
Foto: Nacho Doce/Estadão
O Desenrola 3.0, programa do governo federal que projeta renegociar até R$ 150 bilhões em dívidas das famílias, tem duas possibilidades: limpar as carteiras de inadimplentes para que recomecem sua vida financeira, ou abrir o caminho para novos Desenrolas, ao longo dos próximos anos. O que definirá qual a possibilidade se tornará realidade será a educação financeira, com apoio das instituições financeiras e do comércio.
Por que não havia endividamento tão generalizado das famílias no passado? Porque prevaleciam os carnês de crediário, cuja obtenção dependia da situação financeira do consumidor.
Com o crescimento das compras on-line, principalmente em marketplaces virtuais, a pessoa paga o produto adquirido – via pix ou cartões de crédito, principalmente – sem qualquer avaliação de sua situação financeira.
O uso indiscriminado dos cartões de crédito também influencia o endividamento, pois o dinheiro de plástico nos dá a impressão de uma renda inexistente.
O Banco Central estuda uma série de medidas para vincular a concessão de crédito a garantias. Em Singapura, um dos modelos avaliado pelo BC, o limite de crédito sem garantia tem como base o salário anual.
Oferecer cartões com limites bem superiores à renda é um convite ao endividamento. Ajustar essa concessão de crédito à capacidade real de pagamento pode reduzir o endividamento, principalmente se houver campanhas nacionais de educação financeira.
Imagine que o consumo seja comparável a dirigir um veículo automotivo. Será necessário dominar uma série de conhecimentos e habilidades, tanto para dirigir quanto para comprar produtos e serviços.
Sem esse aspecto educativo, nem a normatização do crédito, não haverá Desenrola que resolva o endividamento familiar. O consumo não é um processo somente econômico: tem forte viés psicológico. Todos nós, em algum momento, compramos para nos sentir bem.
É por isso que muitos se endividam para comprar um smartphone novo, com mais recursos do que o anterior, ainda que não haja necessidade urgente dessa troca. E não é só no Brasil que isso acontece. Vi outro dia uma reportagem em que uma consumidora em situação de vulnerabilidade obtinha produtos em um banco de alimentos. Ao sair do local, entrou em seu carro para levar os itens para casa.
Ou seja, não tinha dinheiro suficiente para comprar comida no supermercado, mas tinha um carro e certamente pagava muito caro pela gasolina.Temos de enfrentar esse desafio com urgência.