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A Vivo firmou parceria com a Starlink, de Elon Musk, para oferecer internet móvel por satélite no Brasil, lançando o serviço ‘Vivo Satélite’ em 26 de outubro de 2026. A tecnologia D2D conecta celulares diretamente aos satélites, beneficiando áreas remotas sem infraestrutura terrestre. O serviço é gratuito por 12 meses para clientes pós-pagos e alguns pré-pagos. A Starlink, com 10 milhões de clientes globais, vê o Brasil como um mercado chave. A parceria visa expandir a cobertura e diferenciar a Vivo no mercado.
A Vivo fechou uma parceria com a Starlink, de Elon Musk, para oferecer internet móvel por satélite em todo o território brasileiro, de acordo com informações antecipadas para o Estadão/Broadcast. O novo serviço conecta celulares diretamente aos satélites na órbita da Terra. Essa tecnologia é conhecida como direct to device (D2D) e está começando a se espalhar ao redor do mundo.
Batizado de “Vivo Satélite”, o novo recurso passa nesta segunda-feira, 26, sem custo adicional, para todos os planos pós-pagos e para alguns planos do tipo controle e pré-pago por 12 meses. Neste lançamento, a oferta vai atender 50 milhões de consumidores, quase metade da base móvel total da companhia, de 105 milhões. Já os clientes empresariais poderão experimentar a conexão gratuita por três meses. Depois, o D2D estará disponível mediante contratação.

Até agora, o serviço requeria antena e roteador em solo para captar o sinal do espaço; a internet móvel dispensa Foto: Odd Andersen/AFP
A Starlink passou os últimos meses se preparando para ofertar o novo serviço no Brasil. A internet por satélite é a grande aposta do magnata Elon Musk para acelerar o crescimento do grupo no setor de telecomunicações. A Starlink já tem mais de 10 milhões de clientes de internet fixa no mundo. O Brasil, aliás, é o segundo maior mercado do grupo, ultrapassando 1 milhão de acessos. Só que esse serviço requer antena e roteador em solo para captar o sinal do espaço.
O novo passo agora é a tecnologia D2D, de internet móvel, conectando celulares sem equipamentos em solo. Nesta vertical, a empresa de Musk vai trabalhar em parceria com as operadoras locais no Brasil, assim como já faz nos Estados Unidos e em alguns vizinhos da América Latina, como Chile.
Cobertura para áreas remotas
A grande vantagem do D2D é levar a internet para locais remotos – como zonas rurais, áreas florestais, rodovias, entre outros – onde não há torres, antenas ou redes de fibra ótica.
“Com essa parceria, temos um potencial enorme para complementar o serviço móvel para os clientes onde não temos infraestrutura”, afirmou o chefe de operações da Vivo, Alex Salgado, em entrevista exclusiva. “Nossa cobertura terrestre chega a mais de 98% da população brasileira. Esses menos de 2% que faltam são pessoas espalhadas em um território muito grande, onde o D2D é a tecnologia certa para o atendimento.”
Já a desvantagem está na velocidade da navegação inferior à do sinal 4G/5G. Isso acontece em razão da distância maior a ser percorrida pelo sinal dos celulares até os satélites, que ficam a uma altitude de 550 quilômetros, afetando a latência. Assim, o D2D será capaz de atender apenas algumas funções básicas, como mensagens de texto via SMS, troca de arquivos de áudio e chamadas de voz via WhatsApp (vídeo não funciona, ou funciona mal), Google Maps e o aplicativo da operadora.

Serviço ‘Vivo Satélite’ começou a ser oferecido nesta segunda-feira, 26 Foto: Vivo/Divulgação
“Nós estamos fazendo uma comunicação consciente para as pessoas não acharem que o D2D terá a mesma qualidade da internet do 5G. A rede satelital é para uma comunicação essencial nessas áreas mais remotas, onde as pessoas costumavam ficar sem sinal”, ponderou Salgado.
