“Hoje, uma marca não se sustenta sem comunidade.” A frase de Jade Picon resume a estratégia por trás da Aura Beauty, marca de beleza fundada pela influenciadora e atriz, que vem apostando na combinação entre presença digital, distribuição física e live commerce para acelerar seu crescimento.
Em abril deste ano, a empresa faturou R$ 400 mil em apenas um dia durante uma live de 11 horas no TikTok Shop, com participação da própria Jade. A expectativa da empresária é atingir R$ 100 milhões em faturamento apenas dois anos após o lançamento da marca.
O live commerce, formato de vendas por transmissões ao vivo, já representa 34% da receita dos últimos 12 meses, segundo a fundadora, que detalhou essa estratégia em um painel no WebSummit Rio na última semana. “Uso as lives para gerar valor para a marca, fortalecer a conexão com o meu público e, claro, gerar vendas”, afirmou.
Lançada em outubro de 2024, a Aura Beauty já está presente em mais de 6 mil pontos de venda físicos, incluindo Renner, Riachuelo, C&A e, mais recentemente, Sephora. Para Jade, o crescimento depende da combinação entre produto, audiência e distribuição. “Não adianta ter uma grande audiência sem um bom produto. E também não adianta ter um bom produto sem uma boa distribuição”, disse a influenciadora, que soma mais de 20 milhões de seguidores no Instagram.
Apesar da forte associação entre sua imagem e a marca, Jade afirma que seu objetivo é construir uma empresa que vá além da própria influência. “É por isso que meu nome não aparece nas embalagens. Quero construir um negócio tão grande ou maior do que eu.”
Para isso, tem apostado em uma estratégia omnichannel, ou multicanal, em que redes sociais, lives, e-commerce e varejo físico funcionam de forma integrada. “Tudo é somado. Vejo muitos pontos de sustentação do nosso negócio, que explodiu nas redes.”
Empresárias do live commerce
Criado na China em 2016, o live commerce vem ganhando espaço na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina. No Brasil, esse mercado gerou receita de US$ 2,3 bilhões (R$ 11,6 bilhões) em 2024 e deve ultrapassar US$ 31 bilhões (R$ 157 bilhões) até 2033, segundo projeções da consultoria Grand View Research.
Gabriela Comazzetto, ex-executiva do TikTok na América Latina e responsável pelo lançamento do TikTok Shop no Brasil, acompanhou de perto a consolidação do modelo no mercado chinês. “Passei cinco anos no TikTok observando a transformação desse ecossistema, principalmente na China. Lá, a plataforma se chama Douyin, e cerca de 65% das vendas acontecem por live commerce. É um mercado gigantesco”, afirmou.
De olho nesse potencial, deixou a carreira corporativa para fundar a Play2Shop, em dezembro do último ano. “O objetivo é ajudar o varejo nessa transformação, desde pequenos lojistas sem e-commerce, treinando a força de vendas, abrindo as lives e transformando isso em um canal de negócios expressivo.”
Já Monique Lima acompanha esse mercado desde o seu início do outro lado do mundo. Fundadora da Mimo Live Sales, plataforma pioneira na América Latina, iniciou a operação em 2020, em plena pandemia. “O timing foi muito acertado porque as portas do varejo se fecharam e a live se tornou uma boa ferramenta de venda”, relembra a empresária.
De lá para cá, a empresa já atendeu mais de 300 marcas em seis países, incluindo iFood, Magalu, Natura, Casas Bahia e a própria Aura Beauty.

O potencial das lives
Hoje, a Aura Beauty faz cerca de 600 lives por dia, a maior parte conduzida por uma rede de mais de 10 mil criadores de conteúdo afiliados. “O live shopping tem potencial para transformar a vida de milhões de pessoas”, afirmou Jade.
Para Gabriela, o avanço do formato acompanha uma mudança no comportamento do consumidor. “É sobre vender através do entretenimento. As pessoas querem comprar de alguém com quem se identificam, querem ver o produto sendo usado em tempo real.”
Segundo ela, as lojas físicas continuarão relevantes, mas as marcas já não podem ignorar o peso do digital. Além do TikTok, plataformas como Instagram, YouTube e Kwai também ampliaram suas apostas em transmissões comerciais ao vivo. “Não é mais sobre onde a marca quer vender. É sobre onde o consumidor está. E a marca precisa estar presente ali.”
Os 130 milhões de usuários brasileiros do TikTok passam, em média, uma hora e meia por dia na plataforma. “É muito tempo para descobrir produtos e comprar em dois, três cliques”, diz a empresária. Com o avanço da inteligência artificial, a tendência é que esse processo se torne ainda mais rápido e personalizado.
Monique resume essa transformação no conceito de “Commerce Everywhere”. “É basicamente conseguir trazer a experiência que imprime o que é a marca. As melhores lives, e as que vendem mais, são aquelas que entregam experiência e o storytelling da marca.”