O debate sobre inteligência artificial ainda está tranquilo e racional
Esqueça o risco existencial; as discussões mais estranhas sobre IA ainda nem começaram. Crédito: Alexandre Chiavegatto Filho
As questões sobre inteligência artificial (IA) estão impactando os mercados financeiros, com investidores divididos entre otimistas e céticos. Um novo temor surge: a IA pode ser poderosa, mas perigosa, facilitando fraudes e ameaças. Pesquisadores temem que IA possa ajudar na criação de armas biológicas. Tyler Cowen sugere que alarmistas testem suas previsões no mercado. Empresas de segurança digital, como a CrowdStrike, se beneficiam do medo, enquanto o mercado de seguros contra riscos de IA ainda é incipiente.
Mais do que nunca, as grandes questões sobre inteligência artificial impulsionam os altos e baixos dos mercados financeiros. De um lado estão os otimistas, que acreditam que a IA será transformadora e lucrativa; do outro, os céticos, que consideram que os retornos prometidos jamais chegarão.
Mas um terceiro sentimento começa agora a ganhar espaço entre os investidores: e se os sistemas de IA forem extremamente capazes, como preveem os otimistas, mas também profundamente perigosos? Crescem os temores sobre uma IA “desalinhada”, capaz de invadir outros sistemas, facilitar fraudes ou enganar engenheiros humanos.
Pesquisadores dos principais laboratórios de IA temem que suas ferramentas possam ajudar Estados hostis ou grupos terroristas a desenvolver suas próprias armas biológicas. Alguns acreditam que os modelos poderiam levar à extinção da humanidade — o que certamente tiraria o brilho de qualquer futura abertura de capital. É difícil comemorar uma oferta pública inicial que resulte em um “fim público” definitivo.
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O economista Tyler Cowen gostaria que os alarmistas colocassem a mão na massa. Muitos atribuem altas probabilidades a uma catástrofe. Se estiverem certos, os sinais de que o fim se aproxima deveriam começar a afetar os mercados antes que o cataclismo de fato aconteça.
Os tecnófobos poderiam, portanto, testar suas teorias fazendo operações financeiras. Se fossem bem-sucedidos, isso daria credibilidade às suas previsões muito antes do desastre que, em última instância, as confirmaria. Esse apelo à responsabilidade intelectual é compreensível. Alex Tabarrok, um dos colegas de Cowen, certa vez chamou esse tipo de aposta de “um imposto sobre a conversa fiada”. Mas, quando se trata dos perigos de uma IA avançada, pode ser difícil fazer essas apostas.
Alguns dos efeitos negativos mais moderados de uma IA poderosa já estão sendo precificados pelos mercados. As preocupações com ataques cibernéticos viabilizados pela IA ajudaram a elevar o valor das ações de empresas de segurança digital, como a CrowdStrike. Seu preço mais que dobrou nos últimos seis meses e está em quase 200 vezes o lucro projetado para os próximos 12 meses. Para algumas empresas, o medo, e não apenas a ganância, é positivo.

É difícil precificar as ameaças representadas por uma superinteligência desalinhada Foto: Reprodução/ChatGPT
Outras estratégias, ainda não testadas, poderiam funcionar para investidores mais dispostos a correr riscos. Se as empresas de segurança cibernética estão sendo negociadas com prêmio, então as companhias mais vulneráveis a ataques e fraudes deveriam, em tese, ser negociadas com desconto. No setor privado, os segmentos de saúde, finanças, telecomunicações e transportes são alvos frequentes. Pequenas e médias empresas são mais vulneráveis do que suas concorrentes maiores. Uma forma de apostar nessa lógica seria, por exemplo, comprar contratos de swap de crédito (CDS) contra a dívida de bancos regionais.
Para riscos mais convencionais, como enchentes, incêndios florestais ou até terrorismo, a resposta óbvia seria comprar produtos de seguro. Mas o mercado de seguros contra riscos relacionados à IA tem se desenvolvido lentamente. Até mesmo os riscos físicos enfrentados pelos data centers são difíceis de segurar. No início deste ano, o Insurance Services Office, uma organização que estabelece padrões para o setor, divulgou um novo modelo de apólice que excluía danos causados por IA generativa de uma ampla gama de coberturas.
Várias grandes empresas pediram aos órgãos reguladores autorização para excluir ameaças desse tipo, ainda novas. Essa cautela criou uma lacuna no mercado que algumas startups tentam preencher. Por enquanto, porém, essas empresas são minúsculas diante da dimensão do problema.
O problema enfrentado pelas seguradoras tem raízes mais profundas. Elas têm dificuldade para cobrir os riscos da IA porque “risco” é um conceito organizado e preciso demais para aquilo que está em jogo. Na economia, risco se refere a probabilidades que podem ser quantificadas. As ameaças imprevisíveis e pouco definidas associadas à IA são mais difíceis de mensurar. Elas são novas e pouco compreendidas. A base de evidências é pequena. Assim, nem quem compra nem quem vende seguros sabe como precificá-las.
Ao longo da história do pessimismo humano, houve muitos profetas do apocalipse que fizeram previsões de maneira pouco rigorosa. Pessoas que alardeiam colapsos nas cadeias de abastecimento, pousos forçados da economia ou crises financeiras poderiam facilmente ganhar dinheiro com suas previsões, se fossem tão visionárias quanto afirmam. Mas a IA é diferente.
No extremo mais radical do espectro, os riscos são, por sua própria natureza, impossíveis de proteger por meio de hedge. Mesmo que fosse possível calcular as chances de uma ameaça existencial, não haveria muito sentido em comprar proteção de contrapartes que não estariam mais por aqui para pagar a indenização.
No caso de uma “tomada de controle pela IA”, em que os seres humanos fossem subjugados ou deixados de lado, os grandes vencedores seriam as próprias entidades de IA, que assumiriam o controle como formas de vida dominantes na Terra. Elas seriam as contrapartes naturais de qualquer apólice de seguro que um profeta do apocalipse quisesse comprar. Mas, mesmo que isso fosse possível, uma superinteligência seria uma parceira de negociação difícil. Diferentemente dos humanos, provavelmente leria as letras miúdas.
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