Há também certas restrições de celulares. Os aparelhos mais novos dos sistemas IOS e Android passaram por atualizações que permitem um ajuste automático para habilitar os aplicativos a funcionar por meio do sinal D2D. Já os celulares mais antigos vão demandar um ajuste manual nas configurações.
O sinal da Starlink usará a faixa de 2,6 Ghz da Vivo. A parceria não tem prazo pré-definido, nem exigência de exclusividade. Ambas as empresas podem firmar outras parcerias para explorar o D2D. Os termos comerciais do acordo são mantidos sob sigilo.
Sete milhões já testaram
O número de brasileiros que já se conectaram ao D2D de Starlink e Vivo chegou a 7 milhões de pessoas. As conexões foram realizadas durante a fase de testes ao longo da última semana até o lançamento oficial nesta segunda-feira, 26.
“Isso é enorme. São pessoas que, de outra forma, teriam tido chamadas interrompidas, não teriam conseguido completar, por exemplo, uma mensagem de texto, ou estariam em uma área totalmente sem sinal móvel”, destacou Sharon Zhang, diretora de política regulatória de satélites da Starlink, na SpaceX, em entrevista.
“Essa parceria com a Vivo é a concretização da nossa estratégia de longo prazo para o Starlink Mobile, que é trabalhar com operadoras no mundo todo para oferecer cobertura suplementar, algo extremamente impactante em um mercado como o Brasil”, acrescentou.
Para a Vivo, que não cobrará pelo uso dos consumidores, o negócio representa um investimento para se diferenciar das concorrentes. “Estamos pensando no benefício que vamos levar ao usuário com esse ganho de cobertura”, afirmou o chefe de operações.
Já no braço empresarial, a Vivo espera fechar novos contratos de conectividade com a extensão da cobertura. A tele já atende empresas do agronegócio, logística e infraestrutura, por exemplo, com crescimento acelerado da receita nos últimos meses. “O D2D pode gerar mais negócios aí”.

O Brasil é um mercado relevante para Musk (na foto, com o presidente americano, Donald Trump) Foto: Julia Demaree Nikhinson/AP
Nos próximos anos, a Starlink prevê lançar novas gerações de satélites que prometem maior velocidade de navegação. Lá fora, a empresa de Musk está investindo também na compra de frequências e no licenciamento de torres, para operar sozinha como operadora móvel.
Salgado declarou que a evolução da internet por satélite será positiva para o mercado como um todo, indicando que não trata a Starlink como uma concorrente direta. “Vejo com bons olhos a evolução da tecnologia e as perspectivas de novas gerações de satélites. Conforme surjam, vamos incorporando”, disse. “Essa é uma tecnologia que veio para ficar. Mas o D2D é para complementar, não substituir. A rede terrestre tem uma performance muito melhor. Não vejo uma evolução do satélite que possa substituir isso.”
Chegada via parcerias com teles locais
O Brasil entrou para um restrito grupo de países onde foi lançada a internet móvel por satélite. O serviço é importante para cobrir áreas remotas não atendidas pelas operadoras tradicionais – zonas rurais, áreas florestais, rodovias e afins –, além de situações de emergências e desastres naturais em que a infraestrutura em solo sofre panes. O D2D ainda não tem um sinal tão potente como a internet tradicional, mas isso caminha para mudar no futuro. Claro e TIM também estudam o modelo, adotado pela Vivo.
Na sexta-feira, 23, outra parceria movimentou o setor. As provedoras Unifique, Brisanet e Iez Telecom assinaram um acordo comercial com outra empresa norte-americana do ramo, a AST Space Mobile, para lançar um serviço de banda larga móvel baseado na mesma tecnologia D2D. A AST tem sede no Texas e ações negociadas na Nasdaq. Recentemente, abriu um escritório em São Paulo.
Esta é uma nova fase para o setor das telecomunicações. Nos últimos anos, já houve um avanço da internet por satélite como banda larga fixa, dependente de antenas e roteadores em solo. Agora, a nova tecnologia fornece internet móvel diretamente no celular, sem depender de infraestrutura terrestre.
