez. Nesta eleição, ele está ao lado de Ronaldo Caiado (PSD) nas visitas a seus pares na Faria Lima e na discussão de ideias.
Motivo: discorda da política econômica do governo Lula e da postura de Flávio Bolsonaro, líderes nas pesquisas. Para ele, o eleitor de centro está cansado da disputa entre ambos e quer apenas melhorar sua vida, sem se preocupar com segurança, inflação ou outras ameaças.
Também afirma que o calcanhar de Aquiles de Lula são exatamente os juros altos que sua gestão ajudou a provocar e com os quais teve de governar por quatro anos. Sobre Flávio, a opinião é clara: “Discutir urna eletrônica, vacina, se Estados Unidos vão invadir o Brasil ou não, esse tipo de coisa, francamente, é uma palhaçada”, afirma. “É coisa de gente que não tem proposta e que não quer o bem do País.”
Seu candidato não despontou nas pesquisas eleitorais, mas, para ele, a discussão sobre política fiscal será inevitável, vença quem vencer. “É uma situação insustentável”, afirma. “Se a gente não tiver uma forma de reduzir os juros no Brasil, a gente vai caminhar para o abismo, vamos começar a ter discussões sobre calote na dívida pública, inflação e coisas que achamos que eram fantasmas de um passado muito longínquo.”
Leia a entrevista completa aqui e assista ao vídeo com trechos da conversa:
‘Precisamos sair dessa situação maldita que é a polarização entre direita e esquerda’
Com apoio a Caiado nas eleições, Ricardo Lacerda, da BR Partners, diz que brasileiro não aguenta mais divisão do País. Crédito: Estadão
‘Escândalo tira voto, mas não tira candidato; terceira via tem pouca chance’, diz CEO da SulAmérica
A situação fiscal está ficando tão ruim, mas tão ruim, que é quase uma boa notícia, diz Marcelo Mello, CEO da SulAmérica Vida, Previdência e Investimentos. Isso porque a mudança de rota no cuidado com as contas públicas será obrigatória, independentemente de quem vença as eleições.
“O Lula entrou no governo com uma relação de dívida/PIB (que mede o tamanho do endividamento público comparado com tudo o que o País produz) de 73% e vai entregar com 83%. Se nada for feito nos próximos quatro anos, vai beirar os 100%”, diz ele. “Para um país emergente, é um endividamento muito relevante.”
Antes de chegar a um cenário de dominância fiscal, porém, Mello vê uma mudança de rota. “Talvez o que mude seja a força e a intensidade desse ajuste”, dependendo de quem ganhe as eleições, diz ele. “O espaço fiscal que o governo, qualquer um, tinha no passado, acabou. A gente está chegando num momento muito sensível.”
A entrevista completa pode ser lida aqui e trechos da conversa assistidos no vídeo abaixo:
‘Eleição só vai ser decidida próxima do primeiro e do segundo turno”
Para Marcelo Mello, CEO da SulAmérica Vida, Previdência e Investimentos, poderá haver oportunidades de ganhos logo após vencedor ser conhecido. Crédito: Estadão
‘Lula não mostrou disciplina fiscal, mas sinal de Flávio aos cortes não é claro’, diz co-CEO da Seneca
“O grande imposto que, no passado, foi a inflação, hoje é a taxa de juros”. É dessa maneira que Daniel Wainstein, co-CEO da Seneca, conhecida por operações de fusões e aquisições e que acaba de comprar um banco, define a situação de maior impacto da economia brasileira.
Isso porque, se a inflação alta ficou no passado, os juros reais inibem a iniciativa privada e sufocam as empresas. “O faturamento das companhias cresce com a inflação sobre o preço dos bens, e o passivo, ou a dívida, cresce pelos juros”, diz ele. “A maioria das empresas está lidando com uma inflação de 4%, 5% e, por outro lado, pagando 20%, 25% no seu passivo. A cada ano que passa, a situação vai ficando pior.”
Wainstein diz ser difícil ver uma mudança mais profunda nas contas públicas, que permita a redução nos juros, numa nova gestão do PT. Porém, ele afirma que tampouco o discurso de Flávio é evidente em relação à disciplina fiscal. A entrevista completa pode ser lida aqui. O vídeo abaixo contém trechos da conversa:
‘O grande imposto hoje da população são os juros reais’
Para Daniel Wainstein, da Seneca, impacto na conta das famílias e empresas é como se fosse a inflação dos anos 90. Crédito: Estadão
‘Ninguém está pensando o Brasil que queremos no longo prazo’, diz CEO da Genial Investimentos
Rodolfo Riechert, CEO e sócio-fundador da Genial Investimentos, vê a eleição com pessimismo, principalmente pela falta de discussões profundas sobre como implementar medidas efetivas para as mudanças do País. Para ele, ninguém pensa ou direciona o Brasil para o crescimento de longo prazo, o que afasta recursos e talentos.
Riechert diz que a questão fiscal enfrentará desafios com os dois candidatos favoritos nas pesquisas. Segundo ele, há uma fadiga da população em relação ao discurso de Lula, que não terá vantagem em se tornar mais austero fiscalmente num novo mandato. “Ele vai empurrar de lado esse problema”, diz.
Numa eventual gestão de Flávio Bolsonaro, “a fragilidade que provavelmente a equipe dele vai ter, ele deve governar meio que batendo bola de lado e tentando resolver alguns problemas imediatos que a gente tem”. A entrevista completa pode ser lida aqui e trechos vistos abaixo:
‘Programas de governo não atacam problemas cruciais do Brasil’
Para Rodolfo Riechert, da Genial, falta gente gabaritada para pensar o Brasil e adotar políticas públicas de longo prazo. Crédito: Estadão
‘Estamos dançando na beira do vulcão da dominância fiscal’, diz CEO da AZ Quest
Walter Maciel, CEO da gestora AZ Quest, é menos pessimista em relação a uma eventual crise nos próximos anos, mas apenas caso Flávio Bolsonaro ganhe. Apesar de dizer que o candidato do PL não é o ideal, ele é um crítico ferrenho da política econômica do PT, sobretudo nas redes sociais. No Instagram, ele tem mais de 340 mil seguidores, para os quais fala sobretudo de política e economia.
“Cinco, das últimas seis eleições ganhas pelo presidente ou pela candidata que ele colocou, nos deixaram neste estado, e seria saudável para a nação a alternância de poder”, diz Maciel. “Há uma dívida pública galopante, a condição de juros asfixiando a economia está matando as famílias, empresas e a economia. E vai piorar. O governo merecia terminar por esse motivo.”
Para ele, o ajuste fiscal acontecerá “no amor ou na porrada” porque o País está dançando à beira do vulcão da dominância fiscal. Assim que o ajuste for feito, o ciclo de crescimento voltará e o governante terá oportunidade semelhante a do Plano Real, que resgatou o poder de consumo da população.
Leia a entrevista completa e assista a um trecho em vídeo abaixo:
‘Há um paralelo entre o ajuste das contas públicas e o Plano Real’, diz CEO da AZ Quest
Para Walter Maciel, juros menores trazidos por acerto fiscal aumentará poder de compra da população e popularidade do governante. Crédito: Estadão