
Em 2016, a Fitch fez 49 rebaixamentos Foto: Wei Zheng/Adobe Stock – 04/12/2024
A Fitch Ratings promoveu em 2026 o segundo maior número de rebaixamentos já realizados em sua série histórica de mais de 20 anos. O volume é provocado, essencialmente, pela sustentação de patamares elevados de juro por um período prolongado e riscos de refinanciamento trazidos pelo maior escrutínio dos bancos e do mercado de capitais na concessão de novo crédito.
“O cenário é preocupante quando se olha o histórico de mais de 20 anos, com o juro afetando as empresas de uma maneira poucas vezes vistas no Brasil”, diz à Coluna o diretor sênior de finanças corporativas da agência de classificação de risco, Renato Donatti. Em 2026, até maio, a Fitch rebaixou o rating de 20 empresas, mais do que todo o volume registrado em 2025, com 19 rebaixamentos. No ano, até agosto, são 25 notas cortadas.
Segundo o executivo, este é “o segundo pior momento de rebaixamentos” desde 2015 e 2016, durante um período em que a Lava Jato e o impeachment de Dilma Rousseff culminaram em uma crise de juro e de liquidez, “tudo ao mesmo tempo”. Em 2016, foram 49 rebaixamentos.
Agora, para além do desafio com o juro elevado, as companhias enfrentam ainda desdobramentos do conflito do Oriente Médio sobre custos relacionados ao petróleo e que afetam também o dólar.
Companhias consomem caixa para pagar juros
E os recursos que as empresas geram em suas operações estão sendo usados para pagar juros de dívidas. Donatti observa que o consumo de caixa para pagamento de juro com as dívidas é um problema generalizado entre as empresas, notando que entre 30% e 40% das 300 companhias acompanhadas pela Fitch estão nessa condição.
Paralelamente, o mercado de capitais, que nos últimos dois anos foram excepcionais para a tomada de dívida a um baixo custo, está mais seletivo, nota o diretor da Fitch. “O mercado se retraiu”, afirma, citando os eventos de crédito em Ambipar, Raízen, Braskem, GPA e Casas Bahia como eventos que afastaram os investidores tanto no mercado local, quanto no externo.
No entanto, Donatti diz não haver uma “crise de liquidez”, ainda que as companhias que não têm os melhores ratings paguem mais caro para acessar o mercado. “O dinheiro ficou um pouco mais caro, mas ele ainda tá disponível. A torneira não fechou”, acrescentou.
Vai melhorar
Olhando para frente, o diretor da Fitch entende que a perspectiva é de que os juros vão continuar caindo, ainda que lentamente, e que os ajustes que várias companhias fizeram, cortando custos e despesas, podem diminuir os gargalos que enfrentam agora. “A expectativa é de uma melhora gradual, ou seja, que a queima de caixa comece a diminuir, que a alavancagem das empresas comece a diminuir, mas de modo lento”, afirma.
De toda a forma, o alívio depende da direção do juro no ano que vem e do quanto o cenário geopolítico e eleitoral pesar a favor ou contra tal movimento da Selic. “Se eventualmente o cenário muda, o Banco Central para e bota o pé no freio ou até volte a subir o juro, o cenário passa a ser um pouco mais catastrófico”, acrescenta.
Donatti espera contínua pressão nos setores de varejo, saúde e agronegócios. Este último será afetado pela volatilidade nos preços de commodities, dúvidas sobre tarifas dos Estados Unidos e os efeitos de um El Niño mais severo, de acordo com ele.
Donatti nota que o ano de 2027 será relevante também para rolagens de dívidas tomadas no mercado de capitais, onde os maiores vencimentos estão previstos para 2028. “As empresas antecipam e nesse contexto, o ambiente de mercado será determinante também”, afirma.
Esta notícia foi publicada na Broadcast+ no dia 01/09/2026, às 17:10
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