“Essas parcerias trazem maior cobertura e diferenciação para os planos das operadoras. Os acordos permitem oferecer serviço móvel onde antes não tinha sinal de internet. Isso é relevante em diversas áreas”, afirmou o líder global de pesquisa em telecomunicações da consultoria britânica Omdia, Ari Lopes. “A operadora que não tiver esse tipo de acordo vai ficar um pouco para trás”, emendou.
Nos Estados Unidos, as três maiores teles já firmaram parcerias com a Starlink. A T-Mobile foi a primeira a lançar comercialmente um serviço de internet móvel por satélite, em julho de 2025.
De lá para cá, AT&T e Verizon também fizeram acordos similares. Na América Latina, a Starlink fez parceiras de D2D com a operadora Entel no Chile e no Peru; com a Liberty no Panamá e na Costa Rica; e com a CNT, no Equador. Por sua vez, a AST tem acordos com a AT&T e a Verizon nos EUA, e com a Vodafone, na Europa.
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Neste primeiro momento, a nova tecnologia de internet móvel vai atender apenas funções básicas, como trocas de mensagens, acesso ao Google Maps e a poucos aplicativos. A velocidade de navegação é bem menor que no 4G e 5G devido a limitações técnicas. Uma delas é a distância que o sinal percorre do celular aos satélites na órbita (eles estão bem mais longe que as antenas em solo). Outra é a largura pequena da frequência utilizada pelo sinal.
Nos próximos anos, é esperada um salto na qualidade do D2D com o lançamento de gerações de satélites mais modernos e mudanças regulatórias que permitam o uso de frequência mais largas por essas empresas, melhorando bastante o sinal.
“Algumas empresas desse setor, como a AST, projetam seus satélites para suportar dados, voz e vídeo. Contudo, os testes iniciais e implementações atuais de D2D com as operadoras focam prioritariamente em serviços de menor consumo, como mensagens de texto e voz, o que já é interessante”, afirmou Eduardo Tude, fundador da consultoria Teleco. “O principal ganho do D2D neste momento está em possibilitar que o usuário, quando estiver numa área remota, consiga se comunicar. É um complemento para a rede terrestre.”
Os analistas de telecomunicações do UBS, Leonardo Olmos e Gustavo Farias, acreditam que o mercado de internet fixa e móvel por satélites deve crescer bastante nos próximos anos, incluindo aí a chegada de empresas chinesas. “Vai vir mais gente competir. O satélite é como o carro elétrico. Começou nos Estados Unidos e vai atrair empresas chinesas”, disse Olmos, em entrevista.
A SpaceSail, empresa conhecida como “Starlink chinesa”, recebeu autorização da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) para sua constelação de satélites funcionar no País, embora o lançamento comercial ainda não tenha ocorrido. A Amazon, que também está lançando seus próprios satélites, pretende atuar no Brasil em parceria com a Sky.
Parceria ou concorrência?
Os analistas do UBS acrescentaram que é preciso refletir sobre o que poderia acontecer se, no futuro, as empresas de internet por satélite decidissem abandonar as parcerias com as teles locais e oferecer o serviço diretamente ao consumidor, sem depender de intermediários.
Para isso, seria preciso deter diversas frequências próprias (que são licenciadas via agências regulatórias de cada país, como a Anatel) e um parque de torres e antenas locais para espalhar o sinal vindo dos satélites. É exatamente isso que a Starlink está fazendo nos Estados Unidos, onde já começou a comprar frequências e avaliar contratos para uso de torres.
“A grande curiosidade é que as operadoras do Brasil e de outros países estão firmando parcerias que, no futuro, poderiam se virar contra elas”, comentou Olmos. ?A Starlink está avançando cada vez mais nesse sentido nos EUA”.
Lopes, da Omdia, lembrou ainda que o D2D oferece riscos à soberania nacional que precisam ser bem medidos. Como exemplo, citou a suspeita do governo ucraniano de que a Starlink teria reduzido o sinal de internet por lá, afetando o gerenciamento dos drones usados na guerra. “Empresas com esse tipo de tecnologia criam um poder de mercado e também geopolítico que precisam ser avaliados”, alertou.